Carta Encíclica Mens Nostra, sobre os Exercícios Espirituais

Aos Veneráveis Irmãos, Patriarcas, Primazes, Arcebispos, Bispos e outros Ordinários dos lugares em paz e união com a Sé Apostólica: acerca da necessidade de fomentar a prática dos Exercícios Espirituais.

 PIO PAPA XI

Veneráveis Irmãos, Saúde e Bênção Apostólica.

 INTRODUÇÃO

Fim do jubileu concedido

1. Nenhum de vós certamente ignora, Veneráveis Irmãos, qual tenha sido o Nosso pensamento e intenção, quando no princípio do ano anunciamos a todo o Orbe Católico um Jubileu extraordinário, para celebrar o 50° aniversário do dia, em que recebida a Ordenação Sacerdotal, oferecemos pela primeira vez o Santo Sacrifício do altar. Como solenemente declaramos na Constituição Apostólica “Auspicantibus Nobis”, expedida a 6 de Janeiro de 1929, sentimo-Nos levados a tomar tal resolução só para que os nossos queridos filhos, a imensa família cristã, confiada pelo Coração benigníssimo ao Nosso Coração, fossem chamados a tomar parte na alegria do Pai comum, e em união de espírito dessem reconhecidos conosco as graças ao Dispensador Supremo de todos os bens. Fizemo-lo também porque Nos sorria mais que tudo a esperança, de que ao serem franqueados com paterna liberalidade os tesouros dos dons celestes, de que fomos constituídos dispensadores, o povo cristão se aproveitaria deste feliz ensejo, para robustecer a fé, aumentar a piedade e perfeição, e emendar os costumes particulares e públicos, em conformidade com as normas do Evangelho. E de tudo isto se deveria esperar, como fruto copiosíssimo da paz e do perdão impetrado de Deus, a paz dos indivíduos e da sociedade.

 

Frutos do jubileu realizado

2. E não se viu frustrada esta Nossa esperança. Com efeito, o entusiasmo religioso que se ateou no povo cristão ao receber a promulgação do jubileu, longe de arrefecer com o decorrer do tempo, vimo-lo ganhar cada dia maior vigor, também por especial auxílio de Deus. A Ele se devem estes acontecimentos, que hão-de perpetuar pelos séculos vindouros a memória deste ano, verdadeiramente salutar. Por nossa parte, recebemos abundantes motivos de alegria, pois observamos em grande parte com Nossos próprios olhos este notável incremento de fé e piedade, e desfrutamos da presença de um grande número de filhos queridos, aos quais pudemos gozosos acolher no Nosso Palácio, e com todo amor estreitar, por assim dizer, ao coração.

3. Hoje, ao manifestarmos com maior fervor ao Pai das Misericórdias o Nosso reconhecimento, por se ter dignado semear, amadurecer e colher no decurso deste ano jubilar tantos e tão grandes frutos na sua vinha, sentimo-Nos levados e impelidos pela solicitude pastoral a procurar que no futuro estes frutos, desabrochados de começos tão prometedores, vão sempre em aumento, e sejam perduráveis para felicidade e salvação dos indivíduos, e por conseguinte de toda a sociedade.

 

Como conservar o fruto do jubileu

4. E pensando Nós sobre o meio e modo de conservar frutos tão excelentes, veio-Nos à lembrança o Nosso predecessor de feliz memória, Leão XIII, o qual promulgando noutra ocasião o Ano Santo, com gravíssimas palavras, que na citada constituição “Auspicantibus Nobis” fizemos Nossas, exortou a todos os fiéis a “que se recolhessem por algum tempo e levantassem a coisas melhores os pensamentos mergulhados na terra” (Encícl. “Quod auctoritate”, 22 de Dez. 1885. “Acta Leonis XIII”, vol. II, pág. 175, ss). Ocorreu-nos também que o Nosso Predecessor Pio X, de santa memória, incansável promotor da santidade sacerdotal, dirigiu ao clero católico, por ocasião do 50° aniversário da sua ordenação de presbítero, uma Exortação (Exhortatio ad clerum Catholicum “Haerent animo”, 4 de Agosto 1908; Acta Sanctae Sedis, vol. XLI, p. 555-557) cheia de preciosas e escolhidas máximas, suficientes para levantar o edifício da vida espiritual a altura nada vulgar.

 

Para isto recomenda-se a prática dos Exercícios Espirituais

5. Seguindo na esteira destes Pontífices, pareceu-Nos oportuno fazer alguma coisa no mesmo sentido: recomendamos, pois, uma obra excelente, da qual esperamos resultarão para o povo fiel muitíssimas e preciosas vantagens. Referimo-Nos à prática dos Exercícios Espirituais, que ardentemente desejamos se promova e difunda cada dia mais, não só entre um e outro clero, mas ainda nas fileiras dos leigos seculares católicos. Será esta uma como lembrança do ano jubilar que deixamos a Nossos caros filhos; e por este motivo o fazemos com maior gosto, ao terminar o 50º ano da Nossa Ordenação Sacerdotal.

