Sobre Assis III, de 27 de Outubro de 2011

Em 1º de Janeiro de 2011, Bento XVI anunciou a sua vontade de celebrar o aniversário de 25 anos do encontro de Assis de 1986. Ele invocou dois princípios para justificar este encontro, fixado no último dia 27 de Outubro:

1)    Todo ato religioso, de qualquer religião que seja, aproxima o homem de Deus;

Este primeiro princípio é qualificado pelo Magistério da Igreja de “perversão da verdadeira religião” (Gregório XVI).  Pio XI disse que é teoria errônea “que todas as religiões são todas mais ou menos louváveis, no sentido em que, de maneira diferente, manifestam e significam o sentimento natural e inato que nos leva a Deus e nos leva  a reconhecer com respeito o seu poder. Em verdade, os seguidores desta teoria estão em completo erro… partilhar tais doutrinas é se afastar por completo da religião divinamente revelada.” (Mortalium animos, 1929)

De fato, a Revelação é o fundamento necessário de uma religião verdadeira. É necessário que Deus se faça conhecer, para que seja possível se relacionar com ele. A revelação divina não pode se equiparar com a imaginação dos homens, que inventa religiões. O homem na sua aspiração religiosa deve ter a boa vontade de aceitar a Revelação para contruir este bom relacionamento com Deus. Ele não pode impor a religião à sua maneira. Um encontro religioso apenas deveria fazer conhecer a Revelação aos homens, já que sem a Fé católica ninguém pode agradar a Deus (Heb 11, 6), o justo vive da fé (Heb X, 38), e sem Jesus a salvação é impossível (Mat. XIX, 25).

2)    O caminho da paz não é outro senão o da liberdade religiosa.

Gregório XVI chama este princípio de  “delírio”. Não é apenas contra a fé mas também contra a inteligência. De fato, invocar este princípio é desconhecer o que é a liberdade e o que é a religião; é dizer uma coisa insensata. A religião é uma relação com a pessoa de Deus e necessita, por isso, o conhecimento da verdade sobre Deus. Seria insensato querer se relacionar com uma pessoa sem conhecê-la, contentando-se apenas em exercer a liberdade de se relacionar com esta pessoa. Num relacionamento, há necessariamente o dever de se conformar à pessoa conhecida e não podemos impor-lhe a nossa liberdade de relacionamento. A Liberdade necessita também da verdade para ser exercida; como, por exemplo, tocar piano livremente sem conhecer a música e nem o instrumento? Tal seria a figura da Liberdade sem a Verdade. A liberdade religiosa é insensata se não precedida da verdade religiosa. A verdade é fonte, e legitima a liberdade religiosa.

O Papa Bento XVI, numa carta ao ministro e professor luterano Dr. Peter Beyerhaus, antes da reunião de Assis, prometeu não favorecer o relativismo. O que ele fez, então,  afirmando que “Trata-se de nos sentirmos juntos neste caminhar para a verdade”? Se devemos, todos juntos, caminhar para a verdade, isso significa que ainda não possuimos a verdade, que o catolicismo não é a verdade e que estamos no mesmo nível das outras religiões. Não seria isso mesmo o relativismo? O que fica, então, da promessa seguinte?

“Compreendo muito bem — escreveu Bento XVI  — a sua preocupação sobre a [minha] participação no encontro de Assis. Todavia, esta comemoração teria de ser celebrada de toda forma e, no fim das contas, pareceu-me que a melhor coisa para mim seria ir até lá pessoalmente, podendo, então, determinar a direção de tudo isso. Farei tudo, no entanto, a fim de que uma interpretação sincretista ou relativista do evento seja impossível e então o que permanecerá é aquilo que sempre acreditarei e professarei, para o que chamei a atenção da Igreja com [a declaração] ‘Dominus Iesus’“. (4 de março de 2011: Carta de Bento XVI ao ministro e professor luterano Dr. Peter Beyerhaus, como resposta a uma missiva enviada por ele sobre o risco envolvido no novo encontro de Assis. Carta revelada pelo Cardeal Burke em uma conferência).

