Os Limbos, vítimas da nova teologia da salvação universal

Rev. Pe. Patrick de La Rocque, FSSPX

Sumário

I – LEMBRANÇAS DA DOUTRINA CATÓLICA

– Ensinamento da Igreja sobre o pecado original

– O ensinamento da Igreja sobre a necessidade do Batismo

– Situação das crianças mortas sem Batismo

II – DOCUMENTO DA COMISSÃO TEOLÓGICA INTERNACIONAL

– Pressuposto fundamental: falsa concepção da Redenção universal.

– O pecado original esquecido

– O Magistério e a Tradição relativizados

– A Bíblia reinterpretada

– Hierarquia das verdades e mudança de perspectiva

– Um antigo “lugar-comum”: «perscrutar os sinais dos tempos»

– Proposições pelo menos inventivas

CONCLUSÃO

O Sr. Padre Patrick de La Rocque proferiu, recentemente, uma conferência sobre o documento da Comissão Teológica Internacional, «Esperança de Salvação para as Crianças Mortas sem Batismo». Eis a tradução e a transcrição.

Há uma dúzia de dias, os jornais traziam títulos: A Igreja Católica encerra os Limbos. Assim anunciavam um documento emanado da Comissão Teológica Internacional (CTI), precisamente sobre a questão dos limbos.

Comentando este documento em France Info, o Cardeal Poupard explicava: «O amor de misericórdia de Deus Salvador estende-se a todos, mesmo às crianças mortas sem batismo». Por seu lado, a agência romana de imprensa Zenit, mantida pelos Legionários de Cristo, comentava: «Um documento de 41 páginas intitulado Esperança de Salvação para as Crianças Mortas sem Batismo, preparado pela Comissão Teológica Internacional e aprovado por Bento XVI, confirma que as crianças que morrem sem batismo estão destinadas ao Paraíso».

Antes mesmo de abordar o teor do texto, comecemos por sublinhar a desinformação que o rodeia. Desde logo, é falso dizer que, através desse documento, é a Igreja que fala ou se pronuncia. Com efeito, a CTI nada tem de órgão do Magistério. Instituída pelo Papa Paulo VI em 1969, não é senão um grupo de teólogos encarregado de aconselhar o Papa e a Congregação para a Doutrina da Fé. Trata-se, assim, de um instrumento de pesquisa teológica. A pedido de João Paulo II, uma subcomissão deste grupo trabalhava, há vários anos, sobre o tema dos limbos, e o texto em questão não passa de documento de síntese dessa subcomissão. Em 19 de Abril último, o Cardeal Levada apresentou o dito documento a Bento XVI, que deu, verbalmente, permissão de publicação. Se bem que tal reconhecimento não deixe de ter valor, afirmar, como a agência Zenit, que Bento XVI assinou o documento, significa dar-lhe, falsamente, uma autoridade que não tem; é desinformar, é querer impor a todos o que, de do ponto de vista jurídico, não passa de uma tese de escola.

Não é menos verdade que o conteúdo do documento põe em relevo muitos problemas. A sua tese maior está resumida na conclusão: «Numerosos fatores dão sérias razões teológicas e litúrgicas de esperança de que as crianças mortas sem batismo serão salvas e gozarão da visão beatífica.»

Para medir seu alcance, é preciso saber o que a Igreja diz – ou não diz – dos limbos, concretizar igualmente quanto esta questão toca de perto diversas verdades da nossa fé: a questão do pecado original e suas conseqüências, por um lado; por outro, a necessidade do batismo.

I – LEMBRANÇAS DA DOUTRINA CATÓLICA

Nestes três pontos – pecado original, batismo, limbos – começaremos por recordar a doutrina católica. Nesta, importa distinguir o que a Igreja declara ser de fé, o que apresenta como doutrina comum e, finalmente, o que deixa à livre investigação dos teólogos. Recusar uma afirmação do primeiro tipo, significaria, com efeito, a perda da fé católica; aventurar-se, sem razão grave, fora da doutrina comum, seria perigoso para a fé; por fim, investigar o campo deixado à livre especulação teológica, não pode fazer-se sem conhecimentos profundos nem humildade confirmada.

Pois que se trata de falar de Cristo Salvador, «que veio buscar o que andava perdido», importa, em primeiro lugar, determinar a natureza do nosso mal, que reclama um salvador. Começaremos, portanto, por abordar a doutrina católica do pecado original, porque esta ordem se impõe do ponto de vista lógico. Descoberta a doença, importa descobrir o remédio e o seu modo de medicação. Assim, abordaremos o batismo e sua necessidade, pois é esse o primeiro meio pelo qual a Redenção nos é aplicada. Recordados estes pontos, poderemos aplicar estes dados à questão das crianças mortas sem batismo e, por isso mesmo, à questão dos limbos.

