A liturgia na religião cristã

Editorial do Superior do Distrito de França – Carta aos Amigos e Benfeitores – Abril de 2007

A esperança de ver reconhecida a liberdade da Missa de São Pio V, a grande oração do Rosário realizada em toda a parte com essa intenção, a coincidência desse fervor com o violento protesto do episcopado francês transmitido pelos media, colocaram, nos últimos meses, a liturgia no centro da atualidade. Eis o que nos dá motivos que bastem, caros Amigos e Benfeitores, para falar, por nossa vez, do conjunto de cânticos, orações, símbolos, que se chama a “liturgia”.

Porque ocupa a liturgia tal lugar na religião cristã? O essencial, como lembrou Nosso Senhor à Samaritana, não consiste em adorar em espírito e em verdade? Valerão alguns gestos, verdadeiramente, esta guerra de ritos, na qual a Fraternidade São Pio X se encontra envolvida? Nosso Senhor não responderia à letra aos adeptos do antigo e do novo, dizendo-lhes que as suas querelas são tão estéreis como a dos judeus e dos samaritanos a propósito da adoração no Monte Garizim ou no Monte Sião? Em vez de nos atormentarmos com lutas intestinas, não faríamos muito melhor em unir nossos esforços contra o inimigo comum que ameaça destruir os últimos destroços da Cristandade?

Responder a estas perguntas, é lembrar, primeiramente, que a liturgia é a expressão mais perfeita da oração que a Igreja dirige a Deus. E é mostrar, em conseqüência, porquê a sua metamorfose de 1969, nova missa de Lutero, não passa, liturgicamente, de uma contrafação.

Ao criar-nos, Deus deu-nos um corpo e uma alma. Estas duas partes do ser humano estão unidas de tal modo, tão intimamente, que nada pode chegar à inteligência que não tenha, em primeiro lugar, passado pelos nossos sentidos. Só estes têm o privilégio de propor às nossas faculdades espirituais a comida com que elas se alimentarão.

Esta composição da criatura humana, corpo e alma, provoca-lhe a necessidade natural e o dever de dar a Deus um louvor que seja a expressão da essência que ela recebeu: a adoração deve significar tudo do ser de que emana. Uma oração que fosse unicamente corporal, ou somente espiritual, seria uma falta para com Deus, dado que Lhe roubaria uma parte da Sua glória e Lhe apresentaria uma face desnaturada da Sua criatura.

Eis porquê, desde o começo dos séculos, a Igreja celebra um culto para o qual contribuem todos os sentidos do homem. A sua associação à liturgia é indicadora da sua perfeita sujeição a Deus. Uma ilustração admirável é-nos dada no Batismo, em que o ritual abre os cinco sentidos para que possam preencher a mais nobre missão: dar glória a Deus como canais da Sua graça. O corpo humano, dentre todas as criaturas, é deste modo chamado a ser atravessado pela mais gloriosa das vibrações: a comunicação da Vida divina até ao íntimo da alma. Nenhuma outra natureza material, senão o pão e o vinho para a Consagração, e os outros elementos escolhidos para a confecção dos Sacramentos, podem rivalizar com ele.

Se a Deus não repugna receber a homenagem de todas as Suas criaturas, se o corpo humano, pelo seu papel junto da alma, se situa em primeiro lugar neste concerto de louvores; não é senão em razão da sua espiritualidade que o homem pode dirigir a Deus o mais belo cântico. Pela sua alma, não é apenas um simples vestígio da potência criadora de Deus, mas a Sua verdadeira imagem. É somente dela que pode brotar da Terra um cântico superior, o de uma criatura feita do barro, mas consciente, no meio de todas as outras, do que deve a Deus. Pela livre orientação da sua existência voltada para Ele, o homem, dotado da centelha do espírito, é chamado a pronunciar uma oração infinitamente mais bela, correspondente à opulência dos dons recebidos.

Esta seria sua obrigação, mesmo que não tivesse sido elevado à ordem sobrenatural. Mas, a Bondade de Deus quis que a Sua criatura humana se tornasse Seu filho, modelado à semelhança de Seu Filho. À nova e sublime dignidade do batizado está ligada uma relação de intensidade espiritual, cuja única medida é a de Seu Amor.

