Católicos de Campos dos Goytacazes – Carta Aberta do Sr. Renato Cabral Pessanha

09/04/2007

Esse meu pronunciamento público tornou-se necessário porque está claro tudo que liga D. Fernando à facção modernista da Igreja, mas está completamente nebuloso o que ainda o liga à autêntica Tradição.

CARTA ABERTA AOS FIÉIS DA

TRADIÇÃO CATÓLICA EM CAMPOS

Caros irmãos e irmãs em Jesus e Maria:

MOTIVO DESSA CARTA

Costumo assistir à Santa Missa tradicional todos os dias, às 18 h. Faz parte de minha vida de católico praticante há mais de 35 anos. Há cerca de dois meses, estava em oração antes do início do Santo Sacrifício, quando me entregaram um exemplar da Orientação Pastoral intitulada “O magistério vivo da Igreja”. Autor: Dom Fernando Arêas Rifan. Estava num envelope, com meu nome manuscrito. Deduzi que era uma correspondência pessoal, cujo recebimento não passara em branco, já que os fiéis que ali estavam viram quando a tomei em mão. E sabiam do que se tratava, pois a outros o mesmo envelope era entregue. Como o ato foi público, pública deverá ser a resposta. E a estendo a todos, já que todos somos parte interessada no assunto, pois se trata do presente e do futuro de nosso posicionamento como católicos nessa diocese. Além do mais, só alguns tiveram endereçamento especificado pelo remetente. Por quê? Certamente porque Dom Fernando esperava, e ainda espera dessas pessoas, algum sinal de total acatamento ao conteúdo do documento.

BUSCA LEGÍTIMA DE ESCLARECIMENTOS

Esperará, além disso, algum comentário? Poderá um simples leigo comentar o texto de um bispo? A doutrina católica não o impede, desde que isso seja feito dentro da caridade não fingida, isto é, cristãmente sincera. E se houver alguma discordância, que seja bem embasada e enunciada com o respeito devido a um bispo. Sempre, desde a ordenação de D. Fernando, em 1974, o tratei com fidalguia: confessei-me com ele inúmeras vezes, fiz trabalhos artísticos para ele em seu Centro Catequético, fiz palestras para filhas de Maria a pedido dele, recebi-o em visita em minha casa mais de uma vez, estive presente em encontro no Dia do Professor, e participei de retiro espiritual de carnaval fechado na Igreja de Nossa Senhora do Rosário do Saco, quando ele era seu pároco. Acho que é bom deixar claro que até janeiro de 2002 nunca tive a menor dissensão com D. Fernando. Mas quando se trata de novas posições doutrinárias, a coisa muda de figura. Não vamos jogar fora tudo que nos ensinaram, e que assimilamos voluntariamente durante décadas, não é, irmãos e irmãs da Tradição? Não é inoportuno lembrar que um bispo pode errar. Tanto isso acontece, que na própria Orientação consta o pedido de perdão feito por dom Licínio Rangel e todos os seus padres, em 2001, quando da constituição da Administração Apostólica em Campos: “E se, por acaso, no calor da batalha em defesa da verdade católica, cometemos algum erro ou causamos algum desgosto a Vossa Santidade, embora a nossa intenção tenha sido sempre a de servir à Santa Igreja, humildemente suplicamos o seu paternal perdão” ( p. 30). Não é crível que mais de 50 anos de luta doutrinária leal, teologicamente irrefutável, bem fundamentada em documentos dogmáticos do magistério infalível tenham sido rasgados e eliminados do panorama da História em quatro linhas. Ainda mais com o testemunho incontestável de D. Mayer, que respondeu, quando indagado se tinha recebido propostas de reconciliação com Roma: “Sim, eu diria oficiosas. A elas respondo: Não posso desdizer o que declarei em Êcone. Pedir perdão seria agir contra um dever de consciência, seria condenar o que fiz pelo bem da Igreja e salvação das almas; seria abandonar a causa que assumi, ao lado de Mons. Lefebvre, a causa da Tradição católica”. (Ontem Hoje Sempre – nov. 1989). Estamos, então, diante de duas atitudes opostas. Sejam logo de início colocados esses dois trechos, claríssimos, que contrapõem D. Mayer – que jamais pediu ou pediria perdão de erros que não cometeu -, e D. Licínio – seguido por D. Fernando – que acham que estiveram no erro durante décadas. Como D. Mayer não faria isso, eu também não o farei. Creio que vocês também não, caros irmãos e irmãs da Tradição. Em matéria tão séria, concluo que D. Fernando não pode falar mais em nome de D. Mayer. Não tem procuração para agir de modo oposto a D. Mayer, e ainda citá-lo, como se fosse seu continuador. Seu procedimento contraditório o desautoriza. Sinto dizê-lo, mas se não o fizer, as paredes e bancos das nossas igrejas o proclamarão aos quatro ventos. Para quem disse que o “entendimento” com a Santa Sé não traria “nenhuma mudança quanto à Nova Missa e ao Concílio”, os atos que se seguiram negam o compromisso assumido com os fiéis. Isso foi ouvido por dezenas, que estavam na reunião feita cerca de uma semana antes da cerimônia na Basílica Menor, em janeiro de 2002. Em telefonema a D. Fernando, pouco depois, ainda indaguei: “Houve alguma barganha?”. Resposta: “Não, nenhuma”. Não é verdade que nos sentimos todos humilhados, desapontados, traídos, caros irmãos e irmãs? O que não posso agora é silenciar. O próprio remetente me impele a um pronunciamento. O silêncio, nesse caso, equivaleria a uma aquiescência irrestrita à Orientação em questão.

