Carta aos Amigos e Benfeitores nº 78

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Estimados Amigos e Benfeitores,

Este novo ano trouxe muitas surpresas desagradáveis, para não dizer dramáticas. Referimo-nos evidentemente aos fatos que afetam à Igreja e não às catástrofes em cadeia no Japão, nem às desordens nos países árabes e na África, e que, no entanto deveriam servir para todos como avisos! Mas quem os entende deste modo?

Pior do que todas as catástrofes naturais – com seus mortos, suas tragédias, seus dolorosos sofrimentos – são as catástrofes que ferem ou que matam as almas. Se os homens tomassem tanto cuidado com suas almas como o tomam com seus corpos, a face da terra seria renovada. Mas o que faz – com razão – reagir e procurar uma cura para o corpo, movido pela dor presente, não o faz do mesmo modo para a alma. O pecado que causa tantos males à toda humanidade e a cada ser humano, não é quase lamentado, e por isso os remédios adequados não são procurados. Nós falamos das catástrofes espirituais: que outro nome poderíamos dar a um fato que atinge toda uma multidão de almas? Que põe em perigo a salvação de milhões de almas? Pelo menos dois acontecimentos, capazes de levar à não-conversão, e por tanto à perda eterna dessas almas, foram anunciados por Roma no início deste ano: a beatificação de João Paulo II e a repetição do encontro de Assis, pela ocasião do 25º aniversário do primeiro encontro de todas as religiões organizado pelo mesmo João Paulo II.

Para aqueles que têm dificuldade de entender o significado destes dois acontecimentos, citaremos simplesmente o que escreveu o R. Pe. Franz Schmidberger, primeiro sucessor de Dom Marcel Lefebvre como Superior da Fraternidade São Pio X, já faz 25 anos nesta mesma Carta aos Amigos e Benfeitores. Ele apresentava uma lista de atos realizados por João Paulo II, que será beatificado:

“No dia 25 de janeiro de 1986, o Papa, num sermão pronunciado na basílica São Paulo extra muros, convidou todas as religiões para rezarem juntas pela paz.

Basta dar uma olhada nos fatos dos três últimos anos para ver a que ponto nós nos aproximamos agora do estabelecimento de uma grande religião universal sob a presidência do Papa, tendo como único dogma a liberdade, igualdade e fraternidade da Revolução francesa e das lojas maçônicas.

1. O novo Direito Canônico, promulgado pelo próprio Papa no dia 25 de janeiro de 1983, aboliu o estado eclesiástico. De agora em adiante a Igreja é o Povo de Deus num sentido protestante e igualitário, sem subordinados nem chefes. A Hierarquia é agora apenas um serviço; conforme o que João Paulo II expôs na sua Constituição, a Igreja se define como Comunhão e por sua preocupação pelo ecumenismo. O cânon 844 permite expressamente a intercomunhão, o cânon 204 confunde o sacerdócio do padre com o sacerdócio espiritual dos laicos, etc.

2. No domingo 11 de dezembro de 1983, o Papa pregou numa igreja protestante de Roma e isso depois de ter-se mais ou menos convidado ele mesmo.

3. O bispo de Sherbrooke no Quebec (Canadá) convidou varias vezes os protestantes à sua catedral para realizar ali suas falsas ordenações. Ele mesmo participou numa dessas cerimônias e recebeu a “comunhão” das mãos de uma pastora recém ordenada.

4. No dia 18 de fevereiro de 1984, uma nova concordata foi assinada entre a Santa Sé e o governo da Itália: de agora em mais, aplicando a declaração conciliar sobre a liberdade religiosa, a Itália não é mais um Estado Católico, mas sim um Estado laico, ou seja ateu; conforme o mesmo documento Roma não é mais a Cidade Santa!

5. No dia 10 de maio  de 1984, o Papa visitou um templo budista na Tailândia, tirou os sapatos e sentou-se aos pés de um bonzo budista sentado na frente de um altar onde se encontrava uma grande estátua de Buda.

6. Na sua Carta Pastoral do dia 16 de setembro de 1984, os bispos suíços chegaram à esta conclusão importante: “O desejo de receber juntos o mesmo pão na mesma mesa, ou seja o desejo que a missa e a ceia não sejam celebradas separadamente, vem de Deus”. “É preciso, no entanto, buscar com prudência o momento em que possamos realizar este desejo”, acrescentam os bispos. Além disso, eles apoiaram um projeto de lei que pretende mudar o direito matrimonial, e que destrói, nem mais nem menos, o casamento e a família. Pois bem, graças ao seu apoio, este novo direito matrimonial foi aceito na Suíça no dia 22 de setembro de 1985. Uma vez mais os bispos se mostraram verdadeiros coveiros não somente da ordem sobrenatural, mas até da ordem natural estabelecida por Deus.