6. Nada, com efeito, Nos pode ser mais grato do que recordar as graças celestes e as consolações indizíveis que tantas vezes experimentamos ao fazer os Exercícios Espirituais; a assiduidade com que Nos entregamos a estes santos retiros, que foram outros tantos degraus com que assinalamos as várias fases da Nossa carreira sacerdotal; as luzes e estímulos que deles tiramos para conhecer e cumprir a vontade de Deus; finalmente o trabalho que durante todo o percurso do Nosso Ministério de sacerdote neles empregamos para instruir os fiéis nas coisas do céu, com grande fruto e proveito extraordinário, tudo nos levou à persuasão justificada de que os Exercícios Espirituais são um auxílio especial para a salvação eterna das almas.

 

 I. IMPORTÂNCIA, OPORTUNIDADE E UTILIDADE DOS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS

Sobretudo em nossos dias

7. Com efeito, Veneráveis Irmãos, sob muitos aspectos se revela a importância, oportunidade e utilidade dos Santos Exercícios, a quem quer que refletir, embora de leve, nos tempos em que vivemos. A doença mais grave de que enferma o nosso século, doença que é ao mesmo tempo manancial fecundo dos males que todas as pessoas sensatas lamentam, é a frivolidade e falta de consideração, que extravia e desencaminha os homens. Daqui provém a contínua e veemente dissipação pelas coisas exteriores; daqui a insaciável cobiça de riquezas e prazeres. Com esta dissipação e cobiça pouco a pouco se vai enfraquecendo e extinguindo nas almas o desejo de bens mais nobres, e os homens vão-se deste modo enredando com coisas terrenas e caducas, a tal ponto que deixam de pensar nas verdades eternas, nas leis divinas, e até no próprio Deus, único princípio e fim de todas as coisas. Apesar disso, e por mais que a perversidade de costumes alastre por toda parte, continua ainda assim N. S. por sua infinita bondade e misericórdia a atrair a Si os homens com abundantíssima cópia de graças. Para curar, pois, a humanidade duma doença que tão gravemente a aflige, que remédio e alívio pudéramos propor mais apto, do que convidarmos estas almas enfraquecidas e descuidadas das verdades eternas, a recolherem-se piedosamente nos Exercícios Espirituais?

8. E, de fato, não haverá ninguém que não conceda poderem-se tirar dos Exercícios Espirituais vantagens nada medíocres ainda que eles não passassem de um breve retiro dalguns dias, em que o homem afastado do trato social e da multiplicidade dos negócios, tivesse ensejo de empregar este tempo, não em descanso inútil, mas em ponderar questões tão graves que jamais deixaram de ocupar profundamente o gênero humano, acerca da sua origem e do seu fim, “de onde vem e para onde vai”.

 

Para a formação do homem

9. Maiores, porém, são os bens que nos trazem estes retiros piedosos: porque ao obrigarem a inteligência humana a trabalhar por inquirir com maior empenho e examinar com maior diligência os próprios pensamentos, palavras e ações, aperfeiçoam e auxiliam admiravelmente as faculdades do homem; de sorte que, nesta insigne escola de espírito, a mente habitua-se a tudo pesar com tento e verdadeiro equilíbrio; a vontade robustece-se fortemente; as paixões sujeitam-se ao governo da razão; a atividade humana unida à reflexão ajusta-se com eficácia a uma norma e regra fixa; finalmente a alma inteira alcança a sua nobreza e excelência nativa, como declara o Papa S. Gregório, no seu livro “Pastoral” (P. L., t. 77, col. 73), com uma elegante metáfora: “A alma humana é como a água: que represada sobe ao alto, pois torna ao sítio donde veio; mas solta perde-se, porque se espalha inutilmente sobre a terra”.

10. Além disso, quando a alma se exercita em meditações espirituais, não só, como sabiamente adverte S. Euquério, Bispo de Leão (De Laud. Erem.; P. L., t. 50, col. 70), “recebe do silêncio um certo estímulo cheio de alegria no Senhor, que a fortifica com inefáveis comunicações”, mas também se sente convidada pela liberalidade de Deus “àquele celeste alimento” de que fala Lactâncio, quando diz: “não há manjar mais saboroso para a alma do que conhecer a verdade” (De fals. relig., lib. I, cap. 1; P. L., t. 6, col. 118). Nestas meditações espirituais, conforme a sentença de certo autor antigo, que por muito tempo se cuidou ser S. Basílio Magno, “frequenta-se uma escola de doutrina celeste, e de formação nas ciências divinas” (De laude sol. vit.; opera omnia, Venet. 1751, t. 2, p. 379), em que “Deus é tudo quanto se aprende, o caminho por onde se avança, e o complexo dos meios para chegar ao conhecimento da Suprema Verdade” (ibid.). Claramente se infere daqui a eficácia principal dos Exercícios, não só para aperfeiçoar as nossas potências materiais, como também, e sobretudo para formar o homem sobrenatural ou cristão.