 

I. Resumo e apresentação do discurso de Bento XVI em Assis

Partindo do fato histórico da queda do muro de Berlim, considerado como um símbolo de vitória da liberdade e sobretudo da paz, O papa Bento XVI reconhece que a situação mundial não mudou e ainda está mergulhada na violência. Ele aproveita deste diagnóstico para sublinhar a importância da reunião de Assis III para refletir sobre este fenômeno e tirar lições. Ele aponta duas fontes da violência: de um lado, o terrorismo, bem como toda deturpação da religião, e de outro, o ateísmo e o materialismo.

Ele quer fugir da crítica dos iluministas, que consiste em dizer que a religião é fonte de violência e portanto deve ser eliminada.  Ele realça a contribuição dos agnósticos, que:

a)     em primeiro lugar, “tiram aos ateus aquela falsa certeza com que pretendem saber que não existe um Deus, e convidam-nos a tornar-se, em lugar de polêmicos, pessoas à procura…” ;

b)     e em  segundo lugar, “chamam em causa também os membros das religiões, para que não considerem Deus como uma propriedade que de tal modo lhes pertence que se sintam autorizados à violência contra os demais. …. Assim, a sua luta interior e o seu interrogar-se constituem para os que creem também um apelo a purificarem a sua fé, para que Deus – o verdadeiro Deus – se torne acessível.

E antes de concluir, define o motivo profundo deste encontro de Assis:

“Trata-se de nos sentirmos juntos neste caminhar para a verdade, de nos comprometermos decisivamente pela dignidade do homem e de assumirmos juntos a causa da paz contra toda a espécie de violência que destrói o direito.”

E vem a conclusão em que ele exprime o compromisso da Igreja de servir a paz no mundo. Neste quadro podemos encaixar a palavra de Jesus: “Não julgueis que vim trazer a Paz à terra, não vim trazer a Paz, mas a espada” (Mat. X, 34)?

“Concluindo, queria assegurar-vos de que a Igreja Católica não desistirá da luta contra a violência, do seu compromisso pela paz no mundo. Vivemos animados pelo desejo comum de ser «peregrinos da verdade, peregrinos da paz».”

II. As resposta da parte das falsas religiões

O Papa falhou na sua promessa : “Farei tudo, no entanto, a fim de que uma interpretação sincretista ou relativista do evento seja impossível”

  • O porta-voz fez um apelo ao pluralismo religioso, “a nossa religião, bem como as religiões praticadas por outras pessoas, são valiosas e preciosas aos olhos do Todo-Poderoso” e ao respeito pela natureza: “enquanto à natureza não for dado o devido respeito e honra em nossos pensamentos e ações, o ser humano não pode encontrar a verdadeira paz e tranqüilidade que todos nós estamos procurando. “
  • Awis Agbaye (indígenas iorubá): “respeito às religiões indígenas” “Trabalhemos todos juntos para um maior respeito, amor e justiça, enquanto ao mesmo tempo, continuemos fiéis aos ensinamentos das religiões que adotamos
  • Goswami (hindu): “não há paz com meios violentos” (Assis, a partir de nossos correspondentes) “A paz nunca pode ser alcançada através de meios violentos” é a mensagem feita no dia em Assis por Achara Shrivatsa Shri Goswami, representante indígena da religião hindu, que lembrou em seu depoimento, na Basílica de Santa Maria dos Anjos, figuras de Krishna, Buda, Mahatma Gandhi, Martin Luther King e Tutu Bishop, “todos os peregrinos da paz que afirmam que não há caminho para a paz. A paz é o caminho.

III. Análisee comentário

Antes de tudo, o Papa quer evitar a crítica dos iluministas, mas para fazer entrar a concepção da religião num padrão aceitável para eles. O resultado será forçosamente chegar a conformar a religão às idéias falsas dos iluministas: religiosidade que tranqüilize a consciência, mas sem incomodar o homem por um dogmatismo; uma espécie de religião emancipada da realidade de Deus e que deixa a cada um a liberdade de imaginar o deus que ele quer. Weisshaupt, fundador do iluminismo, pretendia assim restaurar o homem no sentido de lhe restituir a total liberdade e igualdade e torná-lo isento de qualquer obrigação social e religiosa e acabar com a propriedade. Para chegar a isso o Papa pede a ajuda dos agnósticos para que (os crentes) não considerem Deus como uma propriedade”.