Qual será, assim, a oração dessa criatura única, simultaneamente material e espiritual, pecadora, mas de tal modo amada por Deus que Ele não hesita em derramar Seu Sangue por ela? Será preciso nada menos do que a Missão de Seu Filho para a inaugurar na Terra, e nada menos do que a do Seu Espírito para a preservar de todo o erro e a conservar na sua pureza até ao final do mundo. Será necessária a fundação de uma Igreja para lhe confiar a sua guarda, que esta amadureça a sua formulação e a leve até à sua perfeição. Será preciso gênio e amor ou, melhor, o gênio do amor de algumas gerações de santos, para que o mais espiritual dos colóquios, o da Esposa ao Seu Esposo, seja traduzido na beleza mais acabada, para cuja expressão concorrem todas as artes e todos os talentos.

«Ninguém pensa criticar a grande parte de liberdade deixada, nos primeiros tempos cristãos, às fórmulas da oração litúrgica: é a condição ordinária das épocas de formação».

Esta observação de Dom Guéranger permite compreender a primavera da liturgia, cujos frutos foram os grandes ritos depois consagrados pelo tempo. Entre estes, o de Roma, banhado pela latinidade que soube colher o melhor de todos os séculos precedentes, fecundado pelo Sangue de São Pedro, de São Paulo e de todos os mártires, e imensamente realçado pelo prestígio da linhagem dos Papas.

A perícia do escultor sabe que são decisivas as últimas marcas feitas na matéria: quando o momento de conclusão está próximo, os golpes de cinzel tornam-se raros e quase imperceptíveis; um único bastaria para comprometer a obra de arte. Depende, então, da sabedoria e da humildade do escultor saber discernir o instante de perfeição, o qual aprendeu que é sempre seguido por outro, em que tudo começa a velar-se. A alma, toda emocionada de ter visto brotar dela, de contemplar em face dela o que nela tem, recolhe-se ainda uma vez, antes de arrumar os seus instrumentos. Que se defenda, então, dos demônios da fascinação, que surgem depois do tempo da exaltação fecunda tão pacientemente conseguida! Demônios bárbaros e autoritários, inimigos da harmonia ou a ela estranhos, que, sob cobertura de inspiração, sopram o excesso para aniquilar a obra.

Não é menor o mérito do Papa São Pio V, mergulhado na admiração e adoração do rito da Missa que celebrava, cuja santidade e completa adesão ao Sacrifício lhe permitiam apreender o seu poder e dele saborear o esplendor, tê-lo compreendido como chegado às linhas definitivas de pureza. Sua alma de místico o tinha, desde há muito, interiorizado como expressão tão límpida do Sacrifício da Cruz, que não cessava de transbordar estes mistérios que a penetravam por todas as partes. Suas graças de Papa levaram-no a declará-la imutável, digna de assegurar para sempre a unidade litúrgica da Igreja. Mas o luxo da insistência e de adjuração solene da Bula Quo Primum Tempore revelam estar consciente das temíveis ameaças que pesam sobre este tesouro:

«Por Nossa presente constituição, válida para sempre, decidimos e ordenamos, sob pena de Nossa maldição, que jamais algo seja acrescentado, suprimido ou modificado no Nosso Missal que acabamos de editar (…) E além disso, pelas disposições precedentes e em nome de Nossa autoridade apostólica, concedemos e outorgamos que este mesmo Missal possa ser seguido na totalidade na Missa cantada ou rezada, em qualquer igreja que seja, sem nenhum escrúpulo de consciência, e sem incorrer em nenhuma punição, condenação ou censura, e que se poderá validamente utilizar livremente e licitamente, e isto perpetuamente.»

A adesão da alma à beleza, a intuição da obra-prima, a certeza de se encontrar em presença de uma forma única e insuperável, só pôde ser obtida pela mais humilde submissão à Tradição da Igreja e pela mais santa das harmonias interiores com o Sacrifício da Cruz. Se o teólogo demonstra que as fórmulas utilizadas na Missa conduzem a uma síntese rigorosa da Fé, se a liturgia exprime sua beleza e harmonia, somente à alma que se abre à graça de Deus é dado ser presa e invadida por este Mistério, e à alma dos santos o não mais poder saborear outro.