Num tempo em que os genuínos sentimentos de Cristo e o espírito sobrenatural — essência única da nossa santa Religião — se vêem cercados de tantos impedimentos e obstáculos, provenientes do naturalismo dominante, que debilita a firmeza na fé e extingue as chamas da caridade cristã, é de suma conveniência subtrair-se o homem a essa fascinação da “frivolidade” que “obscurece o bem” (Sab 4, 12) e retirar-se a um feliz remanso. Ali, guiado por celeste magistério, saberá avaliar justamente e apreciar a vida humana, que só no serviço de Deus se deve empregar; sentirá horror à baixeza do pecado, conceberá um santo temor de Deus, verá com toda clareza e sem véu a vaidade das coisas humanas; alentado com os exemplos e conselhos d’Aquele que é “caminho, verdade e vida” (Jo 14, 6), despojar-se-á do homem velho (Rom 13, 14), abnegar-se-á a si mesmo, e acompanhado da humildade, da obediência e da penitência voluntária, vestir-se-á de Cristo, esforçando-se por atingir o “homem perfeito” e a acabada “medida da idade plena de Cristo” (Ef 4, 13) de que nos fala o Apóstolo. Mais. Empenhar-se-á com toda a alma por poder também repetir com o mesmo Apóstolo: “Vivendo, não sou eu quem vive, mas é Cristo que vive em mim” (Gál 2, 20).

11. É, sem dúvida, por estes degraus que a alma sobe a uma perfeição consumada e auxiliada com a graça divina se une dulcissimamente com Deus. Ora, estes auxílios alcança-os ela com maior abundância durante esses dias, por meio da oração mais assídua e pela recepção mais frequente e devota dos Sacramentos. Bens são estes, Veneráveis Irmãos, verdadeiramente singulares e extraordinários; bens que excedem em muito a natureza, e em cuja posse reside unicamente o descanso, a felicidade e a paz verdadeira; bens a que a alma humana aspira sequiosamente. E são ainda estes bens que o próprio mundo moderno procura, no meio do tumulto e turbilhão da vida, quando, arrebatado pela febre das seduções, vai buscando com avidez, mas em vão, bens caducos e incertos. Pelo contrário, para conseguir aos homens a paz e levá-los à santidade, conhecemos perfeitamente a eficácia admirável contida nos Exercícios Espirituais, o que aliás se prova pela longa experiência dos séculos passados e mais claramente ainda pela dos tempos atuais. São, com efeito, quase inumeráveis os que devidamente formados no sagrado retiro dos Exercícios saíram “radicados e sobreedificados” (Col 2, 7) em Cristo, cheios de luz, repletos de gozo, e inundados daquela paz, que “excede toda a compreensão” (Filip 4, 7).

 

Para a formação do apóstolo

12. Mas é coisa averiguada trazerem consigo os Exercícios Espirituais esta perfeição da vida cristã. Com ela, porém, dimana deles como que espontaneamente, além da paz interior da alma, outro ponto singularíssimo que magnificamente redunda em não pequena vantagem da causa social, e é o zelo de ganhar almas para Cristo que se costuma denominar espírito apostólico. E na verdade a consequência natural da caridade é que a alma do justo em que Deus habita pela graça se abrase maravilhosamente no desejo de que os outros venham a ter parte no conhecimento e amor que ela já alcançou e possui. Ora, nestes nossos tempos em que a sociedade humana tanto necessita de socorros espirituais, quando as regiões longínquas das missões “que já lourejam para a messe” (Jo 4, 35) exigem dia a dia cuidado proporcional à falta de apóstolos, quando os nossos próprios países estão pedindo falanges escolhidas de um e outro clero, que sejam idôneos dispensadores dos mistérios de Deus, e esquadrões compactos de seculares virtuosos, que unidos em estreita intimidade com o Apostolado hierárquico, o ajudem com a sua atividade e zelo, dedicando-se às múltiplas obras e trabalhos da “Ação Católica”, Nós, Veneráveis Irmãos, instruídos na escola da história, proclamamos e temos o santo retiro dos Exercícios como Cenáculos, que o poder de Deus levantou para que as almas generosas, apoiadas no socorro da graça divina, esclarecidas à luz das verdades eternas, e animadas pelos exemplos de Cristo, não só venham a conhecer de uma maneira clara o preço das almas, e se inflamem no desejo de as ajudar em qualquer estado de vida, em que depois de diligente exame entendam dever servir ao seu Criador, mas também aprendam qual seja o ardor e quais as indústrias, os trabalhos e as ações valorosas do apostolado cristão.

