Entrevista com Dom Bernard Fellay, realizada pelo Distrito dos EUA em fevereiro de 2011 – Parte 1

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Entrevista concedida por Dom Bernard Fellay ao Distrito dos Estados Unidos em 2 de fevereiro de 2011. Ao longo dela são abordadas todas as questões que se referem à vida da Igreja e à Fraternidade São Pio X; nenhum tema ficou de fora.

Agradecemos à Sua Excelência pelo tempo que gastou para responder às perguntas postas!

Oferecemos a nossos leitores este extenso documento que será publicado em duas partes e que tratará de:

I. Os colóquios doutrinais

II. O efeito produzido pelo Motu Proprio

III. Assis 2011

IV. Beatificação de João Paulo II

V. A Fraternidade São Pio X

VI. Expansão nos Estados Unidos

VII. Conclusão

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I. Colóquios Doutrinais

[Distrito dos EUA] 1. Excelência, o Senhor decidiu iniciar colóquios doutrinais com Roma. Poderia nos recordar o objetivo?

[S.E.R. Dom Bernard Fellay] É necessário distinguir entre o fim buscado por Roma e o nosso. Roma indicou que existiam problemas doutrinais com a Fraternidade [São Pio X] e que estes deveriam ser esclarecidos antes de qualquer reconhecimento canônico – problemas que, tratando-se da aceitação do Concílio [Vaticano II] obviamente procediam de nossa parte. Para nós, no entanto, trata-se de outra coisa: queremos expor a Roma o que a Igreja sempre ensinou, e com isso, assinalar as contradições existentes entre este ensinamento multisecular e o que aconteceu depois do concílio. Por nossa parte, este é o único objetivo que queremos.

2. Qual a natureza desses colóquios: negociações, debates ou exposição da doutrina?

Não se pode falar em negociações. De forma alguma se trata disso. Trata-se, por um lado, de uma exposição da doutrina e, por outro, de um debate, já que estamos diante de um interlocutor romano, com o qual debatemos acerca dos textos e sobre a forma de interpretá-los. Mas não se pode falar em negocioações, nem de busca de um compromisso, pois é uma questão de fé.

3. Poderia o senhor nos recordar qual é o método de trabalho utilizado? Quais são os temas que já foram abordados?

O método é escrito: são redigidos textos sobre os quais depois será baseado o colóquio teológico. Vários temas já foram tratados mas por enquanto deixo em aberto essa questão. Posso apenas dizer que estamos chegando ao fim porque já passamos pelos principais temas resultantes do Concílio.

4. O senhor pode nos descrever os interlocutores romanos?

São especialistas, ou seja, professores de teologia, que ao mesmo tempo atuam como consultores da Congregação para a Doutrina da Fé. Pode-se dizer que são “profissionais” da teologia. Um, suíço, o Padre Morerod OP, é reitor do Angelicum; outro, jesuíta, mais idoso que o anterior, é o Padre Becker; um membro do Opus Dei, na pessoa de seu Vigário Geral, Dom Ocariz Braña; depois está Dom Ladaria Ferrer, Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé; e por fim, o moderador, que é o Secretário da comissão Ecclesia Dei, Dom Guido Pozzo.

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Respectivamente, Padre Charles Morerod OP, Dom Ocariz Braña e Dom Guido Pozzo

5. Há uma mudança no pensamento de nossos interlocutores depois de nossas exposições?

Não acho que seja possível dizer isso.

6. Dom de Galarreta, no sermão das ordenações em La Reja de dezembro de 2009, disse que Roma aceitara que o magistério anterior ao Vaticano II seja tido como “único critério comum e plausível” para esses colóquios. Existe esperança de que nossos interlocutores revisem o Vaticano II ou é algo impossível para eles? O Vaticano II é realmente um obstáculo intransponível?