PESQUISA E REFLEXÃO

Foi por isso que me detive na sua leitura cuidadosa, sempre comparando com todos os outros trabalhos que tenho arquivados a respeito. Dentre esses, destaco as Encíclicas dos Papas Beato Pio IX, São Pio X, Pio XI e Pio XII. Também revi as Cartas Pastorais de Dom Antônio de Castro Mayer e livros de Dom Marcel Lefebvre, dois luminares na defesa da Tradição da Igreja. Aliás, foram eles os mestres de Dom Fernando, e foi Dom Mayer quem o elevou à ordem do presbiterato, ordenando-o padre. Sem a sagração de quatro bispos para a Tradição, em 1988, não teríamos a sagração de Dom Licínio Rangel em 1991, após a morte de Dom Mayer e Dom Lefebvre. Acresce a isso tudo a imensa repercussão, pela mídia internacional, de tudo o que acontece na diocese de Campos. D. Mayer ficou mundialmente conhecido por ser o único bispo que, em pleno exercício de sua função, resistiu às reformas conciliares. Foi chamado o “Atanásio brasileiro”. E com razão. Podiam atacá-lo, mas sua ciência teológica e firmeza de caráter nunca foram postas em dúvida, mesmo pelos inimigos. E os tido como amigos, continuariam a sê-lo? Tudo está encadeado, sendo os mais novos eternos devedores de tudo o que são aos mais velhos. De passagem registro que, salvo engano, D. Fernando não menciona uma só vez o nome de D. Lefebvre. É ocioso lembrar que sem Tradição não há Igreja Católica. E que deve ser íntegra. A Tradição, portanto, tem a mais longa de todas as histórias no mundo ocidental, repleta de fatos devidamente documentados, dos quais nenhum historiador sério pode abrir mão. Outros livros também consultei, e artigos de teólogos europeus renomados. Cito alguns: Padres Dominique Bourmaud, Daniel Le Roux , Pierre-Marie e obviamente D. Marcel Lefebvre, companheiro de combate de D. Mayer até o último sopro de vida.. Outra fonte importante são as revistas da União Sacerdotal São João Maria Vianney: Missa Nova: um caso de consciência, Véritas e Ontem Hoje Sempre, sobretudo a Edição Especial lançada quando da sagração de Dom Licínio Rangel, em junho de 1991. Ela traz como manchete de capa: “Eles partiram, a Tradição continua”. Também foi de grande valia a extensa e profunda justificação doutrinária “Sagração Episcopal em Campos – Operação: sobrevivência da Tradição”, publicada pela mesma União Sacerdotal em 1991.