Ensinamento da Igreja sobre o pecado original

A fé católica – e estes ensinamentos derivam muito da fé – ensina que todo o homem nasce com a mancha do pecado original. As duas exceções são a Santíssima Virgem, pelo privilégio da sua Imaculada Conceição e, certamente, Nosso Senhor. O Concílio de Trento afirma que o pecado original é «transmitido por propagação hereditária e não por imitação, é próprio de cada um». Todo o homem, pelo fato de descender de Adão, está marcado por esta falta original. Qual é essa mancha? Trata-se de um estado privativo, pelo qual falta ao homem a amizade sobrenatural de Deus. Ligado a isto, existe no homem uma disposição para o mal, uma disposição para a concupiscência. Isto é o que ensina a Igreja quando afirma que o homem nasce com o pecado original. Não se trata de dizer que todo o homem é pessoalmente culpado de um pecado que seria, então, pessoal. Não! O pecado original não é um ato pessoal de cada homem que o tornaria, por isso mesmo, responsável. Mas um estado herdado de Adão e no qual todo o homem se encontra, pelo próprio fato de nascer de Adão. Assim fala Inocêncio III: «É preciso distinguir que há um duplo pecado: a saber, o pecado original, e o pecado atual, o original que se contrai sem consentimento, e o atual que é cometido com consentimento».

Muito antes dele, em 530, o II Concílio de Orange explica – e condena: «Se alguém afirma que a prevaricação de Adão só o prejudicou a ele e não à sua descendência, ou se declara que é só a morte corporal, pena do pecado, e não o pecado, morte da alma, que por um único homem passou para todo o gênero humano, atribui uma injustiça a Deus; com efeito, contradiz o Apóstolo que diz: “por um único homem entrou o pecado no mundo, e assim a morte passou para todos os homens, todos tendo pecado nele”.» Este ensinamento será retomado pelo Concílio de Trento, que fulmina com anátema a afirmação seguinte: «Se alguém afirma que a prevaricação de Adão só a ele lesou e não a sua descendência, ou se declara que é somente a morte corporal, pena do pecado, e não o pecado, morte da alma, que por um único homem passou para todo o gênero humano, atribui uma injustiça a Deus; com efeito, contradiz o Apóstolo que diz: “por um único homem entrou o pecado no mundo, e assim a morte passou para todos os homens, todos tendo pecado com ele”.» Quem nega uma verdade deste ensinamento sobre o pecado original é anátema, já não tem a fé católica. Tal é a doutrina da Igreja Católica respeitante ao pecado original.

A esta doutrina está ligado um segundo ensinamento que não é, diretamente, de fé, mas uma afirmação comum sustentada pela Igreja, pelos Padres da Igreja e pelos teólogos, e que seria temerário negligenciar. É resumida por Inocêncio III: «A pena do pecado original é a privação da visão de Deus, mas a pena do pecado atual é o suplício da geena eterna.» As duas penas específicas do inferno são aqui distinguidas: a pena do dano, que é a privação da visão beatífica, e a pena do sentido, que constitui o suplício e os tormentos corporais dos réprobos. A sentença comum declara que estas penas do sentido não são o castigo senão dos pecados atuais, e não do pecado original. Este elemento será, de imediato, importante para nós.

O ensinamento da Igreja sobre a necessidade do Batismo

Venhamos à segunda recordação da doutrina católica de fé, relativa ao batismo. Ninguém pode ser salvo senão pelo Sangue de Jesus Cristo. Nosso Senhor é o único Salvador, não há salvação fora d’Ele; o Novo Testamento repete-o à porfia. Este ensinamento é retomado pelos concílios, em particular pelo Concílio de Arles, França, em 483, onde se tratava de fazer regressar à fé um padre herético. O Papa deu-lhe a assinar uma profissão de fé na qual é dito: «Afirmo que desde o começo do mundo ninguém foi liberto da seqüência do pecado original senão pela intercessão do Sangue Sagrado». Ninguém pode ser salvo sem a efusão do Sangue de Nosso Senhor. E o Concílio de Trento retomará este ensinamento em sentido inverso, num cânone que condena: «Se alguém diz que o pecado de Adão é eliminado pelas forças da natureza humana ou por outro remédio que não o mérito do único Mediador Nosso Senhor Jesus Cristo, seja anátema». Por conseguinte, não há salvação fora de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Em conseqüência, o Sangue Sagrado não pode salvar-nos senão na medida em que nos é aplicado. O simples fato de que Cristo tenha morrido pelos nossos pecados não basta para salvar automaticamente todos os homens. É preciso ainda que tal fato nos seja aplicado para que sejamos salvos. Sem esta aplicação pessoal do Sangue de Cristo, não podemos ser salvos. Ao ato de Cristo, que morreu por nossa Redenção (Redenção objetiva), é preciso junta outro ato, pelo qual essa Redenção é aplicada aos indivíduos (Redenção subjetiva). Citemos, por exemplo, o Concílio de Quierzy: «não há, não houve e não haverá nenhum homem por quem Cristo não tenha sofrido, se bem que todos, contudo, não sejam resgatados pelo mistério da Paixão. Que todos não sejam resgatados pelo mistério da Sua Paixão não diz respeito nem à grandeza nem à abundância do resgate, mas à parte dos infiéis e daqueles que não crêem de fé que “age pela caridade”; porque o cálix da salvação da humanidade, feito da nossa fraqueza e do poder divino, contém tudo quer é útil a todos; mas se não se bebe dele, não se é curado.»

Qual é o ato pelo qual a Redenção é aplicada aos indivíduos? No seu discurso a Nicodemos, Nosso Senhor é formal: «quem não renasce da água e do Espírito não pode entrar no Reino dos Céus.» Essa aplicação dos frutos da Redenção não se faz, portanto, senão pelo batismo; tal foi revelado diretamente por Jesus Cristo. A Igreja explicou o ensinamento do seu Esposo precisando que existem três espécies de batismo:

O batismo sacramental recebido nos legados batismais; é um ato de Cristo e da Igreja, concedido gratuitamente ao indivíduo, sem que haja mesmo da sua parte um qualquer ato moral, quando o indivíduo é um bebê.

