Difícil diálogo inter-religioso entre o Vaticano e a Universidade do Cairo

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Ao passo que o tradicional encontro entre o Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso e a Universidade egípcia sunita Al-azhar estava programado para 23 e 24 de fevereiro, no Vaticano, o dicastério romano indicou dois dias mais cedo, à Agência I.media, estar sem notícias dos seus interlocutores egipcíos. Em 20 de Janeiro, a mais importante instituição do islão sunita tinha anunciado a sua decisão de suspender as suas relações com o Vaticano, na sequência dos apelos lançados pelo Papa aos governantes do Médio Oriente [em Portugal, Próximo Oriente-N.T.] a favor das minorias Cristãs. Com efeito, as autoridades da Universidadxe Al-ahzar, como Grande Imã Ahmed El-Tayyeb à cabeça, «quiseram congelar o diálogo com o Vaticano até data indeterminada», enquanto o Cardeal Jean-Louis Tauran, Presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo-Inter-religioso, tinha assegurado várias vezes que o Vaticano continuava aberto ao diálogo e estava sempre disponível para participar na reunião.

O dicastério, pelo contrário, felicitou-se pelo seu regresso a Roma da Senhora Lamia Aly Ha­mada Mekhemar, Embaixadora do Egipto junto à Santa Sé, anunciada, em 20 de Fevereiro, pelo porta-voz do Ministério dos Negócios estrangeiros egípcio. Segundo ele, o país «apreciou os repetidos sinais positivos recentemente emanados de numerosos responsáveis do Vaticano e decidiu reagir favoravelmente, recolocando a Embaixadora no seu posto», depois da intervenção do Núncio Apostólico no Cairo, Dom Michael Fitzgerald, dando parte do desejo da Santa Sé «de virar a página do diferendo com o Egito».

Apesar de tudo, pôde realizar-se em Roma um colóquio, em 23 de Fevereiro, organizado pela Comunidade Santo Egídio, intitulado Cristãos e Muçulmanos – Por um Futuro Comum, na presença de representantes  da Universidade Al-ahzar. Foi assim que Muham­mad Rifaa al Tahtawi, ex-porta-voz da Universidade e Hasan Shafie, representante especial do Grande Imã, intervieram no decorrer deste encontro, em que o Vaticano foi representado por Dom Cyril Vasil, Secretário da Congregação para as Igrejas Orientais.

Muhammad Rifaa al Tahtawi, que deixou o cargo de porta-voz da Universidade Al-ahzar, em 4 de Fevereiro último, para se juntar à revolta popular, falou com os jornalistas à margem do colóquio. Disse do respeito do Egito pelo Vaticano e pelo Papa, «símbolo da paz e da justiça no mundo e cuja autoridade humana é universal». Sublinhou que o que se exige do Papa não é o mesmo que se exige dos outros, porque ele é julgado segundo o seu estatuto. «Queremos que ele faça um gesto para que os muçulmanos sintam que se preocupa com eles como seres humanos, como se preocupa com os outros»», declarou, antes de enumerar uma longa série de queixas.

Assim, pediu a Bento XVI «uma palavra de respeito para o islão como religião de paz, que diga qualquer coisa mais forte sobre o estatuto de Jerusalém do que o simples fato de querer dois Estados, ou ainda que exija o fim da ocupação (israelita-N.R.) e a aplicação das decisões internacionais». «O Papa pediu desculpa pelo holocausto, mas nunca considerou as Cruzadas como uma agressão», deplorou o representante egípcio. Segundo Muham­mad Rifaa al Tahtawi, a Universidade Al-ahzar quer um diálogo frutuoso, que dê verdadeiros resultados, baseado no respeito mútuo. Por outro lado, explicou mais longamente que esta instituição sunita e o conjunto do mundo islâmico tinham «o sentimento de não serem tratados como iguais».

Parece que Muham­mad Rifaa al Tahtawi pretende ver Bento XVI renovar o gesto de arrependimento do seu predecessor. Com efeito, em 12 de Março de 2000, João Paulo II celebrou, na Basílica de São Pedro, uma cerimônia de pedido de perdão, cujo ponto culminante foi a oração universal que enumerava as faltas pelas quais o Papa polaco apresentava o arrependimento do conjunto da Igreja. O que incluia os pecados «cometidos ao serviço da Verdade», como a Inquisição e as Cruzadas.

Dom Antonios Naguib, Patriarca Copta de Alexandria, estava também presente no colóquio de 23 de Fevereiro da Comunidade Santo Egídio; desejou que «o sonho dos jovens egípcios se realize», segundo a agência da Conferência Episcopal Italiana, SIR. Esses jovens, explicou, formam «uma geração que, graças às redes sociais, se encontrou na rua para gritar a sua sede de valores como a justiça, a liberdade, a paz e a igualdade».

O Cardeal Naguib teme que a queda do regime de Hosni Mubarak favoreça a subida ao poder de «grupos que não partilham os ideais dos jovens», e que procuram «impor o seu programa na cena política», fazendo alusão implícita à Irmandade Muçulmana. «Contudo, existem moderados entre eles», afirmou. «Quem for agora chamado a dirigir o Egito, ou for eleito no futuro, deverá velar para que tal não aconteça», desejou ele.

Interrogado pelo diário italiano Il Fatto Quotidiano, de 24 de Fevereiro de 2011, o Patriarca dos Coptas de Alexandria faz votos por um «Estado civil baseado nos direitos do homem e na liberdade religiosa».

Fontes : apic/imedia – DICI n° 231 du 05/03/11