Me parece que o assunto deve ser levantado de outra forma. Considerando as distinções feitas pelo Papa Bento XVI em seu discurso de dezembro de 2005, observa-se claramente que está vedado fazer qualquer interpretação pessoal do Concílio. Portanto, sem falar abertamente de uma revisão do Concílio, percebe-se – apesar de tudo – certa intenção em rever a forma de apresentar o Concílio. Essa distinção pode parecer um pouco sutil, mas nela são apoiados, precisamente, aqueles que não querem tocar no Concílio e, no entanto, admitem que pelo fato de um acúmulo de ambiguidades, foram transpostos limites proibidos, sendo necessário relembrar que estão proibidos. Se o Vaticano II é de fato um obstáculo intransponível? Para nós, de qualquer forma, sim o é.

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Dom Alfonso de Galarreta

7. Por que lhes é tão difícil admitir uma contradição entre o Vaticano II e o magistério anterior?

A resposta é muito simples. A partir do momento que é admitido o princípio conforme o qual a Igreja não pode mudar, se o objetivo é que se aceite o Vaticano II, é preciso afirmar que o Vaticano II não mudou nada. Eis o motivo pelo qual não concordam em admitir contradições entre o Vaticano II e o magistério anterior. No entanto, entram em apuros quando devem explicar a natureza da mudança que efetivamente foi produzida.

8. Além do testemunho da fé, é importante e vantajoso que a Fraternidade vá a Roma? É perigoso? O Senhor acredita que isso possa se prolongar no tempo?

É muito importante que a Fraternidade ofereça esse testemunho; esta é inclusive a razão desses colóquios doutrinais. Trata-se verdadeiramente de que em Roma ressoe a fé católica e inclusive tentar – por que não? – que ressoe com potência em toda a Igreja. Existe um perigo: o de alimentar ilusões. Vê-se que alguns fiéis se iludiram, mas os últimos acontecimentos se encarregaram de dissipá-los. Acredito que o anúncio da beatificação de João Paulo II ou o do novo Assis, na linha das reuniões interreligiosas de 1986 e 2002.

9. O Papa acompanha de perto esses colóquios? Ele já fez algum comentário sobre eles?

Acredito que sim, mas sem estar a par dos pormenores. Se fez algum comentário sobre eles? Por ocasião de uma reunião com seus colaboradores, neste verão, em Castelgandolfo, disse que com eles estava satisfeito. É tudo.

10. Podemos dizer que o Santo Padre, que há mais de 25 anos lida com a Fraternidade São Pio X, hoje está mais benévolo para com ela que no passado?

Não estou certo disto. Sim e não. Acredito que como Papa é responsável por toda a Igreja, tem preocupação por sua unidade e teme que se produza um cisma. Foi ele mesmo quem disse que estes eram os motivos que o levaram a agir. Agora ele é a cabeça visível da Igreja; eis aí a explicação do por quê age assim. Isso significa que manifesta maior compreensão para com a Fraternidade? Acredito que exista certa simpatia, mas com limites.

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11. Em síntese, o que diria hoje sobre esses colóquios?

Que se tivéssemos que fazer novamente, o faríamos. É muito importante, é capital. Se esperamos corrigir um movimento de ideias, esses colóquios não podem ser evitados.

12. Há algum tempo escutam-se algumas vozes de eclesiásticos – Dom Gherardini, Dom Schneider – que, inclusive em Roma, difundem verdadeiras críticas aos textos do Vaticano II e não somente a sua interpretação. Se pode esperar que este movimento aumente e entre no Vaticano?

Não digo que se possa esperar senão que se deve esperar. Verdadeiramente temos que esperar que essas críticas emergentes – chamemo-as objetivas, serenas – se ampliem. Até agora o Vaticano II sempre foi considerado como um tabú, o que faz quase impossível curar essa enfermidade que é a crise da Igreja. Deve-se poder falar dos problemas e ir ao fundo das coisas; do contrário, nunca se poderia administrar o remédio.

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Dom Brunero Guerardini                                     Dom Athanasius Schneider

13. A Fraternidade pode desempenhar um papel importante nessa concientização? De que forma? Qual é o papel dos fiéis a esse respeito?

