A eficácia do rito “ordinário”

Pelos padres do Priorado Padre Anchieta, FSSPX

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Padre Antonio Pino Caiazzo, pároco da Arquidiocese de Crotone e Santa Severina (Itália)

Não são poucos os que insistem, talvez de boa-fé, que a missa nova é tão católica quanto a missa que chamamos tridentina, e isso se vê refletido no modo habitual de falar com a já conhecida expressão “rito ordinário-extraordinário”. Mas, como já se disse no artigo anterior sobre o tema, detrás da missa nova achamos uma outra teologia que não pertence ao depósito da revelação e que lhe é estanha; tal teologia é chamada pelos seus mesmos criadores de Mistério Pascal. Já não é possível negar a existência desta teologia posto que os mesmos papas, começando por Paulo VI até o atual a reconhecem abertamente e a consideram o primeiro princípio da liturgia. Como o MP não é uma idéia única, mas um sistema completo de pensamento, é necessário estudá-lo por partes à luz da doutrina católica para que aos poucos nos vá revelando seus secretos pensamentos.

Vamos agora tocar um ponto neurálgico do dito sistema, e que à sua vez é também centralicíssimo na missa católica e que é o modo como se realiza o sacrifício dentro dela. Ensina Pio XII: No altar há uma imolação incruenta “com sinais exteriores, que são signos de morte, já que, graças à ‘transubstanciação’ do pão no Corpo e do vinho no Sangue de Cristo, assim como está realmente presente seu Corpo, também o está seu Sangue; e dessa maneira as espécies eucarísticas, sob as quais Ele se acha no altar há uma imolação incruenta, simbolizam (figurant) a cruenta separação do Corpo e do Sangue” (DzH 3848). Todo católico sabe que o fato da transubstanciação ocorre por uma única razão: o poder sacerdotal conferido na ordenação dos Apóstolos na última ceia (fazei isto) e que, geração após geração, a Santa Igreja guardou e distribuiu aos que o mesmo Senhor chamava (vocação). Em resumidas contas: a missa é o que é por que tem sacerdote, e ponto final.

Mas, oh surpresa! O MP não pensa assim, a missa é missa por uma razão completamente diferente. Vejamos: Jesus e os apóstolos, inseridos no contexto cultural do AT e totalmente impregnados de sua espiritualidade, não podem ser compreendidos senão a partir dele. Os novos teólogos têm de voltar-se, pois, para a Páscoa judaica, a fim de entender a natureza íntima da Eucaristia. Pois bem, dizem-nos[1], o ritual da antiga Páscoa era essencialmente comemorativo, em razão do triplo objeto que tinha: Israel recordava a libertação milagrosa do Egito, dando graças a Deus com cânticos de ação de graças — com uma “eucaristia” — por sua intervenção a favor de seu povo. Mas, prosseguem eles, não se tratava de simples memorial de uma ação passada: essa recordação não era exclusivamente subjetiva; também fazia com que Deus se lembrasse de seu povo, tornando-se, deste modo, presente no meio dele para renovar o efeito salvador de sua ação passada: “Na noite de Páscoa, não só Israel se recorda de Javé e de suas ações salvíficas, mas também Javé se recorda de Israel e de seus devotos. Esta recordação por parte de Javé significa, em correspondência com as concepções bíblicas e do judaísmo tardio, um certo tornar-se presente de Deus e um certo atualizar-se de sua salvação”[2]. O memorial era, pois, objetivo, ou seja, atualização e anúncio da Aliança diante de Deus e diante dos homens. Mas os judeus sabiam que esta Aliança celebrada estava em via de realizar-se: Israel esperava a vinda do Messias. Assim, concluem, o rito da Páscoa tomava uma terceira dimensão, profética e escatológica. Comemoração de uma ação salvadora passada, anúncio e celebração eucarística da Aliança presente, e profecia da plenitude futura: tal era, segundo eles, a Páscoa judaica.