No entanto, chegou o momento de descer, contra vontade, mas deliberadamente, da nossa adoração e da nossa alegria, porque um sucessor de Pedro, vencido pelas idéias liberais, entrou na oficina do escultor para se apoderar das suas ferramentas. Enquanto simples arcebispo de Milão, já esperava da Igreja que

«Ela cuidaria em pôr-se em dia, despojando-se, se necessário, deste ou daquele manto real mantido nos seus soberanos ombros, para se vestir com vestuário mais simples, exigido pelo gosto moderno».

«O gosto moderno»! Mas, que vem ele fazer aqui? Como ousar designá-lo como critério da liturgia? Em poucas palavras, Monsenhor Montini proclamava já a revolução litúrgica que sujeitaria a Missa à inconstância da moda. Mas que nova linguagem é esta, ressumando demagogia? Não é desprezo pelas almas batizadas pensar que são inaptas para apreciar os tesouros da beleza litúrgica? Ou verdadeiro desespero de já não crer que se poderá levá-las a isso?

Sejam-nos dados nomes de bispos que tenham emitido tais palavras durante a História da Igreja. Bem tememos que os únicos, ou quase únicos a exprimir-se assim… sejam os heréticos. Indiferente às exprobrações de São Pio V, o antigo arcebispo de Milão, feito Papa, surgiu na oficina do escultor, e decretou decididamente que a sua Missa já não correspondia «ao gosto moderno».

Estava mesmo tão afastada dele que já não havia outra solução senão fabricar outra. Que isso não seja empecilho! «O novo Ordo Missae foi promulgado para tomar o lugar do antigo», declarou o Papa Paulo VI, enquanto se ativavam os agentes progressistas, sob o olhar atento e regozijado de seis pastores protestantes, encarregados de matutar uma missa, tal como se poderia confeccionar uma receita de culinária: para «o gosto moderno». Finalidade? Monsenhor Bugnini, que foi seu agente principal e indispensável, teve o cinismo de a definir como tal:

«A Igreja foi guiada pelo amor das almas e desejo de tudo fazer para facilitar aos nossos irmãos separados o caminho da união, afastando qualquer pedra que poderia constituir a mínima sombra de risco de tropeço ou de desagrado.»

Não se acabariam de citar as confissões de reconhecimento da protestantização de uma missa que não pode senão desagradar a Deus pelo que é:

«… Há em Paulo VI uma intenção ecumênica de apagar, ou pelo menos corrigir, ou pelo menos suavizar o que existe de muito católico, no sentido tradicional, na missa, e de aproximar a missa, repito, da ceia calvinista.»

Desta vez, é Jean Guitton, amigo íntimo do Papa, que nos faz a confidência. Assim, não mos admiremos com a gravíssima conclusão do Cardeal Ottaviani, antigo Prefeito do Santo Ofício, e do Cardeal Bacci, especialista incontestado de liturgia:

«O Novo Ordo Missae afasta-se de maneira impressionante, em conjunto como em detalhe, da teologia católica da Santa Missa».

Não podemos senão protestar, quando padres, que para si obtiveram autorização de celebrar segundo o antigo rito – quer se trate de padres da Fraternidade São Pedro, quer, doravante, do Instituto Bom Pastor – afirmem, os primeiros, a ortodoxia (1) da nova missa e, os outros, já admitam a sua legitimidade (2).

Atemo-nos a bem reafirmar, sem qualquer ambigüidade, o nosso julgamento sobre esta nova missa: se bem que, por si mesma, não seja inválida, é realmente má pelo seu equívoco. Fosse ela celebrada pelo mais virtuoso dos padres, fosse ela dita pelo próprio Santo Cura d’Ars, ainda favoreceria a perda da Fé e o pulular das heresias, e constituiria um objetivo ultraje a Deus. Afirmá-la ortodoxa ou legítima constitui um embuste. A nossa recusa da nova missa não é fundada numa preferência sensível, mas em motivos que atingem a Fé.

