França: os Bispos instruem-se no Diálogo Inter-religioso

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Depois de Nantes, Estrasburgo e Albi, a Comissão Doutrinal da Conferência dos Bispos de França (CEF) organizou a sessão anual de formação em Lión, de 14 a 16 de Fevereiro, sobre o tema Fé Cristá em Deus e Diálogo Inter-religioso: que Teologia do Diálogo? «Se o assunto é sensível, as questões não devem impedir o diálogo, mas, pelo contrário, permitir recuar para o intensificar», anunciava o comunicado da CEF.

«Estamos contentess por não termos de votar textos, nem decisões a tomar», declarou Dom Pierre-Marie Carré, Arcebispo Coadjutor de Mompilher e Presidente da Comissão Doutrinal da Conferência Episcopal. Os Bispos quiseram abordar este assunto, «por tanto ter mudado o conceito». Com efeito, diz o prelado à KTO, «passou o tempo da ingenuidade, e agora, num contexto marcado por tensões, isto torna o diálogo não somente mais necessário, mas, ao mesmo tempo, mostra que somos verdadeiramente diferentes. Diálogo não é apenas dizer o que temos em comum, é também podermos dizer uns aos outros o que vivemos em particular. O tema da sessão também insiste na Fé Cristã: como, em diálogo com os outros, compreendemos melhor a originalidade da nossa Fé Cristã».

Uns cinquenta bispos, ou seja, metade do episcopado francês, participaram na sessão, no decorrer da qual intervieram Dom Michel Santier, Bispo de Créteil e Presidente do Conselho para as Relações Inter-religiosas e as Novas Correntes Religiosas, sobre o trabalho do conselho e as relações inter-religiosas da Igreja Católica em França; o Padre Michel Quesnel, oratoriano, biblista, Reitor da Universidade Católica de Lión, sobre o tema: Confrontado com os Deuses Pagãos, como fala Paulo de Deus?; o Padre Michel Fédou, jesuíta, Professor de Patrística e de Teologia Dogmática no Centre Sèvres de Paris, sobre a Fé Cristã em Deus no mundo da antiguidade e no contexto das relações com outros crentes; o Padre François Bousquet, teólogo e historiador das religiões, Vice-reitor de Pesquisa e Diretor da Escola Doutoral do Instituto Católico de Paris, sobre os temas: Que Deus, que Homem? Fé Cristã em Deus perante o pluralismo das religiões?; O Padre Jean-Marc Aveline, teólogo, Vigário Geral da Diocese de Marselha e Diretor do Instituto Católico do Mediterrâneo, sobre a teologia do diálogo inter-religioso hoje.

Muitos Bispos partilham a perplexidade de muitos Católicos perante a questão analizada pelo Padre Jean-Marc Aveline. Querem «compreender o que fundamenta o compromisso da Igreja no diálogo inter-religioso». Com efeito, «os bispos são cada vez mais solicitados pelos poderes públicos em questões ligadas à paz social. Ao mesmo tempo, sentem no interior do povo Cristão interrogações profundas, as quais não podem deixar de ter em conta».

No fim do tempo de conversa com os Bispos, o Cardeal Philippe Barbarin, Arcebispo de Lión, apresentou o imã Azzedine Gaci, Presidente do Conselho Regional do Culto Muçulmano Rones-Alpes, que testemunhou motivações deste diálogo: «fazêmo-lo por nós próprios, muçulmanos e Cristãos, mas fazêmo-lo também pela França».

Dom Georges Pontier, Arcebispo de Marselha, interrogou-se sobre a maneira de anunciar o Evangelho, de acolher as festas muçulmanas, sobre o que se pode aceitar diante da presença importante de alunos de confissão muçulmana nos esatabelecimentos escolares Católicos. «Até 80% em certas escolas dos bairros populares», acrescentou.

As relações com a comunidade muçulmana são, por vezes, conflituosas, especialmente «nos arrabaldes, com a influência crescente de um islã de corrente salafista», sublinhou Dom Michel Santier. A consequência, é que os responsáveis muçulmanos comprometidos no diálogo tomam, então, distância.

Por outro lado, o diálogo inter-religioso progride «até na bacia mineira», explicou Dom Benoit Rivière, Bispo de Autun. «Quase se me pediria para resistir ao islã. A tudo isso, reajo negativamente», mas, sobretudo, «procuro uma formação Cristã mais profunda». Para o Bispo de Autun, o diálogo inter-religioso é uma experiência espiritual, exigindo «o aprofundamento da nossa relação com Cristo». «Cada vez mais me pedem formações, conferências, lugares de encontro entre Cristãos e muçulmanos», confessou. Dom Michel Santier lembrou que «se queremos que o diálogo inter-religiso dê frutos, é necessário que as partes estejam fortemente enraizadas na sua fé».

Quando da Assembleia Plenária dos Bispos de França em Lourdes, em Novembro de 2008, uma nota de 9 páginas intitulada Por quê a Igreja Católica continua a comprometer-se no diálogo inter-religioso? foi apresentada por Dom Santier. Dividida em três partes – fundamentos do diálogo, objetivos e frutos do diálogo inter-religioso, condições do diálogo – este documento, depois de recordar os textos fundadores a partir do Vaticano II, sublinhava que «o fim do ecumenismo é restaurar a unidade entre Cristãos», enquanto o diálogo inter-religioso se destina a «favorecer a compreensão e a colaboração entre comunidades de religiões diferentes, para ser possível viverem em conjunto e em paz». E explicou que o diálogo inter-religioso podia «jorrar positivamente no diálogo ecumênico»: dando assim a possibilidade de «conduzir os Cristãos a relativizar algumas das suas divisões» e, também, «a novo aprofundamento da Fé que lhes é comum».

Entretanto, muitos Cristãos não percebem a importância deste diálogo, lamentavam os autores dessa nota, manifestando verdadeiros temores e não somente da parte das correntes tradicionalistas. «Alguns temen que o compromisso da Igreja Católica no diálogo inter-religioso contribua para a confusão dos espíritos e conduza, finalmente, a que todas as religiões se equivalem». Em resposta, o texto pormenoriza que o diálogo não significa, necessariamente, ‘aliança’ ou ‘acordo’, mas implica que cada um possa afirmar aquilo em que crê – sempre que seja no respeito do outro – e que «se não tem por fim converter os outros, não dispensa, por isso, o anúncio do Evangelho». (sic)

Fontes : apic/cef/LaCroix/KTO – DICI n° 231 du 05/03/11

Ler em DICI n°229 de 5 de Fevereiro 2011, «25 ans contre l’es­prit d’Assise, au nom de la continuité du magistère jusqu’à Vatican II».