Assim, pois, ao instituir a Eucaristia durante o banquete Pascal, Cristo teria assumido o rito da Páscoa antiga, e este só nos é descrito em sua dimensão comemorativa; portanto, a missa é considerada antes de tudo como “memorial do Senhor”[3] Como já vimos, o memorial judeu tinha a característica de fazer com que Deus estivesse novamente presente e de atualizar sua salvação; era um memorial objetivo e não uma simples comemoração psicológica. O mesmo sucede com a Eucaristia: não é uma simples recordação, senão que torna a fazer presentes os atos salvadores de Cristo que comemora: “[A celebração eucarística] é, portanto, um memorial objetivo, e não só (conquanto naturalmente o seja) uma recordação subjetiva do que o Senhor fez por nós. Em outras palavras: é um memorial real, não só mental; não uma recordação meramente conceitual, não uma nuda commemoratio, como definiu o Concílio de Trento contra Lutero”[4]

Esta ação, para que não se interprete como exteriorização de uma recordação subjetiva, terá de ser, por natureza, comunitária, social, e dizer, sem povo não teremos missa. Seguindo sempre o princípio da continuidade comemorativa estabelecida entre a Páscoa nova e a antiga, será um banquete, pois Jesus Cristo instituiu o memorial eucarístico durante uma refeição ritual judaica: “A idéia fundamental [na Missa da Igreja primitiva] foi sempre comemorar num repasto sagrado a paixão redentora do Senhor. Por isso aparece em primeiro plano a estrutura de uma ceia. […] Aquele banquete não era uma refeição ordinária, e sim sagrada, santificada e espiritualizada não só pela comemoração a que se referia, e que se realizava sacramentalmente, mas também porque ficava sublimado até o trono mesmo de Deus, em virtude das orações que se diziam”[5].

Antes de concluir este minúsculo artigo, vai uma pequena fofoca para o leitor: Este padre Jungmann que mencionamos na nota 6 e que nos ensina “como realmente foi o conceito da missa na igreja primitiva e que depois foi perdido na idade média” foi lido por todos os bispos que chegaram ao CV II, posto que na Espanha pós-Guerra Civil o General Franco doava para a BAC o papel da impressão e assim o custo era baixíssimo e o alcance, enorme.

Não sei se o caro leitor foi seguindo o fio da meada nesta densa explicação, mas em definitivo o que se nos está dizendo é que a virtude (força) de nossa missa depende da virtude da páscoa judaica; é lógico, pois, que sejam os nossos irmãos maiores. Existe um ponto significativo: O vocabulário da Institutio generalis Missalis romani. Nela não aparece nem uma só vez a palavra “transubstanciação”, nem sequer a expressão “presença real”.

O magistério infalível da Igreja não tolera esta omissão e a qualifica de: “perniciosa, derrogando à exposição da verdade católica a respeito do dogma da transubstanciação, favorecendo os hereges” (DzH 2629)

Se há um sacrifício verdadeiro, e não simplesmente o signo de um sacrifício, não é pela objetividade do memorial, mas porque a transubstanciação faz que estejam realmente presentes o corpo e o sangue da divina Vítima.

Então, caro irmão na Fé, já é hora de purificar a nossa linguagem católica. Chamemos o rito ordinário da Igreja latina de missa Tridentina e à outra de extraordinária falsificação!

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Fonte das imagens: sanpaolokr.com


[1] Cf. Salvatore Marsili, “La misa, misterio pascual y misterio de la Iglesia”, em La sagrada liturgia renovada por el Concilio, dirigida por G. Barauna, Studium, Madri, 1965, pp. 468-470 (Marsili foi fundador do Pontifício Instituto Litúrgico Santo Anselmo); Pietro Sorci, artigo “Misterio Pascual”, NDL, p. 1362.

[2] N. Füglister, citado por Neunheuser, artigo “Memorial”, NDL, p. 1262 a. Cf. Louis Bouyer, Eucaristia, Herder, 1969, p. 96.

[3] Quando o Catecismo de 1992 dá os nomes do sacramento da Eucaristia (CI 1328-1332), agrega a cada denominação (Eucaristia, banquete do Senhor etc.) uma explicação que começa com a conjunção “porque” ou com a conjunção “pois”. Mas, quando lhe dá o nome de “memorial” (CI 1330), afirma-o simplesmente como tal: “Memorial da Paixão e da Ressurreição do Senhor”. É portanto, segundo o Catecismo de 1992, o nome que convém mais propriamente a este sacramento.

[4] Burkhard Neunheuser, artigo “Memorial”, NDL, p. 1267 b.

[5] Joseph-André Jungmann, El sacrificio de la Misa, 4ª edição [tradução corrigida], BAC, 1963, p. 38. (Jungmann era membro do Consilium). Cf. Romano Guardini, Besinnung vor der Feier des hl. Messe, Mogúncia, 1939, p. 76; Henri-Marie Féret, La messe, rassemblement de la communauté, coleção Lex orandi, Cerf, Paris, 1947, pp. 226 ss.