Carta aos amigos e benfeitores n.84

Caros Amigos e Benfeitores,

 

Não é necessário alongar-me muito para constatar o estado de crise em que se encontra nossa Santa Mãe Igreja. No entanto, nos últimos tempos, uma série de sinais preocupantes nos levam a crer que estamos entrando em uma fase mais intensa de desordens e confusão. A perda da unidade da Igreja se torna cada vez mais visível, tanto no âmbito da fé e dos costumes como no da liturgia e do governo, e não é arriscado pressagiar um período muito difícil pela frente. Salvo um milagre, é de temer que chegue um tempo em que as almas serão ainda mais entregues a si mesmas, não encontrando apoio – tão necessário – por parte da hierarquia como um todo.

 

Uma nova misericórdia em socorro das reformas conciliares

 

Entre outros exemplos para ilustrar o que dizíamos, citemos uma palestra que foi proferida pelo Cardeal Oscar Andres Rodriguez Maradiaga, coordenador do grupo de cardeais aos quais o Papa Francisco confiou a reflexão sobre a reforma da Cúria Romana. Esta conferência, realizada em 20 de janeiro de 2015 na universidade de Santa Clara, na Califórnia, tem o mérito de oferecer um panorama da visão que guia os conselheiros mais próximos do papa. Uma primeira idéia é que ele tem a intenção de realizar suas reformas – e é preciso compreender aqui o conjunto das reformas empreendidas desde o Concílio Vaticano II – de tal forma que se tornem irreversíveis. Essa vontade de nunca voltar atrás também se encontra expressa em outras passagens da mesma conferência.

No entanto, as reformas já empreendidas estão em perigo, reconhece o cardeal hondurenho, porque causaram uma grave crise na Igreja. A razão é que qualquer reforma deve ser animada por um espírito que é sua alma. Mas as reformas conciliares não respeitaram esse princípio. Ao contrário, elas foram realizadas, diz ele, deixando intacto o velho espírito, o espírito tradicional, resultando que estas reformas em parte não fossem compreendidas e que não se seguissem delas os efeitos esperados, até o ponto de causar uma espécie de esquizofrenia na Igreja.

O Cardeal Rodriguez Maradiaga afirma que não é preciso voltar atrás. Mas é preciso, diz ele, infundir um espírito que corresponda às reformas, a fim de motivá-las e dinamizá-las. Este espírito é a misericórdia. E, de fato, o Papa acaba de anunciar um Ano Santo da Misericórdia…

 

A verdadeira misericórdia segundo o Sagrado Coração de Jesus

 

De que se trata exatamente? Em si, a misericórdia é uma palavra que é apreciada por todo católico, porque exprime a manifestação mais comovente do amor de Deus para conosco. Nos séculos passados, as aparições do Sagrado Coração foram uma revelação mais intensa desta misericórdia de Deus para com os homens. É preciso dizer igualmente da devoção ao Coração doloroso e imaculado de Maria. No entanto, a verdadeira misericórdia, que implica esse primeiro movimento tão comovedor de Deus para com o pecador e sua miséria, continua em um movimento de conversão da criatura a Deus: “Deus não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva” (Ez. 33, 11). Daí a insistência dos Evangelhos sobre o dever de conversão, renúncia e penitência. Nosso Senhor chegou a dizer: “Se não fizerdes penitência, todos perecereis” (Lc. 13, 5). Este apelo à conversão é a substância do Evangelho, e o encontramos tanto em São João Batista como em São Pedro. Quando os pecadores, movidos pela pregação, perguntavam o que deviam fazer, ouviram estas palavras: “convertei-vos e fazei penitência”. A Santíssima Virgem nas aparições nestes últimos séculos, tanto em La Salette como em Lourdes ou Fátima, dizia a mesma coisa: “oração e penitência”.

Mas os novos pregadores de uma nova misericórdia insistem tanto no primeiro passo dado por Deus em relação aos homens perdidos pelo pecado, pela ignorância, pela miséria, que frequentemente omitem este segundo movimento que deve vir da criatura: o arrependimento, a conversão, a rejeição do pecado. Finalmente, a nova misericórdia não é nada mais do que um olhar complacente sobre o pecado. Deus o ama… independente de tudo.

 

A nova misericórdia cortada do arrependimento

 

Os exemplos de misericórdia dados pelo Cardeal Maradiaga infelizmente deixam pouco espaço para dúvida. Ele concede um lugar pleno na vida da Igreja aos cristãos que romperam os laços de seu casamento e fundaram uma família “recomposta”. Sem mais… E até mesmo anuncia um céu igual ao dos santos para aqueles que deixaram a Igreja quando se encontravam em situações de pecado. Ele condena claramente os ministros da Igreja por terem expressado sua desaprovação a esses pobres pecadores… Esta é a nova misericórdia, a nova espiritualidade que deve fixar para sempre as reformas das instituições e dos costumes da Igreja, tanto aquelas já realizadas desde o Concílio, como as novas que se propõem agora! Isto é extremamente grave. Mas isto também pode nos ajudar a entender por que somos tão contrários ao chamado “espírito do Concílio”. Na verdade, foi em nome deste novo espírito que as reformas foram introduzidas, um espírito que certamente não é tradicional. Nós dizemos que este espírito corrompeu todo o Concílio, até mesmo aquelas partes se podem compreender de um modo católico… Este espírito é uma adaptação ao mundo, é um olhar complacente às suas quedas e tentações em nome da bondade, da misericórdia, do amor. Assim, por exemplo, não se diz mais que as outras religiões são falsas, declaração que, no entanto, é do Magistério de todos os tempos. Não se ensina mais sobre os perigos do mundo, e até mesmo o diabo desapareceu quase completamente do vocabulário eclesiástico faz 50 anos. Este espírito explica os sofrimentos atuais da nossa Santa Mãe Igreja, cuja autoridade está diminuindo, apesar de suas aberturas ao mundo, perdendo cada dia mais membros, sacerdotes, e vendo diminuir sua influência na sociedade contemporânea. Irlanda, outrora tão católica, onde o “casamento” entre pessoas do mesmo sexo acaba de ser legalizado, é um exemplo angustiante.

