Fraternidade São Pedro – sob a maquiagem…

Carta do Superior do Distrito dos EUA (FSSPX) sobre a Fraternidade São Pedro

Agosto de 2000


Gostaria de aproveitar a oportunidade para mantê-los a par do resultado do Capítulo Geral da Fraternidade São Pedro ocorrido mês passado. Se eu faço isso, não é para exultar sobre a sua tragédia, que certamente é uma tragédia para a Igreja, nem para dizer “eu avisei”, mas simplesmente para aprender a lição que sua triste experiência tem a ensinar a todos os católicos.

Em abril, um cardeal enérgico e relativamente jovem, foi nomeado para chefiar a Comissão Ecclesia Dei, Cardeal Dario Castillion Hoyos, da Colômbia. A razão para a sua nomeação decorre da ação decisiva que tomou sobre o governo da Fraternidade São Pedro, ação que deixa bem claro a atitude que a Roma modernista terá para qualquer comunidade que aspire a algo como a vida e a liturgia tradicionais.

Em uma carta dirigida ao Capítulo Geral, ele decidiu seguir o velho princípio do “dividir para conquistar”. Ele não deixou de aproveitar o desacordo dentro da organização com relação ao compromisso firmado pelos membros fevereiro passado de concelebrar a Missa Nova, como Roma solicitara, mas apenas uma vez por ano, na Quinta-feira Santa. Lembrando-os de que se eles querem ser lógicos consigo mesmos e aceitar a legitimidade da Missa Nova, então nenhum superior pode proibir um padre de celebrar essa missa “que está oficialmente em vigor na Igreja Latina“. “Uma limitação do exercício deste direito” à Missa Nova “não pode ser infligida a seminaristas ou ser motivo para recusar-lhes a ordenação“. Claro, ele está completamente errado, porque seu princípio está errado. A Missa Nova NÃO é legítima porque enfraquece e destrói a Fé, e não expressa adequadamente os dogmas da Igreja sobre o Santo Sacrifício da Missa. Por conseguinte, ela não pode ser o rito oficial em vigor na Igreja Latina, mas é um compromisso com o protestantismo e com o modernismo que não têm qualquer direito. Não há nada legal em um rito de Missa que não faça alcançar o fim último da lei da Igreja que é a salvação das almas.

O Cardeal Presidente da Comissão, em seguida, passou a explicar aos membros da Fraternidade porque ele estava obrigando a nomeação de um novo Superior Geral, e novos reitores e professores para os Seminários, todos de tendência liberal, com uma mente disposta a aceitar e promover a Missa Nova e estar integrada à Igreja pós-conciliar. Em relação clara às tendências tradicionalistas dos membros mais jovens da Fraternidade, ele tinha isto a dizer:

“Em particular, vocês devem evitar e combater certo espírito de revolta contra a Igreja de hoje, um espírito que facilmente encontra adeptos entre os jovens estudantes, que como todos os jovens, são atraídos para posições extremas e rigorosas… Não se pode viver na Igreja e ao mesmo tempo, distanciar-se dela”.

Ele então promete olhar os membros da Fraternidade mais de perto do que no passado, para que nenhum grupo seja formado ou pareceres expressos que sejam diferentes daqueles impostos por Roma, através do Superior Geral fantoche, Pe. Arnaud Devillers.

Em 1988, Dom Lefebvre tinha visto claramente a política mal disfarçada das autoridades romanas neomodernistas. Em sua carta de 24 de maio ao Cardeal Ratzinger, ele havia afirmado o seguinte:

“Após reflexão, parece claro que o objetivo desses diálogos é reabsorver-nos dentro da Igreja Conciliar, a única Igreja a que o senhor faz alusão durante estas reuniões. Esperavamos que o senhor nos desse os meios para continuar desenvolvendo os trabalhos da Tradição, sobretudo, dando-nos alguns coadjutores, pelo menos três, e dando uma maioria para Tradição na Comissão romana. Não estamos satisfeitos sobre estes dois pontos, por julgarmos necessário manter nossos trabalhos fora de qualquer influência progressista e conciliar… [Nota 1]”.

É o mínimo que ele poderia ter dito. A Fraternidade tem provado que Roma não tinha nenhuma intenção de conceder verdadeiros bispos tradicionais, livres da hierarquia modernista. Através da Comissão Ecclesia Dei, provou-se que não só não seria maioria, mas na verdade nem ao menos um católico tradicional trabalharia para essa comissão. Finalmente, o Cardeal Castrillion Hoyos tornou perfeitamente claro que sua missão é a de reabsorver aqueles que amam a Missa tradicional de volta à Igreja pós-conciliar.

