A vocação de irmão na Fraternidade São Pio X

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Os irmãos que estão no Seminário Nuestra Señora Corredentora, na Argentina, juntamente com o Pe. Jesus Mestre ROC, ao fundo

 

Um suboficial, um trabalhador manual, um semi-irmão? O que é, pontualmente, um irmão da Fraternidade São Pio X?

“Pobrezinho, não pôde ser sacerdote… Pois bem… é irmão!” Eis aqui um comentário que fazem alguns fiéis quando ficam sabendo que um jovem ingressou como irmão na Fraternidade São Pio X.

Muitos vêem nele uma espécie de suboficial da Igreja. Por isso, o definem pejorativamente.

Outros o consideram fundamentalmente como um trabalhador manual, que descarrega os sacerdotes das preocupações materiais para dedicarem-se mais livremente às coisas de Deus. O irmão seria como que um braço que permitiria aos sacerdotes estarem mais disponíveis para com Deus.

Outros, por fim, estabelecendo uma comparação entre os irmãos da Fraternidade e os irmãos capuchinhos ou dominicanos, ficam com a impressão de que os irmãos da Fraternidade são semi-irmãos; seu estado na religião seria inferior ao dos capuchinhos ou dominicanos.

 

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O irmão Juan de Dios trabalhando no apiário

 

Morte ao velho homem

Em primeiro lugar, o fato de identificar a vocação de irmão e a de suboficial ou de trabalhador manual não me parece muito elogioso para os suboficiais ou os trabalhadores manuais. De fato, não há ofícios “tontos”; há gente “tonta”…

A respeito dos jovens que respondem à vocação de irmão afim de compreender o sentido do que fazem, é necessário recordar dois aspectos indivisíveis de toda ascensão a Deus.

Se o homem fosse naturalmente bom, ser-nos-ia suficiente o desenvolver o melhor de nós mesmos para alcançar a perfeição. Sem embargo, triste comprovação, temos más tendências. O homem velho de que fala São Paulo luta contra os anseios do homem novo. Como conseqüência, para remontar-se a Deus, não basta dirigirmo-nos a Ele de todo coração, senão que é preciso também, como condição prévia, desapegar-nos de tudo o que pode impedir ou frear nossa ascensão a Ele.

 

Um meio mais seguro para salvar-se

O postulante para irmão, tendo compreendido, ao menos parcialmente, a necessidade da vida ascética para alcançar a vida mística, inicia generosamente o caminho dos conselhos evangélicos.

Esta via distingue-se da dos mandamentos. Para ser grato a Deus, todo homem deve observar os mandamentos: amar a Deus sobre todas as coisas e amar a seu próximo como a si mesmo por amor a Deus.

Sem embargo, para observar mais facilmente os mandamentos, para chegar mais facilmente a Deus, existe um caminho mais curto, mais direto, mais seguro que aquele que leva o comum dos mortais. Este caminho não afasta o homem da via dos mandamentos senão que facilita sua observância.

Para amar a Deus sobre todas as coisas é necessário evitar todo apego desordenado às criaturas. Pois bem, temos a tendência natural de ficar ancorados na terra, ou a deslizar-nos pelo plano escorregadio dos prazeres, ou bem a apegar-nos a nossa maneira de ver as coisas ou a nossa maneira de agir. Para cortar de uma vez todas estas tendências os irmãos fazem os votos de pobreza, castidade e obediência.

 

Um triplo compromisso

Os três votos têm sua fonte na Sagrada Escritura. Nos Evangelhos, Nosso Senhor Jesus Cristo convida um jovem rico a ir atrás dEle pelo caminho da pobreza. Diz-lhe: “Se quereres ser perfeito, vai, vende tudo o que tem, dá aos pobres e terás um tesouro no céu; então, vem e segue-me” (São Marcos, 10, 17-22).

Em outra ocasião, propõe às almas generosas segui-lo ao longo da via da obediência: “Se alguém me ama, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e segue-me” (São Mateus, 16, 24-28).

Por fim, em outra circunstância, Nosso Senhor fala daqueles que se fizeram eunucos a si mesmos pelo Reino dos Céus, aludindo assim ao voto de castidade perfeita (São Mateus, 19, 12).