O batismo de desejo: é sempre um ato que associa à Redenção de Cristo. Mas este ato não vem, em primeiro lugar, da Igreja e de Cristo; vem do indivíduo que, pela graça de Deus, se une a Jesus Cristo pela fé e pelo desejo. É o caso do catecúmeno que se prepara para o batismo e começa a reformar a sua vida. Tem o batismo de desejo e já os frutos da graça lhe começam a ser aplicados. O batismo de desejo inclui o desejo do batismo sacramental, pelo menos implicitamente; está, assim, ordenado ao batismo sacramental, e compreendido na palavra de Cristo: «Ninguém que não renasça da água e do Espírito…».

– Finalmente, há o batismo de sangue. O exemplo das primeiras perseguições é conhecido: ao passo que os carrascos davam a morte aos primeiros cristãos, acontecia que se convertiam à vista das virtudes heróicas das suas vítimas. Imediatamente se declarando cristãos, eram logo mortos. Seu sangue era derramado por amor a Cristo e à fé, sendo mártires em sentido estrito, beneficiando com isso do que se chama o batismo de sangue. É o batismo de sangue que beneficiou os Santos Inocentes: foi-lhes dada a morte por ódio direto a Cristo, pelo ódio à fé messiânica.

Assim, há três formas de um mesmo batismo, ordenadas umas às outras, e todas estão contidas nas palavras de Nosso Senhor: «Ninguém que não renasça da água e do Espírito…». Se não há aplicação da Redenção por uma forma ou outra do batismo, não há Reino dos Céus. Tal é o ensinamento da fé católica.

Eis por que o Concílio de Florença, em 1442, declara: «Sobre as crianças, em razão do perigo de morte que pode muitas vezes se encontrar, como não é possível levar-lhes socorro por outro remédio além do sacramento do batismo, pelo qual são arrancados ao domínio do diabo e adotados como filhos de Deus, a Igreja adverte que não se pode diferir o batismo». Notemos a frase importante: «como não é possível levar-lhes socorro por outro remédio além do sacramento do batismo». Como as criancinhas não têm a idade da razão e são, assim, incapazes de atos morais pessoais, a única possibilidade que têm de estar unidos a Cristo é de ordem puramente passiva, pela recepção do batismo sacramental. Eis o que a Igreja ensina sobre o batismo e sua necessidade. Este ensinamento é de fé católica. Só o batismo de sangue não atinge a fé católica. Não existe definição dogmática declarando a eficácia do batismo de sangue, mas uma tradição constante da Igreja.

Situação das crianças mortas sem Batismo

Lembrado o ensinamento de fé católica sobre o pecado original e o batismo, podemos agora abordar a questão específica que nos ocupa: a dos limbos e da sorte das crianças mortas sem batismo.

Desde já, é muito importante sublinhá-lo, nunca a Igreja considerou que quem «não renasça da água e do Espírito…» como essas crianças, possa gozar da visão beatífica. Tal consideração foi considerada pelo Papa Inocêncio I como «estúpida ao mais alto ponto» e, sobretudo, oposta à fé da Igreja: «que as criancinhas possam, mesmo sem a graça do batismo, gozar as recompensas da vida eterna, é estúpido ao mais alto ponto. Se, com efeito, não comem a Carne do Filho do Homem e não bebem Seu Sangue, não terão a vida neles. Os que sustentam que essas crianças a terão sem serem renascidas, parecem querer tornar vão o próprio batismo, pregando que elas têm o que a fé professa não lhes poder ser conferido senão pelo batismo.» Sublinhe-se: Inocêncio I compromete aqui a fé da Igreja, num texto que é o eco de toda a Tradição Patrística. Com efeito, nenhum Padre da Igreja considerou que as crianças mortas sem batismo possam gozar da visão beatífica. Todo o debate consistia, ao contrário, em saber qual seria seu inferno. Se os julgarmos pela medida da nossa sensibilidade moderna, os Padres da Igreja e primeiros teólogos podem parecer-nos muito duros…

A querela surgiu com Santo Agostinho, quando se opôs à heresia pelagiana. Como a maioria dos Padres, o Bispo de Hipona pensava inicialmente que, se estas crianças não tinham a visão beatífica, não sofreriam, por isso mesmo, da pena dos sentidos. A sua posição evoluiu perante a heresia pelagiana; supôs, então, uma pena dos sentidos para essas crianças, mas muito mínima. Daí, divergências entre os Padres posteriores. Notemos que o debate não consistia em saber se essas crianças estavam ou não no Céu, mas se estariam no inferno ou num local intermédio, “limítrofe” – etimologicamente, a palavra limbo deriva de limite. Neste domínio, a Igreja nunca hesitou. Numerosos concílios e profissões de fé empregaram termos muito genericamente, que importa saber bem traduzir. Das crianças mortas sem batismo dirão que descem a um lugar inferior (in infernum), o que não se pode traduzir univocamente por “inferno”! Esta palavra indica, simplesmente, um lugar inferior, por oposição ao Céu. Estas crianças não irão para o Céu. Tal profissão de fé será imposta em 1267 pelo Papa Clemente IV ao Imperador Miguel Paleólogo; a seguir, a fórmula será retomada no II Concílio de Lião, em 1274; depois, pelo Concílio de Florença em 1439.

