Liberdade Religiosa | Parte IV: A gestação do espírito americano

As colônias norte-americanas herdaram da Inglaterra seu profundo conservadorismo político, isto é, o desejo de estabilidade e sua oposição visceral à mudança. Mesmo após a independência, a constituição norte-americana continuou sendo tributária dos ideais do iluminismo inglês e das estruturas políticas do passado britânico.

O iluminismo não só constituiu um vasto movimento cultural, mas também “uma nova forma de crer, segundo a qual os homens buscaram acomodar a religião ao mundo moderno”.[i] Na América do Norte o iluminismo dos “Pais fundadores” representou uma amálgama da religião cristã com o espírito secularista norte-americano que estava em desenvolvimento desde a época de Plymouth Rock[ii], um espírito de democracia, de igualdade e rejeição dos privilégios, um espírito de independência, individualismo e liberdade.

Os fundadores da América do Norte anglo-saxônica, os “Pais peregrinos”, eram puritanos que fugiam da perseguição  quando, em sua perspectiva, a Inglaterra se apartou do verdadeiro espírito da Reforma.  Pesaram que haveria somente um caminho para que os verdadeiros crentes pudessem sobreviver: fugir para uma terra virgem, na qual pudessem edificar sua “cidade em cima do monte” uma “Nova Jerusalém”, um lugar seguro para aqueles que desejavam viver retamente. Essa terra era a Nova Inglaterra, e mais, concretamente, a colônia da Bahia de Massachusets.

Como crença religiosa, o puritanismo pregava a depravação completa do homem depois do pecado original, de tal maneira que todas as suas obras e realizações são essencial e irremediavelmente más. A única esperança para a salvação do puritano ficava em um ato pessoal de fé na benevolência de Deus de acolhê-lo nos céus por toda a eternidade, não obstante sua maldade intrínseca.

Convencidos de que Deus predestina os homens ao Céu e ao Inferno, e que nenhuma ação humana pode mudar o resultado do seu destino, interpretou-se que um sinal de sua predestinação à glória estava dado por sua própria fidelidade à palavra e vontade de Deus. Na histérica exaltação que lhes fez conhecer que seu comportamento os havia separado da “Massa dos condenados”, só teve desprezo para com toda alegria sensível e o que qualificava como “vaidade do mundo, quer dizer, a arte, a literatura, as modas, os jogos, etc.

Movidos por esse “sombrio entusiasmo”, [iii] os puritanos estabeleceram na América do Norte um Estado confessional, reproduzindo bastante o modelo medieval da cristandade na concepção da relação Igreja-Estado, e na afirmação da independência e supremacia do poder espiritual.  Contudo, essas alegações teocráticas não eram hierárquicas e impessoais como na Igreja medieval; baseavam-se em um profundo individualismo, resultante da certeza da eleição e do dever do indivíduo de cooperar na realização da intenção divina frente a um mundo hostil e pecador.

Assim, pois, o puritanismo era aristocrático e democrático ao mesmo tempo: Aristocrático, na medida em que os “santos” eram uma seleta minoria escolhida dentre a massa da humanidade caída, e infinitamente superiores aos filhos deste mundo; mas democrática, já que cada um era diretamente responsável ante Deus, que “não faz acepção de pessoas”.

A própria desumanidade disfarçada do puritanismo, proposta como “super-naturalismo” e imposta politicamente na Nova Inglaterra, produziu um efeito contrário ao esperado: em seu horror, afastou os homens de Deus. O conservadorismo inglês, profundamente arraigado, impediu inconscientemente aos puritanos reconhecerem esse efeito explicitamente.

Em mudança, seguiram apelando a Deus, e empregando terminologia cristã ainda quando apresentavam idéias não cristãs, e desse modo ocultaram – ou não deram-se conta – sua própria apostasia. Desta maneira, o puritanismo foi convertido na fé secular da América do Norte.

Dado que os homens estão fundamentalmente sozinhos em seu contado e sua resposta a Deus, no plano divino não há espaço para a sociedade, suas instituições e autoridades, especialmente estando todas as obras do homem radicalmente viciadas. O puritanismo terminou necessariamente pregando um individualismo “atomizante”. O indivíduo deve confiar só em si mesmo para conduzir sua própria vida e alcançar seus objetivos.  No estado atual da humanidade talvez deveria existir uma “igreja” e certa forma de organização social por razões práticas e identificatórias, mas estes são somente instrumentos de um agregamento democrático de crentes e totalmente independentes. As instituições seculares representam  uma interferência em sua vida; como tais, são apenas toleradas, e todo trato com elas deve ser evitado como se fosse uma praga, exceto nos termos fixados por cada um.

A dicotomia entre um Deus perfeito e um homem absolutamente corrompido pois em questão a verdade e o valor da Encarnação e da Redenção, e colocou Deus definitivamente mais além do alcance humano. A confiança transcendental em Deus foi substituída por uma imóvel confiança na capacidade do homem para conseguir seus próprios fins, e estes fins, destituídos de transcendência, foram necessariamente reduzidos por uma visão “intramundana”, essencialmente, a prosperidade material.

O abismo existente entre o criador e a criatura – que eles aprofundaram – fez com que os puritanos se relacionassem com o mundo em um sentido novo: pelo lado puramente terreno da natureza.  Deus criou o mundo livre e gratuitamente, totalmente distinto de sua própria divindade infinita.

Portanto, esse mundo agora pode ser tomado e analisado, não conforme a participação que este havia atribuído em padrões divinos e estáticos, mas sim de acordo com seus próprios e distintos processos dinâmicos materiais, independentemente de referências diretas a Deus e sua realidade transcendental. Em uma reação pendular, uma vez que a natureza foi arrancada da tutela de Deus, o medo frente a ela e ansiedades de transcendência conduziram ao florescimento da bruxaria.

 

Os Puritanos

Esta parte radical do protestantismo teve origem na Inglaterra Pós-Reforma, durante o reinado de Elisabete I.

Crenças e Características

* O princípio central do puritanismo era a autoridade suprema de Deus sobre assuntos humanos; para alguns, tal autoridade se expressava pelo grau de predestinação ensinado por João Calvino, embora nem todos compartilhassem dessa visão.

* Os puritanos enfatizavam que o indivíduo devia ser convertido pela graça de Deus. Cada pessoa, com que Deus demonstrava misericórdia, devia compreender a sua própria falta de valor e confiar que o perdão que está em Cristo lhe havia sido dado, e assim, por gratidão, deveria seguir uma vida humilde e obediente.

* Ênfase no estudo privado da Bíblia.

* Desejo de que todos alcancem educação e esclarecimento (Especialmente para que todos possam ler a Bíblia por si mesmos).

* Propiciavam o sacerdócio de todos os crentes.

* Grande simplicidade na adoração, traduzida na exclusão das vestes sacerdotais, imagens, velas, etc.·.

* Não comemoravam feriados tradicionais, sustentando que violavam os princípios regulares de adoração.

* Guardar obrigatoriamente o dia da Ressurreição de Jesus, o Domingo.·.

* Alguns aprovavam a hierarquia da Igreja, enquanto outros procuravam reformar as igrejas episcopais ao modelo presbiteriano.

Alguns puritanos separatistas eram presbiterianos, mas em sua maioria eram congregacionalistas.



[i] Dolan, 26.

[ii] Quer dizer, desde o desembarque dos “Pais fundadores” em 1620 em Plymouth (Massachusets) [Nota do tradutor da versão em espanhol]

[iii] Cristiani, 1358.

 

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