O PONTO NEVRÁLGICO

A Orientação coloca a questão, delicada entre todas, do Magistério da Igreja em suas várias formas. Em outros termos, a Igreja enquanto mestra, enquanto ensina em nome de Deus. Todo católico deve acatamento externo e interno à doutrina emanada do Papa. Mas nem sempre o Vigário de Cristo empenha toda sua autoridade, de doutor universal, nem declara querer definir nenhum dogma solene “ex cathedra” para o mundo inteiro, tratando de assunto de fé e moral. Esse é o magistério extraordinário, no qual o Papa é sempre infalível. Muitos pensam, por desconhecimento, que toda palavra do Papa goza da infalibilidade. Isso não é verdade. A própria Orientação cita trecho (p.23) do Papa João Paulo II, na Carta Dominicae Cenae, de 24/2/80, em que ele assim se expressa: “Quero pedir perdão – em meu nome e no de todos vós, veneráveis e queridos irmãos no episcopado – por tudo o que, por qualquer motivo que seja e por qualquer fraqueza humana, impaciência, negligência, em virtude também da aplicação às vezes parcial, unilateral, errônea das prescrições do concílio Vaticano II, possa ter suscitado escândalo e mal-estar…”. O Papa pede perdão, em seu nome e no dos bispos, por aplicações até mesmo errôneas, do Concílio. Se não falhasse nunca, como pedir perdão? Fica claro que o Papa pode ser fraco, negligente, impaciente, e até mesmo errar, e causar escândalo. É ele que o diz. Então ele não é sempre infalível. Nesse caso, seria até um dever e um bem caridosamente adverti-lo, como um filho amoroso pode fazer com seu pai. Eu mesmo tive essa experiência com o meu, e foi o dia em que ele mais atento ficou, de cabeça baixa, silencioso e com olhos fechados. Digo-lhes que foi um fato único, ainda mais partindo do nono filho, 55 anos mais novo que ele. E sendo ele quem era, homem colérico e autoritário.

O Papa também é infalível em seu magistério ordinário. Para tanto, é preciso que o que ele ensina seja constante e universal. Que haja uma seqüência ininterrupta de Papas, no tempo e no espaço, confirmando tal doutrina. Exemplos: a Humanae Vitae, de Paulo VI, e a Ordinatio Sacerdotalis, de João Paulo II, que proíbe a ordenação de mulheres. Nesses casos, já existe uma tradição unânime, dotada de estabilidade, que confere caráter infalível à doutrina proposta. Vale aí o conjunto de atos, e não um ato isolado solene. É patrimônio sagrado, serenamente admitido por uma série de teólogos e documentos pontifícios. Todos os fiéis são nesse caso obrigados a crer, como doutrina divinamente revelada. É palavra de Deus.