Por parte da Fraternidade, sim, podemos desempenhar um papel, justamente apresentando o que a Igreja sempre ensinou e levantando objeções às novidades conciliares. O papel dos fiéis é dar a prova nos fatos, já que eles são a prova de que hoje a Tradição pode ser vivida. O que a Igreja sempre ensinou – a disciplina tradicional – é não somente relevante mas realmente viável mesmo hoje.

II. O Efeito do Motu Proprio

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14. Excelência, o Senhor acredita que o Motu Proprio, apesar de suas deficiências, é um passo a favor da restauração da Tradição?

É um passo de capital importância. Poderia até chamar de um passo essencial, mesmo que até agora praticamente não tenha tido efeito, ou muito pouco, já que existe uma oposição ferrenha por parte dos bispos. A nível jurídico, o fato de ter reconhecido que a antiga lei – ou seja, a lei da Missa tradicional – nunca houvera sido abrogada, é um passo capital para voltar a conceder à Tradição o lugar que lhe é devido.

15. Concretamente, o Senhor viu no mundo mudanças importantes por parte dos bispos em relação à Missa tradicional desde o Motu Proprio?

Não. Aqui e alí alguns obedecem ao Papa, mas não são muitos.

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16. E os sacerdotes?

Sim, vejo grande interesse por parte deles, mas muitos deles são perseguidos. É necessário uma coragem extraordinária para simplesmente tentar aplicar o Motu Proprio, tal como foi publicado. Sim, há sacerdotes, cada vez mais, sobretudo nas jovens gerações, que se interessam pela Missa tradicional. É muito consolador.

17. Existem comunidades que resolveram adotar a antiga liturgia?

Talvez existam várias, mas há uma que conhecemos, na Itália, a comunidade dos Franciscanos da Imaculada, que decidiu restaurar a antiga liturgia. O ramo feminino já o fez. Quanto ao ramo dos sacerdotes, que exerce apostolado nas dioceses, nem sempre é fácil.

18. O que aconselha aos fiéis que, desde o Motu Proprio e graças a ele, têm a Missa tradicional mais próxima de seus lares que uma capela da Fraternidade São Pio X?

O que eu aconselho é pedir conselho primeiro aos sacerdotes da Fraternidade, não ir de olhos fechados a qualquer Missa tradicional que seja celebrada próxima a seus lares. A Missa é um tesouro; mas há também uma maneira de rezá-la, e há tudo o que a acompanha: o sermão, a catequese, a forma de administrar os sacramentos… Nem toda Missa tradicional está necessariamente acompanhada pelas devidas condições que produzem todos os seus frutos e que protegem as almas dos perigos da crise. Assim, pois, deixem-se aconselhar antes pelos sacerdotes da Fraternidade.

19. A liturgia não é o crucial da crise da Igreja. O Senhor acredita que a restauração da Liturgia (tradicional) será sempre o começo de um retorno à integridade da fé?

A Missa tradicional tem um poder de graça absolutamente extraordinário. Isso se vê na prática apostólica, se vê sobretudo nos sacerdotes que voltam a ela: ela é verdadeiramente o antídoto para a crise. É realmente muito poderosa, em todos os níveis, tanto a nível da graça como a nível da fé. Acredito que se fosse concedida uma verdadeira liberdade à antiga Missa, a Igreja poderia sair rapidamente dessa crise, ainda que isso, no entanto, levasse vários anos!

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20. Há muito tempo o Papa fala da “reforma da reforma”. O Senhor acredita que ele espera tentar reconciliar a liturgia antiga com a doutrina do Vaticano II numa reforma que seria um meio termo?

Veja, no momento não sabemos nada! Sabemos que ele quer esta reforma mas, que amplitude terá? Eventualmente será tudo fundido, a “forma ordinária” com a “extrordinária”? Não é isso o que encontramos no Motu Proprio que pede que sejam bem distinguidas as duas “formas”, sem misturá-las: isso é muito sábio. Teremos que esperar e observar; neste momento fiquemos com o que dizem as autoridades romanas.