Deste modo, a triple renúncia dos irmãos tem seu fundamento nos Evangelhos. Contudo, já no Antigo Testamento consta um episódio que figura este convite de Deus a servi-lo no rastro dos três votos.

Trata-se da passagem do Gênesis na qual Deus aparece a Abraão e lhe diz: “Sai de tua terra, de tua parentela e da casa de teu pai”. Quando Deus chama as almas a Si, pede-lhes desapegar-se de certos bens. Mas esta renúncia não é mais que a parte negativa de seu compromisso.

O compromisso dos irmãos é, primeiro, algo positivo. Neste caso, trata-se de sua consagração a Deus. E como sua consagração é total, pertencem inteiramente a Deus. Desde seus primeiros votos, transformam-se realmente em almas consagradas. Assim como um cálice é um objeto consagrado, do mesmo modo, todo seu ser fica consagrado a Deus.

Como conseqüência, todas as ações que realizam, mesmo que as mais simples, adquirem uma significação religiosa. Isto é o mais formoso, o maior de sua vocação. Que o irmão seja cozinheiro, jardineiro, secretário ou professor, tudo isso é secundário em relação a sua vocação religiosa. O que especifica a vocação de irmão é a entrega total, plena e inteira de sua pessoa a Deus.

 

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O irmão Francisco reparando o telhado do Seminário

 

Modelo para sacerdotes

Em relação aos votos, longe de serem inferiores aos sacerdotes, os irmãos são para eles luz, referência e modelo. De fato, os sacerdotes da Fraternidade, dos três votos de religião, não fazem mais que o voto da castidade. Devem, sem dúvida, ter o espírito de pobreza e praticar a virtude da obediência, mas o que põe em jogo, sob esse aspecto, é de menor amplitude que o que fazem os irmãos.

Os sacerdotes têm seu próprio automóvel, freqüentemente têm seu computador e livros que lhes pertencem. E podem apegar-se a essas coisas… Por isso é muito conveniente para os sacerdotes que tenham irmãos em suas comunidades, para que lhes recordem com suas vidas o ideal ao qual devem tender eles mesmos. Através de seu exemplo os irmãos ajudam os sacerdotes a conservar o espírito religioso.

Dom Lefebvre era religioso, e se decidiu constituir a Fraternidade como uma sociedade de vida comum sem votos, não foi para afastar os sacerdotes do espírito religioso, senão unicamente pelas dificuldades práticas que teria envolvido para os subordinados os votos de pobreza e de obediência. Se tivessem passado o tempo pedindo autorizações tendo em vista as necessidades do apostolado…

Assim, pois, os irmãos têm uma vocação maravilhosa, uma vocação absolutamente positiva. Como toda vocação, define-se em relação a Deus e não em relação ao homem. Os irmãos, a propósito, vivem diariamente em uma dependência muito próxima de seus superiores em virtude do voto de obediência; mas este voto não tem sua razão de ser mais que em Deus.

Longe de serem, antes de nada, trabalhadores manuais, os irmãos – como todo sacerdote – são homens de Deus. Por exemplo, o irmão Cirilo Maria, que é professor de latim no Seminário de Flavigny, é irmão-professor e não professor-irmão. O irmão Bento, que é jardineiro, é irmão-jardineiro e não jardineiro-irmão. O irmão João José, que confecciona as batinas, é irmão-alfaiate e não alfaiate-irmão.

Ao insistir no aspecto religioso do irmão, não relego o âmbito profissional. Os irmãos quase sempre se encarregam de algum ofício e isso favorece seu desenvolvimento. O fato de poder praticá-lo no marco da vida religiosa é muito enriquecedor para eles. Por isso, buscamos na medida do possível cultivar ou desenvolver os talentos de nossos irmãos para seu equilíbrio e o bem de nossas comunidades.

 

Apóstolos com zelo

Um dos mais maravilhosos efeitos da vida escondida em Deus é a fecundidade apostólica. Não é exatamente pensar que os irmãos da Fraternidade podem ser apóstolos como os sacerdotes, não obstante a vida oculta que eles levam. Sua sublime oblação interior os transforma pouco a pouco em Deus e faz que as graças desçam sobre as almas.