Portanto, dizemos aos nossos fiéis que a participação na nova missa não é nunca possível, não que baste assistir a ela uma vez para colocar a sua Fé em perigo, mas pela razão fundamental de que desagrada Deus. Desagrada-Lhe porque veicula um cristianismo desviante, degenerado, no qual Nosso Senhor Jesus Cristo não pode mais encontrar a religião que Ele veio ensinar-nos. Em compensação, não concluímos que a presença passiva, em certas ocasiões que a civilidade pede, não seja autorizada.

Queremos, para terminar, tomar do Profeta Habacuc o tom da sua santa ousadia ao dirigir-se a Deus:

«Até quando, Senhor, gritarei sem que me ouçais? Até quando elevarei a minha voz para Vós, sofrendo violências, sem que Vós me salveis? Porque me mostrais a iniqüidade e a dor, e me fazeis ver diante de mim a rapina e a injustiça?»

Tomamos a sua queixa à nossa conta: Usquequo, Domine? Até quando, Senhor, deixareis ainda aumentar a humilhação da Vossa Igreja, Vosso Vigário aventurar-se em caminhos tortuosos, e a confusão dos espíritos não cessar de crescer? Queremos importunar-Vos com as nossas súplicas, para que abrevieis o tempo em que, Vós o dissestes, se fosse possível até os eleitos se perderiam. No entanto, como não reconheceríamos, ao mesmo tempo, a Vossa misericórdia ao nos ter dado Dom Lefebvre, o rumo certo que ele traçou para si e sua Fraternidade, que prossegue incansavelmente a mesma orientação?

Um observador das terríveis agitações que sacodem a Igreja há alguns decênios poderia, sem dúvida, atestar da Fraternidade Sacerdotal São Pio X o que Louis Veuillot dizia da Abadia de Solesmes em 1861:

«Encontrei Solesmes tal como há vinte anos, e é agora a única coisa amada por mim que não caiu, ou que não se moveu desde essa data longínqua. Não saberia dizer-vos o que experimento em palpar e saborear essa solidez, após a longa série de desmoronamentos, de mortes e de transformações… Há ainda na Terra, por conseguinte, alguma coisa que conheci anteriormente e que posso reconhecer!»

Caros amigos e benfeitores, apesar de todas as adversidades da Igreja e de todos os abandonos do combate, não esqueçamos a nossa rara felicidade de poder dizer, com Veuillot, que nos foi também deixada a raiz da Tradição, que nunca cedeu.

Agradecemo-vos vossa determinação sobrenatural, que é para nós um tão precioso encorajamento para nunca desperdiçarmos nada da nossa magnífica herança de católicos!

Padre de Cacqueray, Superior do Distrito de França

Notas

(1) Declaração do Padre Vincent Ribeton (FSSP – Fraternidade São Pedro) em Forum Catholique, em 13 de Novembro de 2006: «Não creio que celebrar a missa segundo o novo ordo, evidentemente com a observância das rubricas, possa, em si, constituir uma desordem moral objetiva. Dizer o contrário equivaleria a afirmar que a Igreja teria promulgado um rito intrinsecamente mau, o que parece impossível de sustentar sem cair no sedevacantismo. Não estou convencido de que o novo rito exprima muito adequadamente cada uma das realidades que se atualizam no altar, mas isso não significa, por essa razão, que seja heterodoxa. De fato, as condições de validade e de ortodoxia de um rito constituem um mínimo, e a Igreja sempre assumiu ritos de maior ou menor riqueza, até mesmo, perdoem-me a expressão, de certa pobreza.» Depois desta declaração, parece que vários membros da FSSP têm posição mais reservada sobre a “ortodoxia” do N.O.M. e mais próxima da FSSPX.

(2) Declaração do Padre Tanoüarn (IBP – Instituto Bom Pastor) em Valeurs Actuelles, nº 3653, de 1 de Dezembro de 2006: «E, assim, apenas do ponto de vista destas diferenças de tom, que não é preciso exagerar forçosamente, mas que existem, e a nossa conversa é sinal disso, creio que é necessário aceitar a diferença de ritos, e aceitar que se possa ter uma preferência fundamentada, profunda, não apenas subjetiva ou estética, pelo rito tradicional. Dito isto, bem entendido, se em nome dessa preferência se anatemizam todos os outros, e se diz que o rito renovado não é legítimo, não se está a fazer nada na Igreja.»