Não se encontrou senão um único teólogo a pensar que, talvez, essas crianças poderiam ir para o Céu. Trata-se do eminente Cajetano, o maior comentador de São Tomás de Aquino. A sua tese de tal modo surpreendeu, que o Concílio de Trento pensou em condená-la, mas absteve-se por respeito ao augusto teólogo. O Papa São Pio V ordenou, simplesmente, que fossem retiradas das obras de Cajetano todas as alusões à sua tese. É a única vez, em dezenove séculos, que foi emitida a hipótese da presença, no Céu, das crianças mortas sem batismo; que reação, a da Igreja! Retenhamos, por agora, que a doutrina da Igreja só afirma uma coisa de maneira negativa: as crianças mortas sem batismo não gozam da visão beatífica. Não vai mais longe nas suas declarações. O resto está confiado aos cuidados dos teólogos; não deriva, portanto, de dados revelados, não obriga a fé católica. Os teólogos procuraram explicar, sobretudo a partir do século XII, o estado exato das crianças mortas sem batismo. Repetirão, em primeiro lugar, que tais crianças não sofrerão a pena dos sentidos, apoiando-se para isso no texto de Inocêncio I já citado; mas numerosos textos patrísticos serão igualmente citados como referência. Dessas crianças, dirá S. Gregório Naziazeno, por exemplo, que «não terão nem glória celeste, nem tormentos. Quem não merece o suplício não é, por esse fato, digno de honra, tal como quem é indigno de honra não merece, por esse fato, o suplício. E o eminente Padre da Igreja explica que uma disposição má ou defeituosa não pode ser punida senão pela privação de uma vantagem qualquer, que é a conseqüência legítima da inaptidão do sujeito – é assim, por exemplo, que a ignorância constitui um obstáculo ao acesso ao sacerdócio. Ora, o pecado original não é senão uma disposição para a concupiscência, disposição que só os adultos fazem atuar. Eis por que, segundo a tese comum sobre os limbos, tais crianças não sofrem a pena dos sentidos.

Segundo ponto afirmado pela teologia: se a privação da visão beatífica é objetivamente uma pena, no sentido em que o destino sobrenatural não é cumprido, as crianças, apesar disso, não sofrem essa pena. Está lá, mas não é um peso para elas. Porquê? Porque só a fé nos revela o nosso destino sobrenatural; é impossível, sem a fé, saber que a graça nos torna aptos à visão beatífica. Numa palavra, só a fé nos desvenda o nosso fim sobrenatural. Ora, estas crianças não têm a fé; não podem, assim, conhecer o destino sobrenatural ao qual não chegam. Mesmo se, efetivamente, esse destino não é neles realizado, as crianças não têm consciência de terem falhado um fim sobrenatural, não sofrerão, portanto, ao invés do condenado pelos seus pecados pessoais. Tendo recebido graças da conversão, este sabe que é feito para Deus, que Deus lhe deu meios de salvação; sabe que é por sua falta que está no inferno, para ele a ausência da visão beatífica é o mais cruel dos suplícios.

Terceiro ponto das precisões trazidas pela teologia: as crianças mortas sem batismo gozarão de uma real felicidade, em todo o seu ser. Citemos S. Tomás de Aquino: «Se bem que separadas de Deus do ponto de vista sobrenatural [não possuem a visão beatífica, não conhecem Deus tal como Deus Se conhece a Si mesmo, é isto a visão beatífica], permanecem unidos a Ele pelos bens naturais que possuem, o que basta para fruir de Deus pelo conhecimento e amor naturais. Têm em Deus a sua vida, a sua luz, a sua alegria, a sua felicidade». Conhecem Deus tal como o homem pode conhecer, e isso é já uma real felicidade. Dito de outro modo, estas crianças tem a sua vida, a sua felicidade, a sua alegria postas em Deus, mas de maneira natural, quer dizer, através das sombras dos seus pensamentos, dos seus raciocínios, das suas meditações humanas. As crianças mortas sem batismo nem pecados pessoais, não sofrerão, assim, a pena dos sentidos, suportarão a pena de dano sem a sofrer, gozam a felicidade natural colocada em Deus.

Tal é o ensinamento comum sobre o que a Igreja chama limbos. Considerada como doutrina comum, esta explicação teológica não é de fé. No entanto, vendo a doutrina dos limbos como um relento da heresia pelagiana, os jansenistas quiseram pôr no fundo do inferno todas essas crianças. Foi assim que interveio um Papa, Pio VI, para dizer todo o respeito que a Igreja tem pelo ensinamento comum dos teólogos: «A doutrina que rejeita como fábula pelagiana esse lugar dos infernos (que os fiéis chamam comumente limbos das crianças), no qual as almas dos que morrem unicamente com o pecado original são punidos com a pena de dano, sem a pena do fogo, como se os afastados da pena do fogo introduzissem ali tal lugar e estado intermédio, sem falta e sem pena, entre o Reino de Deus e a danação eterna da qual fabulam os pelagianos, (é) falsa, temerária, injuriosa para as escolas católicas». O Papa não diz que a doutrina dos limbos é de fé, mas considera que afastar com um piparote essa doutrina é falso e injurioso para as escolas de teologia católica. Por fim, o Concílio Vaticano I tinha previsto comprometer a fé da Igreja, afirmando «que os que morrem só com o pecado original serão privados para sempre da visão beatífica, ao passo que os que morrem com um pecado atual grave sofrerão, além disso, os tormentos do inferno.» Esta definição não foi, no entanto, concluída, porque o Concílio foi interrompido antes de ter podido terminá-la. É assim que esta doutrina dos limbos permanece hoje o que se chama uma doutrina comum da Igreja. Seria temerário afastar-se dela, mas o afastamento não poria em causa a adesão à fé da Igreja, desde que salvaguardadas todas as afirmações relativas ao pecado original e ao batismo atrás enumeradas.