Agora chegamos ao ponto-chave do tema: o terceiro tipo de magistério, chamado de autêntico. Esse termo técnico significa “meramente autorizado”. Está ligado à pessoa do Papa, a sua autoridade pessoal. Não se refere a sua infalibilidade. São coisas distintas. Em seus pronunciamentos privados, ou em decisões em que deixa claro não querer definir nenhum dogma de fé, o Papa goza apenas de sua autoridade limitada como doutor e bispo. Se isso é assim, e é o que defende o cardeal Siri (revista Renovatio 1968), o ensinamento tem que atender certas condições para ser tido como verdade de fé: tem que ser tradicional (citado pelo Pe. Pierre-Marie). Se romper com a Tradição,o magistério ordinário não envolve infalibilidade. Ao romper, falha. Falhando, não obriga em consciência nos pontos em que falha. Em tempos normais, o magistério autêntico exige acatamento prudente. Mas vivemos em estado de necessidade, o que gera o direito de necessidade. Ensina o documento “Operação: sobrevivência da Tradição”: “Direito de necessidade é a soma das regras jurídicas que valem em caso de ameaça contra a perpetuidade ou atividade da Igreja”. Como hoje a Fé está em perigo, pode-se invocar esse direito. Foi o que possibilitou a sagração de D. Licínio Rangel em 1991, mesmo sem mandato da Santa Sé. E isso foi feito pelos quatro bispos sagrados por D. Lefebvre e D. Mayer, na Suíça, em 1988. Sem esse recurso extraordinário, mas lícito, a Tradição não teria sobrevivido. Será que D. Lefebvre não mereceria, ao menos por isso, uma menção elogiosa?

A AUTORIDADE DO CONCÍLIO VATICANO II

Convocado pelo Papa João XXIII em 1962, o Concílio não quis ser dogmático, mas pastoral. Afirma o Pe. E. Doronzo O.M.I. no Observatório Romano, em set. 1972: “Entre os exemplos do magistério extraordinário não infalível há os diferentes documentos do Vaticano II(…)”. Também D. Mayer não foi condenado doutrinariamente por recusar certos ensinamentos do Concílio. Na carta de 21 de novembro de 1983 ao Papa, assinada também por D. Lefebvre, ele não hesita em qualificar o “falso direito natural do homem em matéria religiosa”, qualificando-o de “blasfêmia”. Ora, se esses dois bispos estivessem em erro, teriam sido punidos. Mas eles estavam com a Tradição, com a verdade. Por isso podemos com eles não aceitar tudo que o Concílio promulgou, que não incorreremos em erro. Se o Papa Paulo VI falou em “autodemolição” da Igreja, e na penetração nela da “fumaça de satanás”, referia-se a isso: “novidades” que perturbam e obscurecem a consciência dos fiéis (ecumenismo, diálogo inter-religioso). Isso está em ruptura com a Tradição, pois nenhum Papa antes visitou sinagoga, elogiou Lutero ou promoveu encontros de seitas e cultos dentro de qualquer basílica católica, como aconteceu em Assis em 1986. Nesses pontos os fiéis podem e devem mostrar publicamente sua discordância.