 

II. OS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS NA HISTÓRIA ECLESIÁSTICA

Nos começos da Igreja

13. Afinal foi este o método que N. Senhor seguiu na formação dos mensageiros do Evangelho. Com efeito, o mesmo Divino Mestre, não se contentando com os longos anos de escondimento na casa de Nazaré quis passar quarenta dias inteiros no mais apartado ermo antes de mostrar às nações o pleno esplendor do seu brilho e antes de lhes ensinar de palavra a sua doutrina celeste. Mais ainda. Em plena atividade Evangélica costumava de vez em quando convidar os Apóstolos ao silêncio benfazejo do retiro: “vinde apartai-vos para o deserto, a descansar um pouco” (Mc 6, 31). E quando se ausentou desta terra de trabalhos para o céu, quis que os seus Apóstolos e discípulos recebessem a última perfeição no Cenáculo de Jerusalém, onde por espaço de dez dias “perseverando concordes na oração” (At 1, 14) se tornassem dignos de receber o Espírito Santo. Retiro verdadeiramente memorável, e primeiro esboço de Exercícios Espirituais. Dele saiu a Igreja, cheia de força e perpétuo vigor; nele com a presença da Virgem Maria, Mãe de Deus, e assistidos do seu valiosíssimo patrocínio, se formaram juntamente com os Apóstolos, aqueles que com toda a razão se poderiam chamar os precursores da Ação Católica. A partir desse dia a prática dos Exercícios Espirituais, embora não tivesse o nome e o método de que hoje em dia nos servimos, pelo menos na substância “tornou-se familiar entre os primeiros cristãos”. Assim o afirmou S. Francisco de Sales (Traité de 1’Amour de Dieu, lib. 12, c. 8) e no-lo indicam testemunhos evidentes, que se encontram nas obras dos Santos Padres. S. Jerónimo, por exemplo, exortava a nobre Matrona Celância: “Escolhei um lugar acomodado e longe do estrépito da família, aonde como a porto seguro vos possais acolher. Aí seja tal o gosto da leitura dos livros divinos, tão frequentes os tempos de oração, tão assídua a meditação sobre os novíssimos do homem, que com este repouso compenseis as ocupações do resto do tempo. Não pretendemos com estas palavras apartar-vos dos vossos; procuramos sim que aprendais ali e mediteis como proceder com eles” (P. L., t. 22, col. 1216).

14. Contemporâneo de S. Jerónimo, o bispo de Ravena, S. Pedro Crisólogo, dirigia a todos os fiéis aquele tão conhecido convite: “Demos o espaço de um ano ao corpo; demos à alma alguns dias… Vivamos um pouco para Deus, já que para o século vivemos inteiramente… Ressoe a nossos ouvidos a voz de Deus; não seja perturbada a nossa atenção pelo ruído das ocupações domésticas… Assim armados, irmãos, assim prevenidos, declaremos guerra ao pecado… seguros da vitória” (P. L., t. 52, col. 186).

 

Na Idade Média

15. Decorria o tempo, e não cessavam os homens de sentir esta ânsia da solidão tranquila, onde sem testemunhas a alma atendesse às coisas divinas. Mais ainda. É um fato comprovado que quanto mais borrascosos correm os tempos para a sociedade humana, tanto maior é a veemência com que o Espírito Santo atrai para a solidão os homens, sequiosos de justiça e verdade, “a fim de que, libertados dos apetites do corpo, possam mais frequentemente dar-se à divina sabedoria no recolhimento dos espírito, e nele, abafado o estrépito dos cuidados terrenos, se alegrem em santas meditações e eternas delícias” (S. Leão Magno, sermo 19; P. L., t. 54, col. 186).

 

S. Inácio de Loiola

16. Depois de a Providência de Deus ter suscitado já na sua Igreja muitos varões, enriquecidos com abundância de dons sobrenaturais e insignes como diretores abalizados da vida espiritual, os quais prescreveram sábias normas e propuseram métodos excelentes de ascética, extraídos não só da revelação divina, mas ainda da experiência própria, e da prática dos séculos prece¬dentes, apareceram também por disposição da mesma divina Providência e por meio do grande servo de Deus, Inácio de Loiola, os Exercícios Espirituais propriamente ditos; “tesouro”, assim os apelidava o célebre Ludovico Blósio, venerável religioso da Ordem de S. Bento, cujas palavras cita Santo Afonso Maria de Ligório, na tão bela carta “sobre a prática dos Exercícios na solidão”, “tesouro que Deus patenteou à sua Igreja nestes últimos tempos, e pelo qual Lhe devemos especiais ações de graças” (Opere Ascet.; Marietti 1897, vol. 3, p. 616).

 

S. Carlos Borromeu

17. Imediatamente se espalhou pela Igreja a fama destes Exercícios Espirituais, aos quais foi buscar estímulo para correr com mais brio pela senda da perfeição entre outros muitos o venerável e por tantos títulos de nós muito querido S. Carlos Borromeu. Foi ele, como já noutra ocasião tivemos ensejo de lembrar, “quem divulgou a sua prática pelo clero e pelo povo” (Const. Apost. Summorum Pontificum; AAS., vol. 14 (1922), p. 421), e com seu prestígio e zelosa solicitude, não só os enriqueceu de regras e diretórios sumamente apropriados, mas chegou até a fundar uma casa, em que os homens exclusivamente se dessem aos Exercícios de S. Inácio. A essa casa deu ele o nome de “Asceterium”: e, que Nós saibamos, deve ser ela contada a primeira entre tantas outras, que mais tarde, numa feliz imitação, se construíram por toda parte.

