Una Voce entrevista Dom Fellay

29-04-2011

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Dom Bernard Fellay, Superior Geral da Fraternidade São Pio X, concedeu uma entrevista a Patrick Banken, Presidente de Una Voce – França, publicada no nº 277 (Março-Abril de 2011) da revista da associação que, há 50 anos, milita pela salvaguarda do canto gregoriano.

P.B.: Na alvorada de um novo ano e de um novo decênio, podeis, Excelência, partilhar o vosso olhar sobre a situação atual da Igreja?

Dom Fellay: O Concílio Vaticano II e toda a sequência de reformas pós-conciliares causaram uma das crises mais graves que a Igreja Católica jamais atravessou. Cinquenta anos depois, verificamos, infelizmente, que essa crise não está prestes a terminar. As consequências das reformas conciliares sentem-se hoje mais duramente do que outrora. É, por exemplo, no Antigo como no Novo Mundo, uma diminuição muito grave das vocações, tanto religiosas como sacerdotais, a desaparição quase total de escolas Católicas dignas desse nome, a ignorância crassa da doutriuna Católica entre a juventude*, uma liturgia que já não alimenta a Fé e que, pelo contrário, penetra como veneno lento nos fiéis que ainda praticam, num espírito mais protestante do que Católico. No entretanto, no meio deste desastre, pode distinguir-se um movimento, é verdade que ainda muito discreto, que deseja a restauração da Igreja. É um movimento que vem da juventude*, um movimento que recebe novo sopro no momento da ascenção de Bento XVI ao pontificado romano. Este movimento, que é um regresso a uma atitude mais conservadora, dá uma certa esperança no futuro. No entanto sofre de alguns defeitos, por exemplo, a ignorância do passado ou a decepção à vista da situação da Igreja. Poderá dizer-se que a juventude*, vendo a mesquinha situação atual, está como que frustrada e procura outra coisa, tanto ao nível litúrgico como doutrinal, voltando-se para o passado, mas sem saber bem qual tenha sido. A ala progressista, ainda bem enraizada, deu-se conta desta reação e faz tudo o que pode para a aniquilar antes que se torne suficientemente forte para poder impor-se por si mesma. Este conjunto cria uma situação sofrivelmente confusa, onde o temor caminha com a esperança. Estamos como que numa encruzilhada e os atos, que o Soberano Pontífice praticará ou não, determinarão a duração mais ou menos longa da crise.

P.B.: No futuro próximo, qual poderá ser o papel do Catolicismo Tradicional, em geral, e da Fraternidade São Pio X em particular, para sair da demasiada longa crise da Igreja universal?

Dom F.: Olhando para a situação tal como acabamos de a descrever, é certo que os que tentam viver segundo os princípios tradicionais, poderiam facilmente** tornar-se como um polo, um farol, tendo um papel muito importante, mas difícil** de realizar. Penso que nos próximos anos devemos, sobretudo, aliar firmeza, paciência e misericórdia para poder ajudar esse movimento, sinceramente desejoso da restauração da Igreja. O que podemos oferecer-lhe é, de um lado, o amor pela liturgia tradicional e, de outro, a sã doutrina não somente aprovada pela Igreja, mas imposta por ela durante séculos; penso especialmente na doutrina escolástica, na doutrina de Santo Tomás.

P.B.: A vossa obra está implantada em cinco continentes. Quais os lugares ou países mais encorajadores para o ministério dos vossos padres?

Dom F.: Tudo depende do que se considera encorajador para o ministério dos padres. Se se toma como critério de encorajamento o sucesso fácil, um desenvolvimento relativamente importante, conversões numerosas, é preciso colocar os Estados Unidos entre os primeiros. Se, pelo contrário, o critério é um trabalho mais em profundidade, forçosamente menos espetacular, pode-se então dizer que em toda a parte o apostolado dos nossos padres é encorajador. Quando se vêem todas essas escolas, toda a juventude, as famílias numerosas e mesmo o apoio às pessoas idosas, é certo que vários países da Europa merecem a palma.

Nos países de missão há sempre um sabor de exploração… o nosso apostolado, em África, está em pleno desenvolvimento. A Ásia oferece um potencial extraordinário de conversões. En todas as missões, o que falta cruelmente são padres. Seriam necessários muitos mais, apenas para responder aos pedidos dos fiéis da África e da Ásia.

P.B.: Qual o lugar do canto gregoriano nos locais de culto servidos pela Fraternidade São Pio X? Em vossa opinião, do ponto de vista pastoral, pode estender-se a sua influência e como melhor se pode conseguir isso?

Dom F.: Sendo a liturgia o centro das nossas preocupações, dado que o primeiro fim da Fraternidade é o sacerdócio Católico e que este está intimamente ligado à celebração do Santo Sacrifício da Missa, é envidente o lugar importante que damos ao canto litúrgico. O canto litúrgico, durante mais de um milhar de anos, foi o canto gregoriano. Este praticamente desapareceu da liturgia moderna, ainda que, aqui e ali, suscite um pouco de interesse. Entre nós, o canto gregoriano é, simplesmente, a base da Missa cantada ou da Missa solene. Em todos os nossos seminários, os seminaristas são obrigados a aprender os elementos essenciaias do canto e, na medida do possível, transmiti-los aos fiéis.

Como estender a influência deste canto, que sempre foi considerado pela Igreja como um sacramental? Isso depende muito das circunstâncias. É preciso, primeiro, encontrar um mestre de côro competente, depois formar um côro que poderá, a seguir, ajudar o conjunto dos fiéis a tornar sempre mais bela a santa liturgia Católica e Romana. Não penso que haja remédios milagrosos. Há um adágio que diz que a graça não retira a natureza. Se há um lado sobrenatural, de graça, no canto gregoriano, este, todavia, continua submetido às regras habituais da música e, assim, supõe as competências humanas e artísticas necessárias. Precisamos de trabalhar na formação de certo número de nossos fiéis, seja para acompamhamento de órgão, seja para canto gregoriano, o que tentamos fazer nas nossas escolas.

Estender a influência do canto gregoriano significa, também, tornar amada esta bela música, mas como não se ama o que se desconhece, é preciso começar por dá-la a conhecer, depois apreciar e, finalmente, amá-la. Sendo o gregoriano, em relação à música clássica, desprovido de acordes harmônicos, dirige-se ao espírito e à alma mais do que aos sentidos. Não tem, por si próprio, a atração que poderá ter uma música polifônica, mas tem a vantagem de ser universal, como dizia São Pio X, quer dizer, que é agradável a todas as civilizações quaisquer que sejam. É uma música elevada, exigente, e que não se pode hesitar propôr como desafio, porque no fundo do homem existe o amor das dificuldades a vencer, dos desafios a enfrentar.

P.B.: Pode-se saber se são satisfatórias as discussões doutrinais que alguns dos vossos representantes mantêm com as autoridades romanas?

Dom F.: Que se entende por satisfatório? É muito subjetivo. Respondem as discussões às nossas esperanças ou às esperanças das autoridades romanas? Dadas as divergências com as quais foram abordadas, parece-me prematuro querer dar uma resposta, visto que não estão terminadas. Penso que há elementos que nos decepcionam e, ao mesmo tempo, outros que dão uma certa esperança para o futuro. Não penso poder responder claramente à sua pergunta por um sim ou por um não. Parece-me que não se pode esperar frutos imediatos de tais discussões, mas há troca de pensamento, de um pensamento que ainda deve amadurecer. Temos esperança de que esses contatos contribuam para certas correções, mas não creio que seja num futuro próximo.

Retirado de Dici.org