CORRENTES EM CONFRONTO

Longe de nós afirmar que o Concílio foi herético. Como sempre nos ensinaram nessa diocese nos últimos 40 anos, trata-se de cotejar sua doutrina com a Tradição. Isso por cautela, já que, sem qualquer dúvida, muitas questões suscitaram vivas polêmicas, os seus frutos foram amargos, e teólogos modernistas, como Rahner, tiveram nele larga influência. Uma prova das divisões entre modernistas – condenados por São Pio X e Pio XII – e tradicionalistas no concílio Vaticano II, diz respeito ao falso “direito” à liberdade religiosa. Esse tema envolve a grave questão das relações entre o Estado e a Igreja, da missão da Igreja de pregar a verdade do Evangelho, de como tolerar outros “credos” como mal menor, e como agir em países de maioria pagã ou católica. Após falar das duas correntes na sessão preparatória, que se opunham – os da Tradição liderados pelo Cardeal Ottaviani, e os liberais tendo à frente os Cardeais Bea, Alfrink e Frings, conclui o jornal SimSimNãoNão, em artigo de jul/ag 2005: “ Tudo o que foi exposto revela claramente a existência de uma fissura no seio das próprias comissões preparatórias, uma fratura que sairia definitivamente à flor da pele na “aula” conciliar. De um lado, encontramos os que só queriam reelaborar e expor fielmente a doutrina católica de sempre, e de outro, configurava-se cada vez mais a vontade de recorrer à pastoral para inserir uma modificação substancial na concepção católica das relações entre a Igreja e o Estado. A nova orientação deletéria, que desgraçadamente acabou prevalecendo, manifesta-se com clareza no esquema do Secretariado para a Unidade dos Cristãos, presidido pelo Cardeal Bea”. Foi usando táticas como essa que, sem dogmatizar, os modernistas foram contaminando todos os textos conciliares. Sabiam que, se fossem explícitos, seriam excomungados. D. Mayer ensina argutamente em sua Carta já citada: “Mais sinuosa é a falácia, quando se fere a Tradição, através de elucidações dogmáticas que, sem negarem os termos tradicionais, de fato, são incompatíveis com os dados revelados (…). Há igualmente descaminhos para a heresia, nas deduções que ampliam o conteúdo das premissas (…). Mais sutis são os novos usos, especialmente em liturgia, que sub-rogam aos antigos, e que não são dotados da mesma riqueza, senão que insinuam outros conceitos religiosos” ( citado na “ Homenagem pelos 40 anos de episcopado”, p. 23 ). Não resta dúvida, portanto, de que tudo o que emanou de um Concílio tão conturbado, onde se usou de tantas manobras, precisa ser dissecado com cautela e sabedoria adequadas. O pedido de perdão de João Paulo II endossa essa tese, e nos alarma, visto que em nenhum outro Concílio da Igreja, houve necessidade do Papa ter que vir a público pedir perdão por erros conciliares. Se se seguisse a Tradição, não haveria necessidade desse verdadeiro vexame universal. Só o discurso de conclusão do Concílio, do Papa Paulo VI, é assustador: “nós, também, mais que ninguém, nós temos o culto do homem”. Nisso, caros irmãos e irmãs, seguirei sempre, e espero que também vocês, a atitude de D. Mayer e de D. Lefebvre, que em sucessivas cartas ao Papa, em jan.1974, nov. 1974, nov. 1983, dez. 1986, ag. 1985 e jun.1988, deixaram claríssima sua oposição aos abusos de poder, heresias e erros difundidos pelo Concílio. Apenas um trecho para provar isso: “Desde há quase vinte anos que nos esforçamos com paciência e firmeza por fazer compreender às autoridades romanas essa necessidade do regresso à sã doutrina e à Tradição, para renovação da Igreja, para a salvação das almas e para a glória de Deus. Porém ficam surdos às nossas súplicas, pedem que reconheçamos toda a justeza do Concílio e das reformas que arruínam a Igreja…” . Como bons teólogos que eram, não se arriscariam a afirmar de forma tão cristalina e candente que as reformas conciliares não devem ser aceitas, e que trazem a ruína à Igreja. Termos tão pesados só se sustentam porque o Concílio não é dogmático, e sua doutrina pertence ao magistério ordinário meramente autêntico. Na mesma medida em que rompe com a Tradição, nessa mesma medida pode e deve ser recusado. Afirma D. Mayer em sua Carta Pastoral “Aggiornamento” e Tradição: “ (…) o ato do Magistério ordinário de um Papa que colida com o ensinamento caucionado pela Tradição magisterial de vários Papas e por espaço notável de tempo, não deveria ser aceito”.