 

Casas especiais para exercitantes

18. Foi com efeito crescendo dia a dia pela Igreja o apreço dos Exercícios, multiplicando-se maravilhosamente o número destas casas; dir-se-iam verdadeiras estalagens tão oportunamente levantadas no árido deserto da vida, onde os fiéis de ambos os sexos se acolhessem sós a descansar e refazer as forças com o alimento espiritual. Realmente, após a desumana tragédia da guerra, com a profunda perturbação social que originou, após tantas feridas de que saiu lesada a prosperidade espiritual dos povos, é incalculável o número daqueles que, ao verem arruinadas e desfeitas tantas ilusões como fomentavam, conheceram com evidência que os bens terrestres se devem sacrificar aos eternos, e com este conhecimento e com o auxílio eficacíssimo do Espírito Santo, voaram a buscar a paz da própria alma nos santos retiros.

19. Sirvam de prova bem patente todos os que se recolheram a essas casas de santidade depois de serem ou atraídos pela beleza dum estado mais perfeito e santo, ou sacudidos pelas tempestades perigosas do século, ou levados pelas preocupações da vida, ou enganados pelas fraudes e falácias do mundo, ou envenenados pela atmosfera pestilenta do racionalismo, ou seduzidos pelos prazeres sensuais. Nelas com tanto maior prazer tornaram a saborear o descanso da solidão, quanto mais pesados tinham sido os trabalhos porque passaram. E relembrando as verdades celestes, adaptaram a sua vida à doutrina sobrenatural.

 

III. OS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS PARA AS VÁRIAS CLASSES DE HOMENS

20. Portanto cheios de gozo íntimo e intensa alegria por este excelente movimento de piedade, persuadidos que é no seu desenvolvimento que se encontra o remédio e defesa mais eficaz contra os males que nos assoberbam, estamos resolvidos a secundar, quanto esteja em Nossa mão, os desígnios amorosos da Divina Bondade, não seja caso que este íntimo convite inspirado pelo Espírito Santo às almas dos homens, fique sem a desejável abundância de frutos celestiais.

 

Para a Cúria do Papa

21. E é maior o gosto com que o fizemos, ao considerar que já assim procederam os Nossos Predecessores. Muito tempo há, com efeito, que esta Sé Apostólica, depois de recomendar de palavra os Exercícios Espirituais, ensina o mesmo com seu exemplo e autoridade a todos os fiéis, ao transformar de vez em quando por alguns dias o Palácio do Vaticano em Cenáculo de meditação e oração. Costume é este que Nós, não sem grande alegria e consolação espiritual, continuamos espontaneamente. E para que esta consolação e alegria se nos proporcionem a Nós e a todos os que de mais perto nos tratam, satisfazendo aos seus próprios desejos, já desde agora demos as disposições necessárias para que todos os anos se façam os Exercícios Espirituais neste nosso palácio.

 

Para os Bispos

22. Bem sabemos, Veneráveis irmãos, o apreço em que tendes também Vós os Exercícios Espirituais. Fizeste-los antes de receberdes as Ordens Sagradas, fizeste-los, antes de vos ser conferida a plenitude do sacerdócio. E de tempos a tempos, não poucas vezes à frente do vosso clero, oportunamente convocado, a eles vos acolhestes para refazer a vossa alma com a contemplação das verdades celestes. Belo procedimento por certo, que merece da Nossa parte público e merecido elogio. Nem é menor o louvor que se deve a alguns Bispos da Igreja tanto oriental como ocidental, os quais sabemos que se reúnem por vezes com o seu Metropolita ou Patriarca em piedoso retiro, adaptado ao seu ofício e obrigações. Exemplo verdadeiramente feliz, que esperamos seja imitado, quanto o permitam as circunstâncias, e propagado cuidadosamente. Para isto não é tão grande a dificuldade que se terá de superar, se tais retiros se fizerem por ocasião das reuniões, em que todos os Bispos duma Província Eclesiástica por dever de ofício se juntam, já para atender à salvação das almas em geral, já para deliberar sobre os assuntos, que as condições dos nossos tempos mais reclamam. Era isto o que Nós pensávamos levar a cabo com todos os Bispos de Lombardia, no brevíssimo tempo que empunhamos o leme da Igreja de Milão, e sem dúvida o teríamos realizado no primeiro ano do Nosso governo se os secretos desígnios da Divina Providência não determinassem outra coisa acerca da Nossa humilde pessoa.