É possível truncar a misericórdia, cortá-la da penitência necessária, assim como faz o Cardeal Maradiaga, com o propósito declarado de dar um novo espírito para as reformas conciliares, rompendo com o espírito tradicional? Certamente não! É ele o intérprete do pensamento do Papa Francisco nesta palestra pronunciada três meses antes da bula de proclamação do Ano Santo? É muito difícil sabê-lo, pois as mensagens que chegam de Roma faz dois anos são contraditórias, tal como o reconhecem em privado alguns cardeais e muitos vaticanistas abertamente.

 

Saber discernir entre uma misericórdia truncada e uma misericórdia inteira

 

Teríamos, então, que privar-nos das graças de um Ano Santo? Pelo contrário. Quando as comportas da graça estão abertas, deve-se receber em abundância! Um Ano Santo é uma grande graça para todos os membros da Igreja. Vivamos a verdadeira misericórdia, como nos ensinam todas as páginas do Evangelho e da liturgia tradicional. Em conformidade com o “discernimento prévio”[1] sobre o qual Dom Lefebvre fundou a conduta da Fraternidade São Pio X nestes tempos de confusão, rejeitemos uma misericórdia truncada e vivamos uma misericórdia inteira.

Uma palavra que encontramos tantas vezes e que, obviamente, tem que estar nos nossos lábios é miserere. Esta palavra indica, de nossa parte, o reconhecimento de nossa miséria, então o apelo à misericórdia de Deus. A consciência de nossa miséria nos faz pedir perdão, enche-nos de contrição, e é acompanhada da vontade de não pecar mais. O verdadeiro amor que inspira esse movimento nos faz entender a necessidade de reparar pelos nossos pecados. Daí o sacrifício expiatório e satisfatório. Estes diferentes movimentos são necessários para a conversão que obtém o perdão do Deus de misericórdia, que – na verdade – não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva. A pretensão à felicidade eterna é completamente ilusória naquele que não quer deixar seus hábitos de pecado, que não quer seriamente fugir das ocasiões graves de queda, nem toma o propósito de não cometê-lo novamente.

Pregar uma misericórdia sem a necessária conversão dos pobres pecadores seria uma mensagem vazia de sentido para o céu, uma armadilha diabólica que tranqüilizaria o mundo em sua loucura e rebelião cada vez mais aberta contra Deus. Ora, o céu é categórico: “não se zomba de Deus” (Gal. 6, 7). A vida dos homens no mundo de hoje clama a ira de Deus por todas as partes. O massacre, aos milhões, dos inocentes no ventre de suas mães, a legalização das uniões contra a natureza, a eutanásia, são todos crimes que clamam ao céu, sem mencionar todas as espécies de injustiças…

 

A Misericórdia segundo o Coração doloroso e imaculado de Maria

 

Levemos a sério o apelo à misericórdia como o povo de Nínive! Vamos em busca da ovelha perdida, rezemos pela conversão das almas, pratiquemos tanto quanto pudermos todas as obras de misericórdia, tanto as materiais como principalmente as espirituais, porque são estas as mais necessárias.

Se Nossa Senhora pôde dizer, há mais de um século, que ela tinha dificuldade em reter o braço vingador de seu Filho… o que ela diria hoje?

Nós, queridos fiéis, devemos aproveitar deste Ano Santo para pedir à misericórdia de Deus uma conversão cada vez mais profunda à santidade, para implorar graças e o perdão de sua infinita misericórdia. Vamos preparar o centenário das aparições de Nossa Senhora em Fátima praticando e propagando com todas nossas forças a devoção ao seu Coração doloroso e imaculado, como ela pediu. Suplicamos mais uma vez que os seus pedidos, em particular a consagração da Rússia, sejam finalmente escutados, como se deve. Não há oposição entre esses pensamentos voltados à Virgem Maria e o Ano da Misericórdia, pelo contrário! Não separemos aqueles que Deus quis unidos: os dois Corações de Jesus e de Maria, como explicou Nosso Senhor à Irmã Lúcia de Fátima. Cada distrito da Fraternidade irá comunicar as obras particulares a praticar a fim de receber todas as graças que a Misericórdia divina nos concederá durante este Ano Santo.

Assim, colaboremos da melhor maneira possível com a vontade misericordiosa de Deus para salvar todos os homens de boa vontade.

Que Nosso Senhor vos abençoe por vossa generosidade e, neste dia de Pentecostes, conceda-vos graças abundantes de fé e de caridade.

 

Bernard Fellay +

Domingo de Pentecostes, 24 de maio de 2015

 

[1] “Na prática, nossa atitude deve se fundar em um discernimento prévio, necessário para a circunstância extraordinária que significa um papa conquistado pelo liberalismo. Eis aqui este discernimento: quando o papa diz alguma coisa de acordo com a tradição, o seguimos; quando diz alguma coisa contrária à nossa fé, ou quando sustente ou deixe fazer algo que põe em perigo nossa fé, então não podemos segui-lo! Isto pela razão fundamental de que a Igreja, o Papa e a hierarquia estão à serviço de nossa fé. Não são eles que fazem a fé, devem servir a ela. A fé não se faz, é imutável, a fé se transmite.” Dom Lefebvre, Do liberalismo à apostasia, Ed. Permanência, 1991, p. 245.