Ele é bastante explícito sobre isso em seu discurso, que termina com uma “reflexão pessoal”. Ele explicou que a questão de rito é apenas secundária, e não central para a Igreja ou para a unidade da fé. Sabemos que isso é um absurdo completo, pois “lex orandi, lex credendi“, ou seja, que nós rezamos como acreditamos e acreditamos como rezamos, e que, deformando a maneira pela qual os católicos rezam, os modernistas vão acabar por destruir a Fé. O cardeal explica:

“O rito não é a própria celebração. É apenas uma das suas formas possíveis… O papel de vocês não é de modificar o estado de fato (de que a Missa Nova é o rito comum) ou para falar deste rito (Missa Nova) como se fosse de menor valor, mas para ajudar aqueles fiéis que estão ligados ao rito antigo a sentirem-se mais confortáveis na Igreja. “

Se isto não é uma confissão da sua política de reabsorção, então o que seria? Ele continua:

“Vocês não devem dar prioridade à forma de liturgia que vocês têm o privilégio de celebrar. É muito mais apropriado ver a contribuição particular de seu instituto ao trabalho comum da Igreja.”

Ou seja, eles devem aceitar que a missa tradicional não é melhor que a missa nova! O Cardeal conclui com uma consideração interessante. Não há lugar na Igreja, ele explica, para a contradição, deixando a entender que aqueles que recusam a Missa Nova estão em contradição com a Igreja moderna. Aqui ele tem toda a razão. Quantas vezes dissemos a mesma coisa! Entretanto, modernista como ele é, ele exige que a contribuição da Fraternidade não contradiga a Missa Nova e o novo espírito, e ele continua, “fazendo isso, vocês contribuirão ao mesmo tempo para a Nova Evangelização…”! Claramente, então, aqueles que permanecem na Fraternidade vão contribuir para a revolução pós-conciliar. Será que nunca lhes ocorreu que as contradições não vêm da missa tradicional, nem dos dogmas em que os católicos sempre acreditaram, mas da infiltração na Igreja moderna de ideais seculares, liberais e humanistas baseados nos direitos do homem, em contradição com os direitos de Deus?

Aqui, novamente, eu não posso deixar de lembrar a declaração maravilhosamente lúcida de nosso fundador ao Papa João Paulo II em 2 de junho de 1988:

“É para manter a Fé de nosso batismo íntegra que tivemos de resistir ao espírito do Vaticano II e às reformas inspiradas por ele. O falso ecumenismo, que está na origem de todas as inovações na liturgia promovidas pelo Concílio, na nova relação entre a Igreja e o mundo, na concepção da própria Igreja, está levando a Igreja a sua ruína, e os católicos à apostasia.

Sendo radicalmente contrários à destruição de nossa Fé e estando determinados a permanecer com a doutrina tradicional e a disciplina da Igreja, especialmente no que diz respeito à formação dos sacerdotes e à vida religiosa, nos encontramos na necessidade absoluta de ter autoridades eclesiásticas que abraçam nossas preocupações e que nos ajudarão a proteger-nos do espírito do Concílio Vaticano II e do espírito de Assis.

É por isso que estamos pedindo que vários bispos escolhidos dentro da Tradição católica sejam a maioria dos membros da projetada Comissão romana para a Tradição, a fim de nos proteger contra todos os compromissos.

Dada a recusa de considerar os nossos pedidos, e sendo evidente que o objetivo desta reconciliação não é o mesmo aos olhos da Santa Sé, como é aos nossos, nós acreditamos que é preferível esperar por um momento mais propício para o retorno de Roma à Tradição… [Nota 2]”

Quão certo Dom Lefebvre estava, e quão triste é ver que a situação em Roma não melhorou nos últimos 12 anos. Ela piorou consideravelmente. Junto com a exacerbação diabólica do ecumenismo durante o Jubileu, desde o acordo com os luteranos até ao pedido de desculpas público pela Igreja! Até à promoção de não-católicos a “testemunhas da fé”, vai a determinação de esmagar, pelo abuso de autoridade, toda a oposição tradicional. Nossa confiança está só e inteiramente nas palavras de Nosso Senhor de que Ele estará com Sua Igreja todos os dias, até o fim do mundo, e de que no final, O Imaculado Coração de Nossa Senhora triunfará.

Deixemos que os princípios de nossa luta diária pela Fé, pela missa de todos os tempos, por uma vida católica de oração, penitência e submissão ao Magistério da Igreja estejam sempre diante dos nossos olhos. Esta é a única garantia de nossa unidade e de harmonia, como também de nossa santidade. Que Deus então permita que nossa perseverança flua adiante até à clarividência que é dada pelo dom do Conselho, que alerta para os enganos do diabo.

Fielmente nos Corações Sagrado e Imaculado,

Rev. Pe. Peter R. Scott

Notas de Rodapé:

1. LAISNEY, Fr. François; Archbishop Lefebvre and the Vatican, Angelus Press, p. 99.

2. Ibid. p. 108.

Fonte: Site Oficial da FSSPX – Distrito dos EUA