O único momento em que ele fala da religião cristã é para apresentar uma religião pacifista de tipo Mahatma Gandhi, em que a religião nem sequer deve servir de discriminação entre os filhos da mesma família humana:

É verdade, na história, que também se recorreu à violência em nome da fé cristã. Reconhecemo-lo, cheios de vergonha. Mas, sem sombra de dúvida, tratou-se de um uso abusivo da fé cristã, em contraste evidente com a sua verdadeira natureza. O Deus em quem nós, cristãos, acreditamos é o Criador e Pai de todos os homens, a partir do qual todas as pessoas são irmãos e irmãs entre si e constituem uma única família. A Cruz de Cristo é, para nós, o sinal daquele Deus que, no lugar da violência, coloca o sofrer com o outro e o amar com o outro. O seu nome é «Deus do amor e da paz» (2 Cor 13,11). É tarefa de todos aqueles que possuem alguma responsabilidade pela fé cristã, purificar continuamente a religião dos cristãos a partir do seu centro interior, para que – apesar da fraqueza do homem – seja verdadeiramente instrumento da paz de Deus no mundo.

A religião cristã é mencionada apenas para servir aos cristãos, e não para ser pregada aos não-cristãos. Ela é reduzida a um meio de promover a paz no mundo. A sua realidade de único meio de salvação fica escondida. Que grave omissão!

“é, para nós, [Ndr. não para todos] o sinal daquele Deus que, no lugar da violência, coloca o sofrer com o outro e o amar com o outro.”

O Papa estuda o problema da religião não à luz da Revelação, mas à luz duma ideologia iluminista. Usa de dialética, onde coloca em oposição as religiões existentes e o materialismo. Quer fugir da crítica dos iluministas e se conformar à ideologia deles, servindo-se da posição dos agnósticos para resolver o problema da violência (por motivo religioso) evocado pelos iluministas. Em vez de pregar a religião cristã como universal e necessária para a salvação de todos, apresenta a religião cristã como um sinal apenas válido para os cristãos e acaba por apresentar um ideal religioso quimérico comum a todas as falsas religiões, que produziria na Terra uma situação sem guerra, sem polêmica, sem confronto de convicção.  Uma situação do tipo de Mahatma Gandhi, um pacifismo absoluto “contra toda a espécie de violência”.

Portanto, torna-se difícil encaixar neste contexto o ensino de São Jerônimo: “Ser-me-á suficiente responder [dizia ele] que jamais poupei os hereges e que empreguei todo o meu zelo em fazer dos inimigos da Igreja meus inimigos pessoais”. No entanto, São Jerônimo segue o Evangelho, que considera a palavra de Deus como uma espada que “não traz a paz à terra” (Mat. X, 34.) A guerra contra o erro, o pecado e o demônio, principe deste mundo. São Paulo tem um discurso também muito diferente do do Papa: “Tomai  também o elmo da salvação e a espada do espírito, que é a palavra de Deus (Efes. VI 17)” A luta em prol da verdadeira religião é tão fundamental para o homem (imagem de Deus), que deve se inspirar do exemplo do profeta Elias, apóstolo que ainda virá para combater o Anticristo.

A religião, de fato, é para o homem a única maneira de se religar à fonte da sua vida e existência, logo é vital, é fundamental. Quando houve perigo para a verdadeira religão, Elias não hesitou mandar ao povo: “Apanhai os profetas de Baal, e não escape deles nem um só. E tendo-os o povo agarrado, Elias levou-os à torrente de Cison, e ali os matou” (III Reis XVIII 40). Para o Papa, a verdade religiosa não tem esta importância; ele trata o problema sem se referir ao alicerce dela, a Revelação divina. Para ele, a experiência humana da religião basta para agradar a Deus e obter a paz. Aceita qualquer opinião religiosa que serve para paz na família humana. Para ele, também, a religião não passa de algo útil, e deve ser modificada ou purificada em função de sua utilidade. A paz entre os homens é uma finalidade acima da religião, a religião está ao serviço da paz. Os homens são confortados pelo Papa na sua maneira de inventar ou escolher o modo de se relacionar com Deus, desde que uma condição seja atendida: que todos eles prestem um serviço à paz. A sua noção do Novo Pentecostes como manifestação da unidade entre todas as experiências religiosas é a alma deste discurso de Assis III. Todas religiões merecem ser praticadas sinceramente porque têm o poder de agradar a Deus e servem para obter a paz de Deus.  Neste discurso o homem não está chamado a conservar a verdade que Deus lhe revelou, mas a buscar uma verdade que seja comum e que sirva para alcançar uma paz na família humana atual. O catolicismo, bem com as outras religiões, deve pedir perdão e se purificar.