 

Para os sacerdotes e religiosos

23. Portanto com razão nos persuadimos, que os sacerdotes e religiosos que há muito tempo se anteciparam neste ponto à lei eclesiástica, frequentando os Exercícios Espirituais com empenho digno de louvor, empregarão para o futuro, com maior diligência ainda, este meio de santificação, visto que a isto estão mais gravemente obrigados pela autoridade dos Sagrados Cânones.

24. Por isto é que instantemente exortamos aos sacerdotes do clero secular, que se mostrem fiéis em praticar os Exercícios Espirituais, pelo menos na pequena medida prescrita pelo Código de Direito Canónico (cânon 126). Entrem neles com ardente desejo de perfeição, para alcançarem aquela intensidade de espírito sobrenatural que lhes é sumamente necessária, para promover o aproveitamento espiritual da grei que lhes foi confiada e a fim de granjearem para Cristo abundantes despojos na conquista das almas. Este foi o caminho seguido de todos os Sacerdotes, que, abrasados no zelo de salvar almas, se assinalaram na direção do próximo pela senda da santidade e na formação do clero.

25. É o que se pode ver, para citar um exemplo recente, em José Cafasso, a quem Nós mesmos elevamos às honras dos Bem-aventurados. Foi sempre costume deste varão tão santo dedicar-se assiduamente aos Exercícios Espirituais, para fomentar com eles mais eficazmente a santidade em si e nos outros membros de Cristo e conhecer os desígnios celestes. Deste modo, ao sair uma vez dos Santos Exercícios, enriquecido com luz divina, indicou claramente a um sacerdote ainda jovem, de quem era confessor, o caminho que devia seguir; caminho que o devia levar até às mais altas culminâncias da virtude: aludimos ao B. João Bosco, cujo nome excede todo o elogio.

26.Porém os que militam, seja sob que nome for, nos claustros da disciplina religiosa, já que todos os anos por lei (C. D. C, cân. 595, § 1) têm de fazer os Santos Exercícios, tirarão indubitavelmente destes sagrados retiros grande abundância de bens celestes e com eles poderão adquirir conforme as próprias necessidades alentos de maior perfeição, e todos os recursos convenientes para seguir com maior vigor pelo caminho dos conselhos evangélicos. É que os Exercícios anuais são mística “árvore da vida” (Ap 2, 7), com a qual tanto os indivíduos como as comunidades conservarão viçosa a fama de santidade, que é mister floresça em qualquer casa religiosa.

27. Nem julguem os Sacerdotes de um e outro clero que é perdido para o apostolado o tempo consagrado aos Exercícios Espirituais. Ouçam a S. Bernardo (De Consid., lib. I, cap. 5; P. L., t. 182, col. 734) que, escrevendo ao que fora seu discípulo, e era então Sumo Pontífice, o Beato Eugênio III, não hesitava afirmar: “Se queres ser tudo para todos, louvo esses sentimentos de humanidade, contanto que não sejam mutilados; mas como o não hão-de ser, se tu mesmo te excluis? Também tu és homem. Logo para que tais sentimentos sejam inteiros e completos, hão-de também compreender-te a ti, no seio que a todos acolhe. De outro modo, de que serviria ganhar a todos, se te viesses a perder? Por isso, quando todos te possuem, sê tu também um dos possuidores. Procura, se não sempre, senão frequentemente, ao menos de quando em quando, restituir-te a ti mesmo”.

 

Para os seculares da Ação Católica

28. Não é menor a solicitude que nos leva a aconselhar que se formem duma maneira apropriada nos Exercícios Espirituais, as numerosas coortes da Ação Católica, a qual não cessamos e nem cessaremos de recomendar e fomentar, com todas as nossas forças, visto ser ela participação utilíssima, para não dizer necessária, dos seculares no apostolado hierárquico. Nem achamos palavras bastantes para exprimir a alegria especial que se apoderou de Nós, ao sabermos que quase por toda a parte se organizavam turnos especiais de Exercícios destinados a formar estes pacíficos e valorosos soldados de Cristo, sobretudo os batalhões dos mais novos, que em grande número acorrem aos sobreditos Exercícios, a fim de melhor se adestrarem para combater os santos combates do Senhor. Ali encontram não só forças para realizar em si com mais perfeição o ideal da vida cristã, mas ouvem também não poucas vezes em seu coração a voz misteriosa de Deus, a chamá-los para os mistérios sagrados, a convidá-los para ajudar na conquista das almas, e até a impeli-los a exercer plenamente o apostolado. Aurora esplêndida de bens celestiais é esta, a qual será brevemente seguida e sobrepujada dum pleno meio-dia, contanto que a prática dos Exercícios Espirituais mais se difunda, e se propague com prudente perícia entre as várias associações católicas, sobretudo de jovens.