Ainda mostra um quadro mais dramático, na mesma Carta, quando declara: “Tanto mais, quanto a Exortação do Santo Padre (Paulo VI, em 1971), deixa entrever que há uma verdadeira conspiração para demolir a Igreja (… ) .Há, pois, entre os fiéis, um movimento de ação dupla convergente para a formação de uma nova Igreja, que só pode ser uma nova falsa religião…” Aí D. Mayer liga os desvios não a algo ocasional, mas a um plano orquestrado. Quem o orquestrou? Quando começou essa orquestração? Depois de tudo que foi esclarecido, não é difícil responder. O verdadeiro sentido do “aggiornamento” do Papa João XXIII, assevera D. Mayer em sua Carta Pastoral sobre o assunto, era “uma maneira de expor a doutrina católica, de sorte que possa atrair o homem moderno de espírito reto”. Sem essa retidão, que rareia na modernidade, a interpretação foi deturpada, a ponto de se perder, de modo generalizado, a noção correta. É aí que se encaixa a conspiração: não terá sido tudo proposto já se sabendo que a corrente modernista, muito forte, usaria as passagens ambíguas dos textos conciliares a seu favor? A pergunta tem toda lógica, e precisa ser posta sem medo. Ela é a conclusão das premissas colocadas por D. Mayer. Não há como fugir dela. Todo o clima cultural revolucionário dos anos 60 praticamente inviabilizou o projeto no seu melhor sentido. Diz D. Mayer: “ (…) inculca-se a tese de que a Igreja tradicional, como existira até o Vaticano II, já não está á altura dos tempos modernos. De maneira que Ela deve transformar-se totalmente” .

PAGAMENTO DE UMA DÍVIDA ETERNA

Relembrar essas verdades me traz tristeza e alívio. O primeiro sentimento tem como razão o fato de estar sendo, contra meu feitio, obrigado a contestar um bispo formado por D. Mayer. Não estive sequer uma vez no palácio episcopal para conversar com ele. Nunca pertenci a nenhuma associação católica. Nunca me confessei com ele. Sempre o vi como uma pessoa distante de mim. Mas nunca estive distante de sua doutrina, dos sacramentos e da confissão mensal, da Missa e da recepção da Eucaristia diariamente. Sem falar na recitação do Rosário todos os dias. Como poderia agora, passados 16 anos de sua morte, esquecer de todo o bem que sua luta, única no meio ao modernismo imperante após o Concílio, me fez? Cumpro meu dever de gratidão. Também não poderia ficar quieto e dormir tranqüilo. E como não retiraria do tesouro do Batismo e da Fé católica, mais importante que a luz dos meus olhos, lições de vida que me conduzam retamente em meio á confusão espiritual reinante? E me sinto aliviado, irmãos e irmãs, por finalmente expor a vocês o que nos foi legado. Na verdade, todos que desejamos ser fiéis à Tradição, estamos angustiados com os caminhos que o grupo de padres formados por D. Mayer tem tomado desde 2002. Não vou enumerar todos os fatos lamentáveis ocorridos desde então. Apenas as concelebrações em Aparecida do Norte, na Basílica Menor de Campos, e o fato da “Renovação Carismática Católica” estar sendo dirigida por um padre ordenado por D. Mayer. Tudo isto está documentado, inclusive com fotos. Mas o ponto culminante foi a publicação da Orientação Pastoral em janeiro último. Ela não corresponde, de forma alguma, à orientação segura que D. Mayer imprimiu em todo seu episcopado, que tinha como lema “tenete traditiones”. Para que essa carta-aberta não se transforme num tratado, quero concluir com um trecho – não retirado de nenhum contexto, como não o foram todos os outros que citei antes – da carta que D. Antonio de Castro Mayer, nosso líder maior a quem tudo devemos abaixo de Deus, remeteu ao Papa Paulo VI, em janeiro de 1974 : “ Ao longo desses anos foi tomando corpo em meu espírito a convicção de que atos de Vossa Santidade não têm, com os Pontífices que o antecederam, aquela consonância que com toda a alma eu neles desejaria ver…Limito-me a submeter a Vossa Santidade três estudos: 1. Sobre a “ Octogésima Adveniens”; 2. Sobre a liberdade religiosa; 3. Sobre o Novo Ordo Missae… de modo especial suplico a Vossa Santidade queira declarar-me: a. Se encontra algum erro nas doutrinas expostas nos três estudos anexos; b. Se vê na atitude assumida nos ditos estudos face aos documentos do Supremo Magistério, algo que destoe do acatamento que a estes devo como bispo…” . Resposta:As cartas de 25 de janeiro p.p…. chegaram ao destino”.