A estes atos interiores agregam-se para alguns um apostolado concreto. De fato, se os irmãos estão chamados a aliviar os sacerdotes em suas tarefas materiais (economato, jardinagem, cozinha, manutenção dos edifícios, secretariado), condiz com sua vocação dar aulas de catecismo, dirigir o coro ou trabalhar em uma escola.

Durante estes últimos anos onze irmãos foram designados em nossas escolas. Isso é uma grande graça para a Fraternidade. Estando presentes as 24 horas junto com as crianças, os edificam com seu exemplo e cumprem uma missão complementar à do sacerdote. Quantos mais forem, tão mais profundo será o trabalho realizado nas crianças.

Jovens generosos, que não estão chamados ao sacerdócio nem tampouco têm uma vocação puramente manual, têm a tendência a excluir a priori a possibilidade de uma vocação, precisamente quando alguns quiçá poderiam encaixar-se no contexto de uma escola… Oxalá que os irmãos que atualmente temos sejam os pioneiros dos irmãos educadores! Quanto tem para receber nossa juventude de parte destes bons e santos irmãos!

 

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Um irmão trabalhando na secretaria

 

Cifra recorde de vocações

Os irmãos da Fraternidade são religiosos de pleno direito e não menos que os capuchinhos ou dominicanos. O termo “religioso” resume, expressa e descobre perfeitamente sua vocação. O irmão da Fraternidade é um religioso. Tem, por isso, todos os deveres de um religioso mas também todos seus privilégios. É muito importante compreender isto para promover sua vocação. Da abundância de novas vocações religiosas depende em grande parte a santidade dos sacerdotes e sua influência apostólica.

Os irmãos constituem um auxílio real para os sacerdotes. Permitem-nos levar uma vida em comum mais regular. Eles compartem nossa vida de oração e concorrem em nosso apostolado segundo seus próprios dons.

Tenho a alegria de comprovar, de uns anos para cá, o interesse que este tipo de vocação suscita. Como exemplo, durante o último ano acadêmico houve dezessete irmãos no Seminário de Flavigny: cinco postulantes, quatro noviços e três professos finalizando sua formação, um irmão em ano sabático e os outros quatro permanentes. Não duvido que este despertar de vocações religiosas propagar-se-á graças ao exemplo de nossos irmãos e vossas orações.

 

O antes…

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… e o depois, no dia da tomada de hábito.

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Formação de três anos

A formação recebida ao longo de três anos no Seminário ajuda a que os jovens melhorem com a graça de Deus. Não se pede uma santidade perfeita quando se entra no seminário.

O ano de postulantado, que culmina com a tomada de hábito, e o posterior ano de noviciado, que se encerra com a emissão dos primeiros votos, apontam o caminho através do qual os jovens possam dar o melhor de si mesmos. Durante este ano exercitam-se na prática dos três votos e dividem sua jornada entre a oração, os estudos e as atividades manuais, sem esquecer os tempos de recreação.

Depois de dois anos, o terceiro permite-lhes enraizarem-se mais nas virtudes e desenvolver certo sentido prático. Ao fim deste terceiro ano, o professo é enviado a um priorado ou a uma escola, seja na França seja em um país de missão.

O que é, então, que faz falta para converter-se em irmão da Fraternidade? A vocação identifica-se com o dom de si mesmo. Está chamado aquele que possui o desejo profundo de servir a Deus e que tem docilidade para deixar-se formar. A isso se agrega um mínimo de dons naturais, e saúde suficiente.

Para ver mais claramente, o melhor meio é falar do tema com algum sacerdote e passar uma pequena estadia no Seminário. Esta passagem pelo Seminário é, com frequência, um fator decisivo para dissipar certas ilusões ou, pelo contrário, para confirmar uma vocação.

 

Rev. Pe. Patrick Troadec
Artigo publicado na revista “Guarde a Fé!” da Fraternidade Sacerdotal São Pio X no Brasil, número 43.