 

Para todas as associações humanas

29. Num tempo em que os bens temporários, com o consequente bem-estar material, se estendem em certa abundância aos operários e jornaleiros, levando-os assim a uma vida mais desafogada, foi providencial disposição da bondade e misericórdia de Deus tornar mais acessível ainda ao comum dos fiéis o tesouro celeste dos Exercícios Espirituais. Servirão de contrapeso que preserve o homem de cair tristemente no materialismo teórico e prático, para que o estão impelindo as vaidades que o arrastam e as comodidades e delícias da vida em que está engolfado. É por este motivo que justificadamente incitamos e favorecemos as obras “Pró-exercitiis” que se estão multiplicando já nalguns países e bem assim os “exercícios para operários” com as associações anexas de “perseverança”, extraordinariamente frutuosas. Todas estas obras, Veneráveis Irmãos, as encomendamos à vossa diligência e solicitude pastoral.

 

IV. COMO FAZER OS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS

30. Mas para que estes frutos consoladores derivem dos santos Exercícios, é mister praticá-los com a devida diligência, porque se eles se fazem rotineiramente, com frouxidão e desleixo, pouco ou nenhum fruto produzem.

 

Solidão e sossego quanto aos cuidados exteriores

31. É necessário, antes de mais nada, que a alma se aplique às meditações retirada na solidão, isto é, apartada dos cuidados e solicitudes da vida ordinária, pois como ensina claramente o áureo livrinho da Imitação de Cristo (1. I, c. 20, 6): “no silêncio e sossego é que a alma devota adianta na perfeição”. Portanto ainda que julgamos certamente dignas de louvor e de serem promovidas com toda a solicitude pastoral, essas meditações, propostas em público a multidões numerosas, visto que Deus as enche de tantas bênçãos, contudo insistimos dum modo particular nos Exercícios Espirituais feitos em particular e que se chamam “retiros fechados”. Neles o homem com maior facilidade se aparta do trato das criaturas, e recolhe o espírito dissipado, para atender só a si e a Deus, pela contemplação  das verdades eternas.

 

Espaço de tempo conveniente

32. Além disso os verdadeiros Exercícios Espirituais requerem que se empregue neles algum espaço de tempo. É certo que este tempo se pode reduzir a poucos dias, ou estender-se a um mês inteiro conforme as circunstâncias e as pessoas; contudo se alguém deseja tirar as vantagens que prometem os Exercícios, não os deve abreviar demasiado. Assim como o clima sadio dum lugar só aproveita à saúde corporal quando nele se permanece por algum tempo, assim também a arte salutar das meditações sagradas não é eficazmente profícua ao espírito, se não se pratica por algum tempo.

 

Seguir o melhor método

33. Por fim, é de suma importância para fazer bem e frutuosamente os Exercícios Espirituais praticá-los segundo um método sábio e apropriado. Ora, é sabido que entre todos os métodos de Exercícios Espirituais, fundados louvavelmente nos princípios de uma ascética sã e católica, houve um que se avantajou entre todos os mais, foi enriquecido com plenas e repetidas aprovações da Santa Sé, recebeu os elogios de varões exímios pela doutrina espiritual e santidade, e obteve, quase pelo espaço de quatro séculos, grandes frutos de santidade. Referimo-Nos ao método, introduzido por Santo Inácio de Loiola, a quem Nos apraz chamar o mestre principal e especializado nos Santos Exercícios, cujo “admirável livro dos Exercícios” (Brev. Rom., in festo S. Ign. (31 Jul., lect. 4) pequeno no tamanho mas cheio de sabedoria celeste foi solenemente aprovado, louvado e recomendado pelo Nosso predecessor de boa memória Paulo III (Litter. Apost. “Pastoralis officii”, 31 Jul. 1548); e desde então, repetindo as palavras de que Nos servíamos algures, antes de sermos elevados à Cátedra de Pedro, desde então, repetimos, “sobressaiu e se afirmou como o código mais sábio e absolutamente universal para dirigir as almas pelo caminho da salvação e perfeição, como manancial inexaurível da piedade mais profunda e ao mesmo tempo mais sólida, como estímulo irresistível e guia experimentadíssimo para obter a reforma dos costumes próprios e subir às alturas da vida espiritual” (“S. Carlo e gli Esercizi spirituali di S. Ignazio” in “S. Carlo Borromeo nel 3.° Centenário della Canonizzazione”, n. 23, Sept. 1910, p. 488). E quando no início do Nosso Pontificado “acedendo aos votos e ardentíssimos desejos dos Sagrados Pastores de quase todo o orbe católico dum e outro rito”, pela Constituição Apostólica “Summorum Pontificum” de 25 de Julho de 1922 (A. A. S., vol. XIV (1922), p. 420): “declaramos e constituímos a Santo Inácio de Loiola padroeiro celeste de todos os Exercícios Espirituais e por conseguinte dos institutos, congregações e associações de qualquer género, que se dedicam e trabalham pelos exercitantes”, não fizemos mais que sancionar com a Nossa Suprema Autoridade o sentimento que Pastores e fiéis comumente manifestavam; o que os Nossos insignes Predecessores Alexandre VII (Litter. Apost. “Cum sicut”, 12 octob. 1647), Bento XIV (Litter. Apost. “Quantum secessus” 20 mart. 1753. Litter. Apost. “Dedimus sane”, 16 maii 1753) e Leão XIII (Epist. “Ignatianae Commentationes” 8 feb. 1900. Acta Leonis XIII, vol. VII, pág. 373), além do já citado Paulo III, disseram tantas vezes, ao louvarem os Exercícios de Santo Inácio; e o que declararam com sinceros elogios, e ainda mais com a virtude alcançada ou aumentada nesta santa escola, todos aqueles que, para nos servirmos das mesmas palavras de Leão XIII, “mais floresceram na doutrina ascética, como na santidade de vida” durante os últimos quatro séculos (Ibid.).