II – DOCUMENTO DA COMISSÃO TEOLÓGICA INTERNACIONAL

Vamos ao documento da Comissão Teológica Internacional (CTI). Por ora só está publicado em inglês, trabalharemos, assim, numa tradução privada, que não tem valor oficial.

Pressuposto fundamental: falsa concepção da Redenção universal.

A doutrina dos limbos acabada de expor, doutrina comum da Igreja da qual seria «temerário e injuriosos» afastar-se, vai ser realmente recusada pela CTI: «A idéia dos limbos não tem bases claras na Revelação» e «ver privadas da visão beatífica as crianças mortas sem batismo levanta numerosos problemas pastorais»; «consideramos a solução dos limbos como problemática».

Em que é que, tal doutrina, coloca dificuldades aos nossos novos teólogos? Deixemos que eles próprios respondam: «Porque (a teoria dos limbos) implica uma visão muito restritiva da salvação». Eis aqui, claramente posta, a problemática que está na origem do documento: a teoria dos limbos não convém a essa outra teoria chamada teoria da redenção universal, que pretende que todos são salvos. Já que existe incompatibilidade entre as duas teses, é necessário pôr a primeira entre parêntesis, mesmo reformá-la. Tal foi a missão confiada aos membros da CTI. Aparece, então, toda a implicação do documento.

Atingindo a doutrina dos limbos, a qual, decerto, não é de fé, tais teólogos vão pôr em causa, ou passar em silêncio, dois outros pontos de doutrina, os quais são dados de fé. Apesar de alguns protestos de boa vontade, a única possibilidade deixada a tais teólogos é desfalcarem seriamente tanto a doutrina do pecado original como a de necessidade do batismo, possibilidade que eles utilizam alegremente.

O pecado original esquecido

Relativamente ao pecado original, a descrição que tais teólogos fazem do mal no mundo é sintomática: «A partir do momento em que a raça humana começa a aumentar na Terra, Deus teve de contar com o pecado da humanidade.» É feita, então, a descrição do Dilúvio. O grande ausente é, evidentemente, o pecado de Adão, cometido antes mesmo de a raça humana aumentar, e que se tornou fonte de todo o pecado. Deste pecado nenhuma menção é feita. É somente dito que, quando a raça humana começa a se multiplicar, Deus tem de enfrentar o mal. Põe-se entre parêntesis um acontecimento central da história da Salvação, na ocorrência a primeira queda. Alguns parágrafos antes, é dito da vontade salvífica universal de Deus que ela é «uma vontade que é sincera da parte de Deus, mas à qual os humanos resistem por vezes.» Tal informação é enganosa, sempre à custa do pecado original. Dizer que os humanos resistem por vezes, é admitir a possibilidade do pecado atual, o que é verdade. Mas o que o texto omite, é que em Adão todos os homens são de fato postos em estado de resistência à vontade salvífica de Deus, estado que só uma graça particular de Deus permitirá superar. Sobre isto, o documento cria um impasse, do mesmo modo que põe entre parêntesis o pecado original. Ora, diz noutro lado o documento, «as crianças não colocam, pela sua parte, nenhum obstáculo à recepção da graça salvífica». Pode concluir-se, por conseguinte, com estes teólogos: «pode perguntar-se se a criança que morre sem batismo […] pode ser privada da visão de Deus sem a sua cooperação».

O raciocínio é elementar: Deus quer salvar toda a gente; ora, o único obstáculo é o pecado pessoal; mas as crianças não têm pecado pessoal, logo, todas as crianças vão para o Céu. Esta lógica é simples, mas é falsa, porque é falsa a maior parte deste silogismo. Cria um impasse sobre o pecado original. Eis todo o problema do texto.

O Magistério e a Tradição relativizados

Se a tese é simples, a metodologia empregue por tais teólogos é mais delicada, e ocupa boa parte do documento. Com efeito, têm dezenove séculos contra eles. É inoportuno, é preciso explicá-lo. Ou, mais precisamente, vai ser necessário “debilitar” o Magistério e a Tradição, tirar-lhes toda a sua força constrangedora. O tom é dado desde o nº 4: «O primeiro dever da teologia é escutar a palavra de Deus». Por simples que pareça, tal afirmação surpreende por suas lacunas: Deus não se exprime somente pelas Escrituras, mas ainda pela Tradição unânime e pelo Magistério. O Magistério e a Tradição não são, para tais teólogos, fontes de verdade certa, mas simples história humana. Afirma também o documento, com surpreendente candura: «A Tradição e os documentos do Magistério que reafirmaram a necessidade [do batismo] devem ser interpretados». Todos esses documentos vão, por conseguinte, ser relidos, para serem interpretados. Com efeito, continua o nº 10: «É necessária uma reflexão hermenêutica (quer dizer, interpretativa) sobre o modo como as testemunhas da tradição bíblica (já não é a Tradição, são só as testemunhas!), os Padres da Igreja, o Magistério, os teólogos leram e utilizaram os textos bíblicos». Dito de outro modo, todas essas pessoas, Padres da Igreja, Magistério, teólogos, etc., leram a Sagrada Escritura de uma certa maneira. Era a boa? Com toda a simplicidade e humildade, os membros da CTI crêem-se capazes de melhor leitura do que eles!