Jesus já não corresponde a este padrão do Papa, pois usou de açoite com os vendedores do Templo, de violência verbal contra os fariseus, de incitação a usar da espada no futuro quando disse a São Pedro: “mas agora quem tem bolsa toma-a, e também alforje, e quem a não tem, vende a sua túnica, e compre uma espada” (Lucas XXII, 36) e “Não julgueis que vim trazer a Paz à terra, não vim trazer a Paz mas a espada” (Mat. X, 34).  Claro que a espada deve estar na mão do poder civil e não na do sacerdote, e deve ser usada com prudência e pelo bem e não sem consideração, como São Pedro no Jardim das Oliveiras. Naquela circunstância, de fato, a espada estava na mão do primeiro Papa e para impedir o mistério da Redenção. A Igreja também não correspondeu a este padrão, ela que defendeu a justiça e instituições da fé e da caridade pedindo a ajuda das armas; ela, que defendeu os inocentes, incitando a criação de ordens militares, pregou as cruzadas para defender a liberdade de professar a fé e manter a civilização cristã. A causa da justiça, da fé, da paz se defende em vários níveis, que vão do confronto das idéias, passam pela polêmica justa, e chegam até o uso das armas para criar as disposições de aceitar o que é verdadeiro e justo, o que é vital e fundamental.

Todo o problema de Assis III parece resumido nesta frase:

Trata-se de nos sentirmos juntos neste caminhar para a verdade, de nos comprometermos decisivamente pela dignidade do homem e de assumirmos juntos a causa da paz contra toda a espécie de violência que destrói o direito.

Todas as religiões, inclusive a cristã, devem se purificar até serem capazes de se unirem e de prestarem um serviço à dignidade humana, e conseqüentemente nesta união todos os homens devem contribuir para promover a paz. A paz é definida como exclusão de qualquer violência, “contra toda a espécie de violência”. A violência é apresentada como destruidora do direito.

Assim, a utilidade e o serviço da dignidade humana é a finalidade da religão e os direitos humanos não permitem a violência. Isso é a verdade que deve ser alvo de busca por parte de todas as religiões e motivo de purificação. O deus de Mahatma Gandhi será assim mais acessível para os agnósticos, e o Deus de Jesus Cristo será reformado.

A violência de que condena o Papa pode ser, claro, a violência injusta que vai contra a lei natural, mas também a justa que agrediria qualquer suposto “direito humano” de Vaticano II: O “direito”, no foro externo, a ser imune de coação da parte de qualquer autoridade, mesmo quando subjetivamente o homem não se empenha em buscar a Verdade. “Por isso, o direito a essa imunidade (imunidade de coação externa exercida por qualquer autoridade civil ou religiosa) continua a existir, ainda para aqueles que não satisfazem a obrigação de procurar a verdade e de a ela aderir” (Vat. II DH nº 1537).

Na realidade, a violência, como justa coação no foro externo, pode no entanto ajudar o homem a se colocar na linha da verdade, da justiça e assim gozar da verdadeira liberdade. Esta violência que obriga a observar um comportamento social bom é justa porque corresponde ao bem comum e logo ao bem de cada indivíduo integrado na sociedade. A coação serve quando a inteligência é rebelde ao seu dever de conhecer a verdade e quando a vontade está bloqueada na malícia por causa de uma paixão desordenada, de uma cultura falsa, superstição ou de uma religião falsa.

De fato, o que serve a coacção na psicologia do homem? A coação fornece as disposições à verdade e ao bem, obrigando a faculdade da inteligência ou a da vontade a adotar uma atividade reta, produzindo atos bons. Claro que a coação, por si própria, não produz a virtude correspondente aos atos bons. Para fazer nascer a virtude, é necessário um ato livre da parte do homem para aceitar a boa atividade inteletual ou moral imposta pela coação justa. Com a virtude, esta atividade boa torna a ser merecedora, agradável, profícua e natural ao homem.

