Egito: «Europa, cuida da tua alma!»

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O Rev. Pe. Henri Boulad

O Padre Christophe Roucou, Diretor do Serviço Nacional para as Relações com o Islão (SRI) da Conferência dos Bispos da França, publicou um texto assinado pelo Padre Henri Boulad, jesuíta egípcio de ascendência síria e Diretor do Centro Cultural Jesuíta de Alexandria, e por Soliman Chafik, jornalista e analista político, datado de Alexandria em 4 de Fevereiro último.

Nesse texto se encontra uma análise da situação local: «A maioria dos Cristãos – à parte certos ativistas ou intelectuais comprometidos – mantém-se de preferência à margem destas perturbações políticas e teria, ao que parece, recebido instruções nesse sentido da sua hierarquia. De fato, vivem no medo e esperam o pior no caso de os Irmãos Muçulmanos tomarem o poder. Por agora, graças a Deus, nenhum incidente confessional se produziu, se bem que igrejas e conventos já não sejam protegidos pela polícia».

Entrevistado por Geneviève Delrue (RFI) em 27 de Fevereiro, o Padre Henri Boulad analisou a revolta da juventude egípcia, pormenorizando que esta recusa à ditadura militar na qual vivia, do mesmo modo que uma eventual ditadura religiosa. Há uma espécie de laicização da juventude do Egito, informa o Padre Boulad, pelo menos da juventude ligada à Internet ao longo dos anos. O jesuíta vê nisso uma evoluão das mentalidades dos 25-35 anos, que recusam toda a incorporação religiosa e que sonham com uma sociedade civil e democrática. Salienta que os Irmãos Muçulmanos, muito organizados e principal força da oposição, não foram os iniciadores dos movimentos populares, mas quiseram recuperá-los em seu proveito. Lembra, também, que a «juventide Internet» do Egito, permanecendo crente, quer-se demarcar dos poderes religiosos, sejam os da islâmica Universidade de Al-Ahzar, das mesquitas ou dos Irmãos Muçulmanos. Ainda não se pode dizer, acrescenta o padre jesuíta, o que se vai passar: será um poder teocrático? Atualmente, é um braço de ferro entre todos os envolvidos com desiguais forças; a força moral da juventude, a força política dos Irmãos Muçulmanos, a força do Exército que beneficia do apoio da América, estão em confronto para decidir o futuro do país, futuro que ainda não se pode discernir.

Jacques Berset, da Agência APIC, tinha entrevistado o Padre Boulad em Novembro de 2006, após a polêmica suscitada pela citação de Bento XVI, em 12 de Setembro, na Univesidade de Ratisbona, sobre as relações do islã com a razão e a violência. Aquele tinha, então, qualificado a citação como infeliz, mas necessária, para perfurar um abcesso, o que não se diz no diálogo inter-religioso. «Este convite ao diálogo sempre partiu de Roma», explicava o Padre Boulad, «e mesmo que o islão respondesse cordialmente, nunca a iniciativa veio do seu lado. Os muçulmanos não acreditam no diálogo. Talvez tenham razão e são, talvez, mais realistas do que os Católicos. Com efeito, um diálogo consiste em ouvir o outro e tentar compreender o que ele nos quer dizer. Mas, praticamente, o diálogo com o islã está armadilhado, porque os Católicos estão seguros de ter a Verdade e os muçulmanos também. Num diálogo, o que cada um procura, inconscientemente, é convencer o outro e persuadi-lo que a sua religião é a única verdadeira».

Prosseguindo a sua exposição, o Padre jesuíta pormenorizava que o debate teológico é estéril, primeiro, porque a convicção profunda dos muçulmanos é de que não há senão um única religião, o islã, como ensina o Corão; depois, porque o esforço de reflexão crítica (ijtihad) está interdito aos ulemas, «de modo que só se pode discutir com os não azharites, isto é, fora do círculo dos ulemas e cheiques da Universidade Islâmica de Al-Ahzar. Com os azharites não há que argumentar, mas apenas fornecer citações do Corão. O que afirmamos é falso, pois o Corão diz o contrário. De nada serve, neste caso, apresentar provas históricas, filosóficas, lógicas, racionais».

Para o religioso egípcio, «no plano teológico, nada há a buscar, para além do diálogo de salão e da amizade. São dois níveis, duas mentalidades que não se misturam. Quanto à Europa, que faz ela com o seu “politicamente correto”? Em nome do liberalismo (declara ele), estão a deixar penetrar o fanatismo e a intolerância pela via da imigração». A Europa deixa-se ridicularizar, «porque o islã não é compatível com a sociedade democrática. Não é uma questão de indivíduos – a maioria deles são muito gentis e simpáticos – mas de sistema».

«É uma sociedade de tipo totalitário, e quando se tornar maioria na Europa, será demasiado tarde. É necessário saber que a mesquita não é só um local de culto e oração, é com frequência, também, um local de propaganda, porque islã e política são inseparáveis. A Europa faz de conta que não sabe disto. Infelizmente, até a Igreja Católica, na França, no Vaticano, não se aconselha senão com islamólogos soft. Para terminar, direi isto: Europa, cuida da tua alma!»

Fontes: apic/RFI – DICI n° 231 du 05/03/11