Alguns exemplos desta releitura. O Concílio de Florença afirma: «Não é possível levar-lhes [às criancinhas] socorro por outro remédio além do sacramento do batismo, pelo qual serão arrancados à dominação do diabo e adotados como filhos de Deus». Os nossos modernos teólogos comentam: «A Igreja não conhece nenhum outro meio que daria com certeza às criancinhas o acesso à vida eterna». A impossibilidade é substituída pelo desconhecimento. A Igreja não conhecia outro meio, mas os nossos teólogos vão no-lo dar, porque eles conhecem-no! Vamos vê-lo já…

Segundo exemplo. Num belíssimo discurso, Pio XII declarava às parteiras italianas: «O estado de graça é absolutamente necessário para a salvação: sem ele, a felicidade sobrenatural, a visão beatífica de Deus, não podem ser atingidas. No adulto, um ato de amor pode bastar para lhe obter a graça santificante e, assim, suprir a falta de batismo; para a criança a nascer ou para o recém-nascido, esta via não está aberta.» Que fazer de tal texto? A resposta da CTI é desconcertante na sua ligeireza: longe de impedir a pesquisa «de outras vias de salvação», Pio XII «lembrava sobretudo os limites nos quais o debate deve ter lugar e reafirmava firmemente a obrigação moral de dar o batismo às crianças em perigo de morte».

Os nºs 26 e 27 resumem, por si sós, a atitude de tais teólogos perante o Magistério e a Tradição: Os limbos eram ensinamento comum até metade do século XX. Mas, no século XX, os teólogos buscaram o direito de imaginar novas soluções, nelas compreendida a possibilidade de que a plena Redenção de Cristo atinja estas crianças.» Não se pode ser mais claro.

A Bíblia reinterpretada

Segundo tempo do método utilizado pela CTI: reinterpretar a Bíblia. Com efeito, não são apenas os Padres e o Magistério que são incômodos para as novas teorias; em certos pontos, a própria Escritura parece opor-se a estes teólogos. Daí a necessidade de reinterpretação. O grande texto da matéria é, evidentemente, Romanos, 5, 12: «Por um só homem entrou no mundo o pecado, porque nele todos pecaram». É um ponto fundamental, que explica que, em Adão, todos os homens pecaram, não a título pessoal, mas porque incorporados a Adão, pai da humanidade. Tal afirmação deve ser reinterpretada, donde uma nova tradução com a expressão chave entre parêntesis: «todos pecaram nele». Eis a versão revisitada: «Assim como por um só homem o pecado entrou no mundo, e pelo pecado a morte, e que assim como a morte passou a todos os homens, porque – grego: eph’ho; outras traduções possíveis “sobre a base de quê” ou “com o resultado que” – todos pecaram.» «Todos pecaram nele», verdadeiramente, foi suprimido. Em lugar de dizer “todos pecaram em Adão”, é dito simplesmente: “todos pecaram”. O pecado original é, deste modo, posto entre parêntesis, para só afirmar a existência universal do pecado pessoal. A nota explicativa (nota 82) diz: «São Paulo exprime um resultado, a conseqüência da funesta influência de Adão sobre a humanidade pela ratificação do seu pecado nos pecados de todos os indivíduos». Tal explicação é diretamente condenada pela Igreja, porque consiste em dizer que o pecado original não é transmitido por geração, mas somente pela via da imitação. Mas, tal condenação não parece perturbar tias teólogos, visto o pouco caso que fazem do Magistério…

Outro exemplo clássico da metodologia progressista: «As numerosas declarações sobre o batismo no Novo Testamento (por exemplo, «ninguém que não renasça da água e do Espírito…») articulam na sua diversidade as diferentes dimensões da importância do batismo tal como era compreendido pelas primeiras comunidades cristãs». Os Evangelhos já não são considerados como Palavra de Deus, gozando de inerrância, mas simplesmente como testemunho das primeiras comunidades cristãs, que explicam como elas consideravam Cristo. Com tal base, a relativização é possível. A citação de Jo 3, 5, «Quem não renasça da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus», é então ultrapassada pelo comentário que relativiza: «daqui compreendemos a necessidade do batismo sacramental»; subentendido: dessa frase a Igreja compreendeu a necessidade do batismo sacramental, mas compreendeu bem?

Hierarquia das verdades e mudança de perspectiva

Eis, por conseqüência, afastada a doutrina comum da Igreja relativa aos limbos. Falta descobrir como tais teólogos elaboram a sua tese. Apelam, explicitamente, ao princípio da hierarquia das verdades. Seja-me permitido apresentar aqui essa complexa tese de forma algo simplista; é, com efeito, de maneira simplista, que será utilizada pela CTI. Distinguindo as verdades fundamentais das que são secundárias, as verdades fundamentais terão prioridade sobre as verdades julgadas secundárias, no caso em que houvesse contradição aparente. Mais do que mostrar que essa contradição não é senão aparente, seria, pelo contrário, sobreestimada, com a única conseqüência de colocar entre parêntesis as verdades classificadas como secundárias; dir-se-á, então, que falta descobrir as verdades secundárias…

