Beatificação e continuidade

16-04-2011
pelo Rev. Padre Alain Lorans

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Na véspera da beatificação de João Paulo II não faltam reservas e críticas, como testemunha o livro do Professor Heinz-Lothar Barth na Alemanha e a exposição da revista dos EUA, The Remnant. A beatificação levanta a questão de um pontificado que, abertamente, se guiou pela bússola do Concílio Vaticano II: os encontros inter-religiosos de Assis, o beijo no Corão, a invocação «que São João Baptista proteja o islão», a participação no culto pagão numa «floresta sagrada» do Togo, a imposição da Cruz peitoral a dois «bispos» anglicanos…, estava tudo isto na linha diretora dada pelo Vaticano II? E se sim, onde está a continuidade entre este concílio e todos os que o precederam?

Compreende-se imediatamente o raciocínio lógico de Dom Brunero Gherardini, na sua última obra Concílio Vaticano II. Il discorso Mancato [Concílio Vaticano II. Um debate que falta – N.R.] que se seguiu ao seu Concilio Vaticano II. Un discorso da fare [Concílio Vaticano II. Um debate a abrir]. O professor emérito da Universidade Pontifícia de Latrão e diretor da revista Tomista Divinitas escreve: «se se quer criticar apenas o pós-concílio, pode-se fazer, porque, de fato, está muito longe de ser irreprovável. Mas convém, também, não esquecer que [o pós-concílio] é o filho natural do concílio e que é no concílio que bebeu os princípios que tornou depois, exagerando-os, a base dos seus conteúdos mais devastadores».

Mas, como verifica Dom Gherardini, o que domina nos níveis mais elevados da Igreja é a admiração cega do concílio, que «corta as asas à análise crítica» e que «impede dirigir ao Concílio Vaticano II um olhar mais penetrante e menos deslumbrado». E os primeiros responsáveis de tal admiração desprovida de espírito crítico são os Papas do concílio e do pós-concílio, de João XXIII a Paulo VI e a João Paulo II. Quanto a Bento XVI, «até ao presente, não corrigiu um ponto ou uma vírgula da ‘vulgata’ que foi apoiada pelos seus antecessores», ele que, por seu lado, «tendo verdadeiramente trovejado, como poucos outros o fizeram no seio da hierarquia Católica, contra as deformações do pós-concílio, nunca cessou de cantar louvores ao concílio, nem de afirmar a continuidade deste com todo o Magistério precedente».