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III. Assis

21. O Santo Padre anunciou a próxima reunião de Assis. O Senhor reagiu no sermão dado na igreja de  Saint Nicolas du Chardonnet em 9 de fevereiro de 2011 e decidiu se opor a isso como o fez Dom Marcel Lefebvre à época do primeiro encontro, há 25 anos. O Senhor pretende intervir junto ao Santo Padre?

Se me for oferecida essa ocasião e se puder dar algum fruto, por que não?

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Arcebispo Lefebvre (esquerda) com Dom Antônio de Castro Mayer (direita)

22. É tão grave assim convocar as outras religiões para a paz?

Sob um aspecto – e somente sobre este aspecto – não. Convocar as outras religiões para trabalhar pela paz – uma paz civil -, não há problema; mas nesse caso não é a nível de religião, mas civil. Não se trata de um ato religioso mas simplesmente um ato de uma entidade religiosa que trabalha civilmente a favor da paz. Aí o objetivo não é sequer a paz religiosa senão que a paz civil entre os homens.

Por outro lado, é um absurdo pedir que sejam realizados atos religiosos na ocasião desta reunião, já que entre as religiões existe uma diferença radical. Neste contexto é difícil entender o que significa aspirar à paz, quando não se está de acordo sobre a natureza de Deus, sobre o significado que se dá à divindade. De fato, pergunta-se verdadeiramente como se poderia chegar a algum resultado sério.

23. Pode-se pensar que o Santo Padre não entende o ecumenismo da mesma forma que João Paulo II? Não se trata de uma diferença de grau no mesmo erro?

Não, me parece que ele entende da mesma forma. De fato ele disse “não podemos rezar juntos”. Mas teríamos que ver exatamente o que ele quer dizer com isso. Em 2003 deu uma explicação no livro “A fé, a verdade, a tolerância, a Cristandade e as religiões do mundo” (Friburgo, 2003). Eu acho que ele tenta forçar a barra[1]. Tenta justificar Assis. Como será possível isso em Outubro?

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Capa da edição americana do livro

24. Alguns intelectuais italianos manifestaram publicamente sua inquietude pelas consequências de tal encontro. O Senhor conhece alguma outra reação no seio da Igreja?

Tem razão. Nós vemos alguma outra reação no seio da Igreja? Nos meios oficiais, não. Entre nós sim, evidentemente.

25. Há alguma reação das congregações Ecclesia Dei?

Nenhuma que eu saiba.

26. Como o Senhor explica o fato de que o Santo Padre, que denuncia o relativismo em matéria religiosa e que até se recusou a participar do encontro de Assis em 1986, possa querer comemorá-la repetindo-a?

Para mim é um mistério. Eu não sei. Acredito que talvez sofra pressões e influências. Provavelmente esteja comovido pelos atentados anticristãos, pela violência anticatólica, pelas bombas no Egito, no Iraque. Não surpreenderia que talvez fosse esse o motivo que o tenha levado a realizar esse novo Assis, o que não quer dizer que seja um ato de desespero… Ele tenta fazer algo… Não me surpreenderia se fosse assim, mas não sei mais nada sobre isso.

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27. Existe alguma possibilidade de que o Santo Padre renuncie a este ato interreligioso?

Não sabemos muito bem como ele será organizado. Teremos que ver. Suponho que tentarão fazer o mínimo já que – reitero – para o Papa atual é impossível que grupos diferentes possam rezar juntos quando não reconhecem o mesmo Deus; por isso, novamente, queremos saber o que poderiam fazer todos juntos!

28. O que devem fazer os católicos diante deste anúncio de um Assis III?

Rezar para que Deus intervenha de uma forma ou de outra para que não aconteça, e de qualquer maneira, começar a reparar desde já.

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[1] Complicar desnecessária ou superfluamente uma coisa. Original em inglês: “I find that he splits hairs“, traduzido oficialmente para o espanhol como “A mi modo de ver quiere ‘rizar el rizo’ “.

Ver a segunda parte da entrevista

Retirado e traduzido de sspx.org e fsspx-sudamerica.org