Títulos baratos de santidade

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Algumas das canonizações desde o Vaticano II levantaram surpresas, e notícias de uma beatificação de João Paulo II simplesmente acrescentaram à mistificação de muitas almas. São as canonizações atos infalíveis do magistério extraordinário do papa? O Anjo da Teologia, São Tomás, explica que uma canonização particular está em algum lugar entre as verdades gerais (dogmas) e julgamentos de casos em específico, porque a Igreja poderia falhar, quando baseada em falsos testemunhos. ‘’Porquanto a honra dada aos santos é uma certa declaração solene de fé pela qual nós acreditamos na glória dos santos, precisamos acreditar piamente que nisso também, o julgamento da igreja não pode falhar.’’ (Quodlibetales IX, último artigo). Isso coloca a questão em sua própria perspectiva.

À época de Santo Tomás, o processo de canonização tornou-se tanto centralizado (Roma tinha a última palavra em todos os julgamentos) e complexo, envolvendo um triplo julgamento pela corte romana: a ortodoxia dos escritos (tanto privados como públicos); o heroísmo das virtudes e a autenticidade dos milagres. Esse processo é tão iluminador quando enigmático: já que a origem divina do milagre é virtualmente impossível de afirmar (salvo raras exceções, nas quais o demônio pode simplesmente macaquear Deus), sua autenticidade depende do heroísmo e das virtudes. Mas, julgá-los pode se mostrar realmente difícil, porquanto nós os julgamos apenas por seus atos exteriores, e um julgamento de intenção é facilmente falível. Assim, tal julgamento nos remete à primeira condição, ortodoxia doutrinária. Portanto, toda santidade remete definitivamente à expressão da doutrina do candidato, que é fácil de determinar.

Se os teólogos falam de ‘’canonização infalível’’, é precisamente porque as canonizações confiam primeiramente no teste doutrinário.[1] Considerando que os papas foram, até então, dotados de grande cautela, com juízes especializados, checando tudo duas vezes, as declarações abordam de perto as definições infalíveis próprias dos dogmas universais.

Tendo-se dito isso, não se faz difícil ver quão longe o atual status de ‘’canonizaçao’’ difere dos tempos passados, que nos faz suspeitar do caráter infalível deles:[2]

– Os papas hoje se recusam totalmente a selar com autoridade quaisquer documentos saídos de Roma, com a inversão democrática da ‘’percepção da fé’’, o princípio da colegialidade, pelas quais as conferências episcopais ditam de fato as decisões de Roma, com o subjetivismo doutrinário prevalecendo em todos os lugares.

– Essa maciça simplificação do processo com João Paulo II, junto com o número crescente de canonizações, sugere a perda de qualidade do ‘’magistério extraordinário’’ ligado formalmente à canonização.

– A santidade é agora definida como a capacidade de se dar pelos os outros e de bendizer a vida;[3] é simplesmente um sinal de dignidade conferida a um discípulo de Cristo. Hoje, precisa-se apenas ser um ‘’autêntico cristão’’ e alguma publicidade para fazer seu caminho para o altar.

– O candidato tem de passar pela peneira do ‘’ecumenismo’’, manejada pelo Secretariado de Unidade Cristã, que barrou pessoas como Isabela da Espanha.

– Os santos agora são escolhidos dependendo de como eles ‘’consagraram’’ a era pós-Vaticano II: Escrivá, João XXIII, João Paulo II.

– Pouca atenção é dada para a suspeita de heterodoxia. Por exemplo, veja-se a beatificação de João XXIII, que se calou em vez de defender a infalibilidade papal[5] ou o Cardeal Ferrari, amigando-se com o modernismo na época de São Pio X.

– Esse método de atribuir milagres à Madre Teresa (e João Paulo II), levantou uma tempestade de controvérsia quando ambos foram tratados como médicos, sem se provar a origem divina da cura.

Notas

1 Jean Bois, “Canonisation dans l’Eglise romaine,” D.T.C. t. II, col. 1647. Qualquer suspeita doutrinária arquivaria o processo para sempre.

2 Ver a edição de janeiro de 2007 da The Angelus magazine, Frs. Lorber & Gleize “On the Canonization of John Paul II”; Sel de la Terre, nb 72, Printemps 2010, Fr. Calderón, Infallibilité des canonisations et lois universelles.

3 Sermão de João Paulo II sobre a canonização de Zdislava da Boêmia, em 21 de maio de 1995.

4 Tertio Millennio Adveniente, §37; Homilia em Kosice (Eslováquia).

5 Marsaudon, “L’oecumenisme,” p. 45.

Fonte: The Corner/sspx.org