A crise da Igreja é uma crise dos bispos

Dom Licínio Rangel
Abril 1988

Sob o título acima o Boletim “Notizie de Una Voce Italiana – Dez/87 – noticia e reproduz parte de uma importante conferência do Prof. Georg. May, diretor do Seminário de Direito Canônico da Universidade de Mogúncia, proferida durante jornada anual da Una Voce Germânica. Observa inicialmente o ilustre canonista e historiador da Igreja que o título da sua conferência é de autoria do Cardeal Seper, ex-prefeito da Sagrada Congregação para a defesa da fé. Ressalta em seguida, que não é a sua intenção contestar o próprio munus episcopal, e a obediência que se deve aos Bispos, “postos pelo Espírito Santo para reger a Igreja de Deus”, mas de cumprir um dever para com a verdade, e o bem da Igreja, numa linguagem proporcional à gravidade da situação e da realidade eclesiástica, em vista a uma urgente mudança de orientação.

Para que se perceba todo o alcance dessa conferência basta que se mencionem os sub-títulos: “O insucesso do Concílio” – “A decadência pós-Conciliar” – “A anemia do anúncio da fé” – “A decadência do Clero” – “A bancarrota da disciplina” – “A desobediência dos Pastores” e “O seu desvio político” – “O dano mortal do Ecumenismo” – “A calamidade da reforma litúrgica”.

Salta aos olhos a evidência de que todos esses males, que constituem a crise da Igreja, têm por principais responsáveis os Bispos.

O boletim da Una Voce Italiana reproduz o capítulo que tem por título “A calamidade da reforma litúrgica”. Depois de lembrar que a Santa Missa, o que há de mais sagrado na Igreja, foi profundamente modificada, acrescenta que fato tão inaudito só foi possível graças ao apoio dos Bispos que acolheram os graves desvios das mentes de certos liturgicistas exaltados. Demonstra que a pretensa reforma litúrgica, foi a pior calamidade para a Igreja, está totalmente falida malgrado a insistência em se afirmar o contrário. Nota que o próprio Cardeal Ratzinger recusou-se a aceitar o pretenso sucesso da reforma litúrgica.

A responsabilidade dos Bispos em geral – e da Cúria Romana em particular é patente também pelo fato de os novos Livros Litúrgicos sancionarem os dois princípios mais deletérios da Sagrada Liturgia: o da “criatividade” e o da “aculturação”, tem servido para, sob pretexto de adaptação aos costumes dos povos, introduzirem-se, entre muitas outras aberrações, invocações de divindades animistas, danças folclóricas e carnavalescas. E nas viagens do Papa, o que não se tem permitido sob tal pretexto? Basta lembrar o que aconteceu na Missa do Papa em Guiné-Papua, em que uma jovem que leu a Epístola, estava totalmente desnuda da cintura para cima.

Depois de fatos como estes, que mais se pode esperar? Isso só no campo litúrgico. E tudo sob os olhares dos Bispos, que a tudo, complacentemente, ou aprovam ou permitem, sendo eles os responsáveis pela ordenação do culto divino em suas dioceses. Acresce que os seus direitos foram, nesse campo, amplamente aumentados pelo último Concílio. Tinha, pois, razão o insuspeito Cardeal Seper ao afirmar que a crise da Igreja é crise dos Bispos.

Dom Licínio Rangel
Campos, abril de 1988

Publicado na Revista Heri et Hodie nº 52.