CONCLUSÃO

Caros irmãos e irmãs em Jesus e Maria:

Logicamente não fiz um estudo exaustivo da Orientação Pastoral. Selecionei alguns pontos em que fica patente a oposição entre ela e a orientação deixada por D. Mayer, como no trecho da carta a Paulo VI acima transcrito.D. Lefebvre tem sua memória simplesmente apagada. Diante desses fatos inegáveis, e considerando a enorme responsabilidade que cada um de nós tem diante de Deus, como luz e sal que devemos ser nesse mundo hostil à Tradição, cumpro essa difícil tarefa de contestar a posição de um bispo da Santa Igreja, com o qual privei durante tantos anos, desde o tempo em que era seminarista maior na Igreja do Terço, cheio de talento musical e dons naturais incomuns. Concluo com um luminoso texto recente da revista SimSimNãoNão: “(…) É possível que uma intervenção do Magistério entre em contradição com uma outra. A fé não se deve perturbar, porque a infalibilidade não está em jogo; mas o senso dos fiéis tem o direito de escandalizar-se, porque tais fatos revelam uma profunda desordem no exercício do Magistério. Negar a existência desses fatos em nome de uma compreensão errônea da infalibilidade da Igreja, e negá-la ‘a priori’ não está em conformidade nem com as exigências da teologia, nem com as da história, nem com as do bom senso mais elementar (…) Ora, a fé exige a submissão da inteligência diante do Magistério e a ultrapassa, não sua demissão diante das exigências de coerência intelectual que são de sua competência, na medida em que o julgamento é uma virtude da inteligência. Eis porque, quando uma contradição é evidente (…), o dever do fiel, e mais ainda do teólogo, é de se dirigir ao Magistério para pedir-lhe que o retifique ( “A Eucaristia salvação do mundo”, Ed. Du Cèdre, Paris 1981, pp. 56 sq.). É exatamente isso que quero por último lhes pedir, caros irmãos e irmãs: que se dirijam a D. Fernando, assim como me dirijo a vocês, para que reveja sua posição, recordando-lhe sua trajetória de vida. Também insistam junto àqueles padres que sabemos não estão de acordo com essa nova posição, oposta à de D. Mayer, que se manifestem. É preferível lutar com honra, a ter uma vida sacerdotal cheia de sobressaltos, sem saber até quando ficarão à frente de suas paróquias. E o que virá depois? Morrer com o remorso de não ter agido de modo corajoso na hora certa. E a hora é agora, ou melhor, pode até já ter passado o momento da graça. Peço que reproduzam e distribuam essa carta, já que farei o mesmo, sendo o primeiro a recebê-la o próprio D. Fernando Arêas Rifan, Exmo. Bispo da Administração Apostólica. Ele contará sempre com minhas parcas orações, assim como toda a Hierarquia da Igreja Católica, sobretudo o Santo Padre Bento XVI. Esse meu pronunciamento público tornou-se necessário porque está claro tudo que liga D. Fernando à facção modernista da Igreja, mas está completamente nebuloso o que ainda o liga à autêntica Tradição. E nós, simples leigos, mas parte viva do Corpo Místico de Cristo, certamente merecemos uma satisfação e uma resposta atenciosa de nossos pastores. Sobretudo como pertencentes a uma diocese conhecida no mundo inteiro, pelo seu zelo na defesa da ortodoxia na figura de seu expoente maior, e seguidor de São Pio X: Dom Antonio de Castro Mayer. É em nome de tudo que até 2002 simbolizamos que solicitamos uma resposta a nossas dúvidas, perplexidades e justos anseios de católicos. Meu abraço amigo e respeitoso a todos vocês, irmãos e irmãs da Tradição Católica de Campos. Que Jesus Ressuscitado, a Santíssima Virgem e São José nos abençoem a todos.

Renato Cabral Pessanha
Campos dos Goytacazes, 09 de abril de 2007