Ilustremos com o nº 91 do documento: «Onde o pecado abundou, a graça superabundou. É este o ensinamento absoluto da Escritura; mas a doutrina dos limbos parece restringir esta superabundância.» Numa palavra, coloca-se o foco luminoso numa passagem da Bíblia escolhida segundo as necessidades da causa, para interpretar todo o resto da Sagrada Escritura à luz esta passagem. Então, o argumento torna-se simplista: onde o pecado abundou, a graça superabundou; ora, os limbos parecem colocar um limite à graça, porque as almas que neles estão não são beneficiárias dessa graça. Por conseguinte, põem-se os limbos entre parêntesis. De parágrafo em parágrafo é utilizada esta argumentação: «Quando conduz uma reflexão teológica sobre a salvação das crianças mortas sem batismo, a Igreja respeita a hierarquia das verdades e, portanto, começa por reafirmar claramente o primado de Cristo e da Sua graça, que tem prioridade sobre Adão e o pecado». O ilogismo desta ordem passou sob silêncio; se bem que não se possa compreender a salvação trazida por Cristo sem conhecer previamente o mal do qual Ele tirou a humanidade, o documento afirma simplesmente aqui o que considera incontornável: a prioridade da salvação universal sobre a do pecado original. Daí, proposições inconseqüentes: «A esperança cristã é que o Deus vivo, o Salvador de toda a humanidade (cf. 1 Tim 4, 10), partilhará Sua glória com toda a gente». Tal esperança não pode ser cristã: porque não será cumprida, não é cristã. Porque a certeza é uma característica da esperança cristã. A esperança cristã tem como objeto o próprio Deus, e Deus é certo. Nós esperamos, por exemplo, a segunda vinda de Cristo na Sua glória, e porque sabemos certa essa parúsia, sabemos que se cumprirá. Dizer, também, que a esperança cristã é que o Deus vivo partilhará Sua glória com toda a gente, é uma asserção simplesmente falsa: é certo que há almas no inferno, é certo que o inferno não está vazio, logo é certo que Deus não partilhará a Sua glória com toda a gente.

Apesar dos erros a que induz, esta escolha prioritária em favor da salvação universal é constantemente lembrada no decorrer do documento: «há uma unidade e uma solidariedade fundamentais entre Cristo e toda a raça humana»; «Desejamos sublinhar que a solidariedade com Cristo (ou, mais corretamente, a solidariedade de Cristo com toda a humanidade) deve ter prioridade sobre a solidariedade de todos os seres humanos com Adão e que a questão do destino das crianças mortas sem batismo deve ser abordada a esta luz»; «A visão tradicional considera que é somente pelo batismo sacramental que as crianças têm solidariedade com Cristo e, portanto, acesso à visão de Deus; dito de outro modo, a solidariedade com Adão tem prioridade. Podemos perguntar como esta visão poderia ser mudada, se a prioridade da solidariedade de Cristo conosco fosse restaurada». Esta escolha prioritária da salvação universal é, por esta razão, justificada? Os teólogos da CTI crêem nisso, visto que se apóiam nos “sinais dos tempos”.

Um antigo lugar-comum: «perscrutar os sinais dos tempos»

Se os nossos teólogos se crêem no direito de pôr em causa a prioridade lógica e cronológica que a Igreja sempre respeitou até então, é em razão dos «sinais dos tempos» que se dão a ver, os famosos sinais dos tempos que o Concílio Vaticano II convidou a sentir, aspirar, para nos deixarmos levar por eles. No caso presente, os sinais dos tempos poderiam ser resumidos a dois: o sentimento dos pais, e a mentalidade contemporânea voltada para o direito subjetivo. Eis, com efeito, o que expõe o nº 2: «Os pais têm muito pesar […] e é cada vez mais difícil aceitar que Deus é justo e misericordioso se exclui da felicidade eterna as crianças que não têm pecados pessoais, quer sejam cristãs ou não.» Por um lado, acha-se injusto que Deus não conceda a visão beatífica a toda a gente e, por outro lado, seria duro para os pais aceitar tal tese. Eis os sinais dos tempos, eis o que obrigaria a Igreja a alterar a sua doutrina.

O último motivo evocado esquece que todo o dom, e o que é mais, o dom da graça sobrenatural, é um dom gratuito. A grande pobreza do argumento aparece melhor quando comparada à experiência quotidiana. Imagine-se irmãos e irmãs que, na noite de Natal, apresentem ao seu pai a factura dos presentes recebidos para se queixarem de injustiça, sob pretexto de que não custaram todos a mesma importância! Estes filhos não compreenderam que liberalidade não é justiça; os nossos teólogos não diferem quase nada deles… Deus não tem que dar a mesma coisa a cada um e, salvo queda na grosseira concepção do direito subjetivo, não se pode considerar injusto o fato de Deus conceder a alguns uma felicidade sobrenatural e a outros somente uma felicidade natural.