7. O episcopado francês continua impondo o catecismo herético Pedras Vivas para a instrução religiosa, com grande prejuízo das crianças. Aquele que escandalizar um destes pequeninos que crê em Mim, seria melhor para ele que lhe atassem uma mó de moinho ao pescoço e que o lançassem ao fundo do mar. (Mt. 18,6)

8. Uma declaração comum o Cardeal Hoffner e do Sr. Lohse, presidente do Conselho Evangélico da Alemanha, foi assinada no dia 1 de janeiro de 1985, concedendo aos esposos de casamentos mistos a liberdade de se casar, de batizar e de educar os filhos numa ou noutra igreja. Ora o Direito Canônico de 1917, cânon 2319, punia cada um destes três crimes com uma excomunhão especial.

9. No seu livro Conversas sobre a Fé (1985), o Cardeal Ratzinger pretende que as outras religiões são formalmente meios extraordinários de salvação. Não, Eminência, N. Senhor Jesus Cristo só, e Ele só, é o Caminho a Verdade e a Vida; ninguém pode ir ao Pai senão por Ele!

10. Numa nota sobre a apresentação do judaísmo na catequese, publicada no dia 24 de junho de 1985, o Cardeal Willebrands pretende que nós esperamos o Messias com os judeus! E ele faz referência ao próprio Papa, que declarou diante dos judeus no dia 17 de novembro de 1980 em Mayence, que a Antiga Lei ainda não foi abolida.

11. No verão de 1985, o Vaticano enviou um delegado oficial à cerimônia de colocação da primeira pedra da nova Mesquita de Roma.

12. Em agosto de 1985, ele proclamou aos jovens muçulmanos em Casablanca que nós cristãos adoramos o mesmo Deus que eles – como se tivesse uma Trindade e uma Encarnação no Islã! Poucos dias depois ele acompanhou sacerdotes animistas e sua escolta, à periferia de Lohomay, num culto na “floresta santa” onde se invoca “a força da água” e as almas divinizadas  dos ancestrais. E pelo menos duas vezes, em Kara e Togoville (em Kara antes da Santa Missa) ele jogou água e farinha de milho no fundo seco de uma casca da abóbora, gesto pelo qual se professa uma crença religiosa falsa.

13. Uma comissão católico-evangélica, constituída para o encerramento da visita do Papa na Alemanha em 1980, declarou no seu relatório final, publicado no dia 24 de janeiro de 1986 que não há mais divergências entre as duas confissões no que diz respeito à justificação, à Eucaristia, ao sacerdócio, e ao papado. Não escapa ao observador atento que aqui se proclama a abertura de uma religião unificada ecumênica.

14. E agora, no dia 25 de janeiro de 1986, ele convida todas as religiões para reunirem-se em Assis neste outono para rezar pela paz (…) “A que Deus eles vão rezar aqueles que negam expressamente a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo? Esta é realmente uma insinuação do demônio” comenta Dom Lefebvre.

15. Em fim, durante a sua viagem à Índia, o Papa só falou de diálogo, de compreensão mútua das religiões, a fim de promover em comum a fraternidade humana e o bem estar social.

Caros amigos, imaginarão os senhores que este relato é para nós uma boa notícia? Foi com uma profunda dor que nós o redigimos, movidos somente pela preocupação pela Igreja. Nós estamos longe de querer julgar o Papa. Nós deixamos esta missão delicada a um futuro julgamento da Igreja. Nós não fazemos parte daqueles que declaram precipitadamente que a Sede papal está vacante, mas sim nos deixamos conduzir pela história da Igreja. O Papa Honório foi anatematizado pelo VI Concílio ecumênico por causa de seus falsos ensinamentos, mas nunca se afirmou que o Papa Honório não foi Papa. No entanto, não nos é possível de fechar os olhos diante dos fatos.

As instruções secretas dos Carbonários e suas correspondências, nos anos de 1820, são também fatos! Lemos ali: “O trabalho que nós empreenderemos (…) pode durar vários anos, um século talvez (…) O que nós devemos buscar e esperar, como os judeus esperam o Messias, é um papa conforme as nossas necessidades (…) Com isso, para quebrar a rocha sobre a qual Deus construiu a sua Igreja (…) nós teremos o pequeno dedo do Sucessor de Pedro engajado no complot (…) Para assegurar-nos um papa nas proporções queridas, é preciso primeiro formá-lo (…) uma geração digna do reino que nós sonhamos (…) Tratem de ter a reputação de bons católicos (…) Esta reputação dará facilmente acesso às nossas doutrinas ao jovem clero (…) Em alguns anos, este jovem clero terá, pela força das coisas, ocupado todas as funções (…) será chamado a escolher o Pontífice (…) e este Pontífice, como a maior parte dos seus contemporâneos (…) será imbuído de princípios (…) humanitários que nós colocaremos em circulação”.