34. De facto, a elevação de doutrina espiritual, absolutamente alheia aos perigos e erros dum falso misticismo, a admirável adaptação dos Exercícios a qualquer classe e estado de exercitantes, ou se entreguem nos mosteiros à vida contemplativa ou passem ativamente a existência em negócios seculares, a unidade tão harmoniosa das suas partes, a maravilhosa e lúcida ordem com que nas meditações se vão sucedendo umas às outras as verdades; finalmente os documentos espirituais, que depois de sacudido o jugo do pecado e purificadas as doenças que dominam em nossas ações habituais levam o homem pelo seguro atalho da abnegação e vitória sobre os maus hábitos até às alturas mais sublimes da oração e do amor divino; tudo isto, sem dúvida, mostra de sobejo a força e a eficácia intrínseca do método de Santo Inácio e recomenda abundantemente os seus Exercícios (Epist. Apost. Pii PP. XI, “Nous avons appris” 28 mart. 1929 ad Card. Dubois).

 

Retiro mensal

35. Para assegurar e conservar o fruto dos Exercícios Espirituais, tão expressamente louvados por Nós, para renovar a sua lembrança, resta, Veneráveis Irmãos, que vos aconselhemos encarecidamente uma piedosa prática, que poderíamos chamar como que breve repetição dos Exercícios, a saber, o retiro mensal, ou pelo menos trimestral. Esta prática, para citar as palavras do Nosso Predecessor, de santa memória, Pio X, “vemo-la com prazer introduzida em vários lugares” (Exhort. ad Cler. Cathol., “Haerent animo”, 4 Aug. 1908; Act. Sanct. Sedis, vol. XLI, pág. 575) e em vigor sobretudo nas Comunidades religiosas, e entre Sacerdotes piedosos do Clero secular; mas é Nosso veemente desejo, que se introduza até entre os leigos, o que não será sem grande proveito seu, principalmente entre os que se vêem impossibilitados de fazer os Exercícios Espirituais, por estarem ocupados no cuidado dos seus bens, e talvez enredados em negócios. Poderiam assim suprir até de alguma maneira com estes retiros as vantagens apreciáveis  dos Exercícios.

 

Conclusão

36. Deste modo, Veneráveis Irmãos, se os Exercícios se difundem por toda a parte entre as classes da sociedade e se fazem com todo o empenho, conseguir-se-á uma regeneração espiritual com intensificação da piedade, acréscimos das forças da religião, e expansão mais frutuosa do ministério apostólico. Por fim reinará a paz nos indivíduos e na sociedade.

37. Na limpidez do céu, enquanto a noite ia em meio do seu curso, o Verbo Eterno do Padre, tomando a natureza humana, apareceu aos mortais longe dos grandes concursos, em lugar apartado e ressoou pelas regiões etéreas o hino celeste: “Glória a Deus nas alturas, e na terra paz aos homens de boa vontade” (Lc 2, 14). O pregão da paz cristã — a paz de Cristo no reino de Cristo — é a expressão do supremo anelo do Nosso Coração Apostólico e para a sua realização tendem constantemente os nossos trabalhos e desejos. Calará fundo este pregão na alma dos fiéis, que afastados do tumulto e vaidades do século, ponderam em retiro silencioso e profundo as verdades da Fé, e os exemplos d’Aquele que trouxe a paz ao mundo e lha deixou como em testamento. “Dou-vos a minha paz” (Jo 14, 27). Esta paz verdadeira, vo-la desejamos, Veneráveis Irmãos, de todo o coração, neste mesmo dia em que por benefício de Deus se cumpre o 50.° aniversário de Nosso Sacerdócio. E ao aproximar-se agora a festa tão terna do Natal, que se costuma chamar “a festa da paz”, pediremos fervorosamente Àquele que foi saudado como “Príncipe da Paz” haja por bem conceder-vo-la.

38. Nestas disposições de ânimo, alentado o espírito com uma firme e alegre esperança, vos concedemos no Senhor, a vós, Veneráveis Irmãos, ao vosso clero e povo, isto é, a toda a Nossa queridíssima família católica, como augúrio dos dons divinos, e testemunho da Nossa benevolência, a Bênção Apostólica.

Dado em Roma, em S. Pedro, aos 20 de Dezembro de 1929, ano VIII do Nosso Pontificado.

PIO PP. XI