O trabalho da educação ou do estabelecimento de uma civilização autêntica necessita da criação destas disposições com uso da violência de uma justa coação, no caso em que os homens, por inconsciência ou por paixão, permanecem rebeldes e assim prejudicam o bem comum. A vida do homem não pode ser analisada de maneira individualista, como se o homem pudesse se sustentar sozinho sem necessitar da sociedade, e então sem ter deveres para com a sociedade. Se a natureza do homem é essencialmente social, o indivíduo encontra o seu bem no Bem Comum desta sociedade, e portanto ele deve servir a este bem da sociedade. Assim, o serviço ao Bem Comum tem a suas exigências, e há uma coação justa que obriga o homem a servir ao Bem Comum. A civilização saiu da barbárie por conta da justa coação.

O direito de que fala o Papa faz parte do que é chamado “declaração dos direitos humanos”. Foram inventados pela Maçonaria e proclamados pela revolução.  Eles  precedem qualquer dever para com Deus e para com a sociedade. Estes direitos pode ser reinvidicados em qualquer momento e por qualquer um, a torto ou à razão. São absolutos. A Igreja, no Vaticano II, está tentando reconciliar esta noção revolucionária com a moral cristã. Assim, este direito aniquila qualquer vontade de coação da parte de qualquer autoridade civil ou religiosa. O poder da consciência torna a ser uma suprema autoridade, e a religião deve se conformar a esta supremacia. Eis porque o Papa é tão absoluto na sua proscrição de toda violência. É a revolução do pacifismo pregado por Mahatma Gandhi, e inspirado pela passividade budista. Este pacifismo aniquila qualquer reação boa contra o mal. Foi o veneno paralizador inoculado pela revolução na Europa cristã. Os cristãos estão entorpecidos e já não fazem nada para parar a revolução.

IV. Conclusão

Portanto, a partir da constatação de uma situação de violência depois do pretenso símbolo de vitória da Paz de 9 de Novembro de 1989, o Papa, evitando toda distinção, chega a pregar o pacifismo: uma atitude de rejeição de toda violência justa ou injusta “contra toda a espécie de violência”. A nocividade deste discurso se resume numa pregação da revolução pacifista de tipo Mahatma Gandhi, que acaba com toda resistência à revolução anti-cristã e é contra toda apologética da fé. Curiosamente, o projeito de Governo mundial se acomoda muito bem a este discurso e até fala da instalação de uma única religião, mas purificada do todo dogmatismo considerado como intolerante e discriminatório. A todo custo, segundo esta ideologia, seria necessário proteger a unidade e a paz da família humana contra toda doutrina ou religião que criasse clivagens entre os homens. Isso seria considerado como um abuso da prática religiosa.

O Papa Pio XI, na sua encíclica Quas Primas, fazia o mesmo diagnóstico da situação de violência e tinha a mesma preocupação com a paz, mas ele foi buscar o remédio na Revelação, na fé em Jesus Cristo, Messias e única esperança dos homens. Ele incentivou, pela festa de Cristo Rei, os homens a trabalharem no reino de Cristo e estabelecê-lo na sociedade.

Pelo contrário, o Papa Bento XVI continuou na sua experiência fracassada do Vaticano II e foi buscar a solução da paz tão desejada no mundo, até no mundo dos agnósticos para chegar a purificar as religiões de todas certezas. O sonho (ou loucura) dele é de colocar todas as religiões no caminho da busca de uma verdade nunca possuída.

O que no congresso maçônico de Paris de 9 de Junho de 1908 foi definido deixa muito que pensar sobre Assis III : “sendo o laço invisível que une todas as religiões…, a maçonaria universal é espiritualista na sua essência”; e também o primeiro Artigo da Constituição maçônica de Grande Loja inglesa exprime este ideal maçônico: “deixar a cada um as suas opiniões (religiosas) e mandar que a religião seja aquela que está de acordo com todos os homens”. Será que o Papa, que trabalha para colocar uma harmonia entre todas as religiões, não entendeu que a diferença entre a Maçonaria e a Igreja é justamente que a maçonaria é ecumenista, e a Igreja é dogmática, ao serviço de uma Revelação divina? Ou será que ele adota agora o ideal maçônico, juntando todas as religiões no caminho de busca de uma verdade que não assusta os iluministas?

Com Assis III,  o “ide e pregai o meu Evangelho e batizai todos os homens em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo, aqueles que acreditam serão salvos e aqueles que não acreditam serão condenados” já não convém mais.

Será que o Papa está consciente disso? Rezemos e façamos atos de reparação: é mais útil do que tentar julgar uma pessoa experimentando tantas idéias estranhas.