“Nós devemos (…) chegar, por pequenos passos gradativos (…) ao triunfo da idéia revolucionária por um papa (…) Este projeto sempre me pareceu movido por um cálculo supra-humano”.

Além disso, nós lemos no pequeno exorcismo de Leão XIII, na sua versão original: “Eis que inimigos muito astutos encheram a Igreja de amargura, a Esposa do Cordeiro imaculado, lhe fizeram beber absinto, lançaram mãos ímpias sobre tudo o que Ela tem de precioso. E ali onde foi estabelecida a Sede do bem-aventurado Pedro, a Cátedra de verdade, como luz para as nações, ali eles puseram o trono da abominação de sua impiedade; para que ferindo o pastor, pudessem dispersar as ovelhas”.

O que fazer, diante desta situação, humanamente falando, desesperada? Rezar, trabalhar e sofrer com a Igreja.”

Estas palavras, vinte e cinco anos mais tarde, perderam, por acaso a sua força? Poderíamos ter esperado, com a vinda de Bento XVI, uma melhora da situação, pois ele mesmo reconhecia que a Santa Igreja encontrava-se numa situação dramática. E de fato ele pôs vários degraus que podem servir para uma restauração, entre tantas hostilidades. Os seus atos de benevolência com a nossa Fraternidade estão muito presentes com gratidão em nossa memória. Mas a repetição de Assis, mesmo que seja adoçada, modificada, como parece ser sua intenção, lembrará necessariamente o primeiro encontro de Assis que foi escandaloso em todos os seus aspectos, entre os quais um dos mais notáveis foi o espetáculo lamentável e angustiante de ver lado a lado o Vigário de Cristo e uma multidão de todas as cores de pagãos invocando seus falsos deuses e ídolos – a colocação da estátua de Buda sobre o sacrário da igreja de São Pedro de Assis permanece a mais impressionante e terrível ilustração. Quando se pretende festejar tal aniversário, por este mesmo fato se proíbem de acusar o seu iniciador. Bento XVI escreveu a um pastor evangélico que protestava contra esta nova reunião de Assis, que ele faria tudo para evitar o sincretismo. Mas será dito aos participantes vindos de outras religiões que há somente uma verdadeira que salva? Será dito que não há nenhum outro nome sob o céu ou a terra pelo qual possamos ser salvos que o de Jesus, como o ensinou São Pedro, o primeiro Papa (cfr. Atos 4, 12) E, no entanto estes são dogmas de Fé.

Se lhes calam verdades tão essenciais, os enganam. Se lhes escondem o único necessário unum necessarium, fazendo que creiam que tudo está bem assim, pois o Espírito Santo se serve também de outras religiões como meios de salvação, mesmo se falam de meios extraordinários, conforme o magistério novo do concílio Vaticano II, os induzem ao erro e lhes privam dos meios de salvarem-se.

Quanto à beatificação de João Paulo II, ela terá como efeito imediato de consagrar todo o conjunto de seu pontificado, todos os seus feitos, mesmo os mais escandalosos, tanto os que foram enunciados anteriormente, como os outros: beijar o Alcorão e as inúmeras cerimônias de arrependimento que fazem pensar que a Igreja é culpável dos cismas que viram perder numerosas almas cristãs pela separação com nossa Santa Madre Igreja, e pela adesão ao erro e à heresia. Na prática tudo isso conduz ao indiferentismo na vida quotidiana. E os poucos esforços de Roma por mudar em algo este atoleiro tão nocivo para a Igreja não alcançam senão magros resultados: a Igreja mesma está exangue.

Dirão que exageramos, que dramatizamos ou que usamos figuras retóricas de circunstâncias; no entanto esta visão dramática se encontra na boca dos mesmos papas Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI. Mas ela aparece como uma estrela cadente no firmamento, bem rapidamente esquecida e deixando totalmente indiferente a multidão que não tem cuidado de olhar para cima, para o Céu.