A seguir, vem a evocação do sentimento: «Em todo o lado estão escandalizadas pessoas pelo sofrimento das crianças e querem permitir às crianças a realização do seu potencial». Eis o decreto dos sinais dos tempos… Pode ler-se um pouco atrás: «Os cristãos são pessoas de esperança. Colocaram a sua esperança no Deus vivo, que é o Salvador de todos, sobretudo dos que crêem. Desejam ardentemente que todos os seres humanos, incluindo as crianças não batizadas, possam partilhar a glória de Deus e viver com Cristo […]. Também os cristãos, mesmo quando não vêem como podem ser salvas as crianças não batizadas, ousam, apesar de tudo, esperar que Deus as abraçará na Sua misericórdia salvífica.» A profundidade teológica destes argumentos deixam, ao menos, alguma dúvida… Todavia, muito seriamente – mas, valha-nos Deus, usando a razão! – os nossos teólogos prosseguem, mostrando como os sinais dos tempos foram tidos em conta pela Igreja desde há quarenta anos: «Graças à reforma litúrgica que se seguiu ao Concílio, o Missal Romano tem agora uma missa de funerais por uma criança morta antes do batismo… A oração litúrgica reflete e ao mesmo tempo forma o sensus fidei da Igreja católica a respeito das crianças mortas sem batismo: lex orandi, lex credendi». Ademais, «na sua instrução de 1980 sobre o batismo das crianças, a Congregação para a Doutrina da Fé reafirmou que, no que respeita às crianças que morrem ser terem recebido o batismo, a Igreja não pode senão confiá-las à misericórdia de Deus, como faz, com efeito, nos ritos de funerais estabelecidos para elas. O Catecismo da Igreja católica (1992) acrescenta que a grande misericórdia de Deus, que desejas que todos os homens sejam salvos [1 Tm 2, 4], e a ternura de Jesus para com as crianças, que Lhe fez dizer: Deixai vir a Mim os pequeninos e não os impeçais (Mc. 10, 14), permitem-nos esperar que há uma via de salvação para as crianças mortas sem batismo». Todos estes semáforos verdes dados desde há 40 anos pela Igreja conciliar estão ali, como outros tantos encorajamentos para estes teólogos avançarem coma sua tese.

Proposições pelo menos inventivas

Falta saber, por fim, como se realiza, no dizer dos nossos teólogos, a salvação das crianças nascidas e sem batismo. Situam-se aqui no domínio das puras suposições, por vezes surpreendentes. É assim com a que é avançada no nº 85: «Podemos discernir nas crianças que sofrem e morrem uma conformidade salvadora com Cristo na Sua própria morte, e uma companhia com Ele. Na Cruz, o próprio Cristo carregou o peso do pecado e da morte de toda a humanidade, e desde então todo o sofrimento e toda a morte é um compromisso contra o inimigo de Cristo, uma participação na Sua própria batalha». O inimigo de Cristo já não é o pecado que Cristo expia no madeiro, mas mais a morte; desde logo, o instinto de sobrevivência próprio de todo o ser vivo ameaçado é considerado como “compromisso contra o inimigo de Cristo”, “participação na Sua própria batalha”. Uma criança resumiria assim o argumento: luto contra a morte, Cristo lutou contra a morte, lutamos contra o mesmo inimigo; pertencemos ao mesmo campo! Que cada um julgue a densidade teológica de tal argumento…

O cúmulo do ridículo, no entanto, parece atingido na nota 127, quando é «imaginado» (sic) o votum rudimentar que poderia colocar a criança sem idade da razão para assimilar o seu caso ao do batismo de desejo: «Alguns teólogos pensaram que o sorriso da mãe era o laço do amor de Deus com a criança e consideraram, por conseguinte, a reação da criança a esse sorriso como resposta dada ao próprio Deus». Será preciso, então, chegar a dizer que, ao alimentardes o vosso gato, sois para este o instrumento do amor de um Deus que dá alimento às avezinhas, e que a resposta desse gato, abanando a cauda, é uma resposta a Deus que merece salvação? Tal é, contudo, o argumento teológico avançado! Parece estarmos aqui mais na teologia à Polnareff (“iremos todos para o paraíso”) do que num documento emanado da Comissão Teológica Internacional…

CONCLUSÃO

Ao ler estas “reflexões” do documento da CTI, não posso impedir-me de pensar na profecia de São Paulo: «Virá um tempo em que os homens não suportarão mais a sã doutrina (consideramos a solução dos limbos problemática”, nº 95), mas escolherão doutores a rodos (150 teólogos da CTI), segundo o agrado dos seus desejos (sinal dos tempos avançado: a humanidade atual sente o desejo de ver todos os homens salvos). Ávidos do que envaidece o ouvido, desviar-se-ão da verdade (vimos como eles afastaram o Magistério, a Tradição e mesmo a Sagrada Escritura) para se voltarem para fábulas» (sabe-se que imaginações estes teólogos, finalmente, propuseram).

Bento XVI não assinou o texto, apesar disso autorizou verbalmente a sua publicação, o que não deixa de ter valor. É doloroso…

No entanto, sabemos que Deus usa até o mal para fazer o bem. Creio que, por este documento, o Bom Deus nos lembra, na hora em que, talvez, a Missa será liberalizada, que o que está em jogo na Tradição não é somente a liturgia. Decerto, queremos a Missa de sempre para todos; contudo, quando o texto aparecer, não será por isso a fim do combate da Tradição. Será uma vitória de que nos poderemos regozijar, mas que não significa, por isso, que se possa depor as armas. Outro aspecto da crise da Igreja, ainda mais fundamental, ficará para resolver: a dimensão doutrinal da crise. Enquanto Roma não retomar claramente o archote da luta, cada um de nós não se pode comportar como filhos que se deixam «aparvalhar e arrastar a qualquer vento da doutrina, ao grado da impostura dos homens e da sua astúcia, a desencaminhar-se no erro», mas, pelo contrário, «viver segundo a verdade e na caridade», a fim de «crescer de todas as formas em direção Àquele que é a Cabeça, Cristo».