O que nós devemos fazer? O que poderíamos fazer, caros amigos? “Oração e Penitencia” foi a palavra de ordem deixada por nossa boa Mãe do céu, a Santíssima Virgem Maria em Lourdes e em Fátima. Estas diretivas do Céu têm sua vigência ainda, e talvez ainda mais do que no momento em que foram pronunciadas. Muitos entre os senhores perguntam qual foi o efeito de nossa Cruzada do Rosário terminada no ano passado. Nós  entregamos seu resultado junto com o nosso pedido ao Sumo Pontífice que não se dignou responder, nem sequer com um aviso de recepção. Isso, no entanto não deve nos desencorajar. Nossa oração subiu ao Céu, a Nossa Senhora, nossa tão boa e misericordiosa Mãe, e ao Deus das Misericórdias. Nós não temos o direito de duvidar se seremos escutados, conforme as disposições infalíveis da divina Providência. Saibamos confiar no bom Deus. No entanto, a situação da Igreja e do mundo nos leva a pedir-lhes insistentemente de não interromper esse movimento de orações pelo bem da Igreja e do mundo, pelo triunfo do Imaculado Coração de Maria. A intensidade da crise, a multiplicação de todos os tipos de males que ferem ou ameaçam a humanidade, exige de nossa parte uma atitude: “Devemos rezar sempre, e não desfalecer jamaisOportet semper orare et numquam deficere (Lc. 18, 1).

É por isso que nos parece urgente e mais do que oportuno, considerando o aumento da intensidade dos males que submergem a Santa Igreja, de lançar ainda uma vez uma Cruzada do Rosário, uma Cruzada de oração e penitência. Nós lhes convidamos a unir todos os seus esforços, todas as suas forças, para formar desde a Páscoa deste ano até Pentecostes de 2012 um novo ramalhete espiritual, uma nova coroa destas rosas tão agradáveis a Nossa Senhora, para implorar-Lhe sua interseção a favor dos seus filhos junto ao seu Divino Filho e ao Pai Onipotente. A confusão apenas aumente entre as almas; elas estão sendo entregues aos lobos ladrões até mesmo no aprisco. A prova é tão difícil que mesmos os eleitos se perderiam se não fosse abreviada. Os poucos desenvolvimentos reconfortantes dos últimos anos não são suficientes para nos permitir dizer que as coisas, de fato, mudaram fundamentalmente. Eles nos dão grandes esperanças para o futuro, mas como a luz que se percebe enquanto ainda se está no fundo do túnel. Deste modo, peçamos com todo o coração à Mãe do Céu que intervenha a fim de que essa terrível prova seja abreviada, para que o manto modernista que cobre a Igreja – ao menos desde o Vaticano II – possa ser rasgado, para que as Autoridades possam exercer seus deveres salvíficos para as com as almas, para que a Igreja possa recobrar seus esplendor e beleza espirituais, para que as almas espalhadas pelo mundo possam ouvir a Boa Nova que converte, receber os Sacramentos que salvam, e encontrar o único aprisco. Ah, como gostaríamos de poder usar uma linguagem menos dramática, mas seria uma mentira e uma negligência culpável de nossa parte tranqüilizar-lhes e deixar-lhes pensar que as coisas melhorariam por si mesmas.

Contamos com a sua generosidade para reunir uma vez mais um ramalhete de ao menos doze milhões de terços pelas intenções de que a Igreja seja libertada dos males que a oprimem ou ameaçam o seu futuro próximo, para que a Rússia seja consagrada e para que o Triunfo da Imaculada venha logo!

Para que nossas orações sejam ainda mais eficazes e que cada um possa retirar daí um proveito maior, queríamos terminar lembrando que quando recitamos o Terço, o mais importante não é o número de Ave-Marias, mas sim o modo como rezamos. O perigo da monotonia ou da distração pode ser combatido eficazmente dizendo o Terço conforme as indicações de Maria Ela mesma: ao passar as contas devemos meditar nas cenas da vida e mistérios da vida de Nosso Senhor e nossa Santa Mãe. O mais importante é este contato com a vida do Salvador que se estabelece ao pensar piedosamente nos acontecimentos anunciados em cada dezena, os “mistérios” do Rosário. As dezenas de Ave-Marias se transformam como uma melodia de fundo que acompanha e mantém esse poderoso e doce contato com Deus, com Nosso Senhor, com Nossa Senhora. Irmã Lúcia de Fátima disse, a exemplo dos Papa, que Deus quis conferir um poder todo especial a esta oração. Insistimos sobre a oração em família, que dá todos os dias suas provas de eficácia protegendo as crianças e a juventude das tentações e perigos espantosos do mundo moderno, que protege a unidade familiar no meio de tantos perigos que a ameaçam. Não nos desencorajemos pelo silêncio aparente da divina Providência depois da nossa última Cruzada. Não é assim que Deus quer  que nós O ponhamos à prova, nas coisas importantes, e que saibamos apreciar no seu exato valor o que nós pedimos e que estejamos preparados para pagar o seu preço?

No momento de aproximar-nos da Paixão de Nosso Senhor na Semana Santa e da gloriosa Ressurreição do Salvador, pedimos a Nossa Senhora que abençoe a generosidade dos senhores, que lhes tome sob a sua benfazeja proteção e escute suas insistentes orações,

Menzingen, Iº domingo da Paixão

+ Bernard Fellay, Superior Geral