Acordos com Roma?

editorial de fsspx.com.br

Muito se fala hoje sobre possíveis acordos da FSSPX com Roma. Há, de fato, um certo frenesi ao redor da questão, para não dizer um fetiche pela legalidade, por pessoas que não compreendem a real posição da Fraternidade na atual crise da Igreja, e muito menos compreendem a gravidade e a extensão da mesma crise. Além disso, o fato de estar havendo discussões teológicas com Roma causa uma espécie de falsa esperança de que tudo se resolveria como num passe de mágica. A realidade, no entanto, é bem outra.

Tais discussões têm como fim mostrar às autoridades eclesiásticas que a Fraternidade está plenamente unida ao Magistério Perene da Igreja Católica Apostólica Romana, à doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou como se diz, à Tradição da Igreja, ou seja, que não haveria qualquer perigo de heresia, de ensino contrário à doutrina dos Papas.

Que a Fraternidade não ensina heresias é evidente, mas ao acompanhar a história da fundação de nossa Congregação – leia um resumo em nosso Site clicando aqui – vê-se claramente uma sequência de injustiças operadas pelo abuso da autoridade de bispos modernistas, uma confusão gerada por mentiras e perseguições canonicamente ilícitas na tentativa de suprimir nossa Congregação que fora legítima e canonicamente erigida em 1970.

Com a anulação oficial do decreto da excomunhão dos bispos sagrados por S.E.R. Dom Marcel Lefebvre em 1988 e o esclarecimento por parte do Papa de que a Missa Tridentina nunca fora abrogada, Roma por si mesma se colocou num impasse: os motivos que deram causa à perseguição da FSSPX desapareceram… portanto, logicamente, a mesma perseguição, por parte das autoridades hierárquicas da Igreja, deve desaparecer, pois não pode existir condenação sem motivo averiguado: é um princípio básico do Direito. Ora, nunca houve um legítimo julgamento, no entanto, sempre fomos perseguidos e injustamente condenados.

Portanto, como conclusão lógica, Roma se vê obrigada a reconhecer publicamente a legitimidade da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Não se trata de acordos, pois isso não faremos até que a Crise se resolva e não podemos fazer porque a Tradição pertence à Igreja. Não aceitaremos qualquer espécie de compromissos ou submissão às autoridades locais que não respeitam o seu compromisso de Bispo (“conservar integralmente a Tradição dos Apóstolos” – Pontifical Romano) e que sempre nos perseguiram.

Quem tem que se explicar, portanto, não somos nós, mas aqueles que se afastaram da Tradição da Igreja Católica, apesar dos seus compromissos. Vamos a Roma simplesmente para dar testemunho da Verdade, pois ela os libertará do liberalismo a que se submeteram e que está destruindo o que restou do catolicismo. Rezemos para que o Papa tenha forças de Consagrar a Rússia ao Imaculado Coração de Maria, pois ela mesma prometeu o Triunfo de Seu Imaculado Coração. Como dizia Dom Lefebvre, a solução da Crise não pode vir senão do Papa e da Igreja. Não somos nós que vamos resolver a crise da Igreja, queremos apenas o fim das perseguições injustas e a paridade de armas para lutar contra aqueles mesmos que nos condenam.

Perguntas & Respostas:

1) Então, de fato, a FSSPX não está em plena comunhão com a Igreja e o Papa?

Resposta: Essa expressão não significa nada. Não passa de um golpe midiático para difamar a Fraternidade. Doutrinalmente talvez estejamos mais unidos à Igreja e ao Papa do que qualquer outro. O Magistério do Papa e dos bispos é nada mais do que o órgão da Tradição. A Tradição, bem como a Escritura Santa, está acima da pessoa do Papa. Este não pode portanto contradizer a doutrina de todos os Papas anteriores. A partir do momento que a pessoa do Papa se afasta da Tradição, impondo ensinamentos novos contrários ao Magistério Perene da Igreja, somos obrigados a resistir, pela Fé.

2) Então a FSSPX é sedevacantista?

Resposta: Não, de forma alguma. Não estamos depondo o Papa pois da mesma forma como um pai não deixa de ser um pai se pedir ao filho que roube para sustentar a família, desobedecendo aos ensinamentos de Deus (evidente que o filho deve desobedecer ao seu pai para obedecer a Deus), o Papa não necessariamente deixa de ser Papa se por ser vítima do liberalismo se lança numa experiência, numa tentativa de se abrir ao mundo inspirado pelos princípios revolucionários, deixando ensinamentos contrários aos de Deus. Esse tipo de julgamento o fará a história, na pessoa dos futuros Papas. Não nos cabe fazer esse julgamento, pois não temos autoridade para isso e nem é nossa intenção. Um bom advogado defendendo um bom dossiê não se pode arvorar em Juiz.

3) O Motu Próprio Summorum Pontificum não foi o suficiente?

Resposta: Suficiente para que? Sim, suficiente para reafirmar em seu §2 que Tudo na Igreja Católica deve ser conforme a Tradição, quer a doutrina, quer a moral, quer a Liturgia; para restabelecer a Verdade que a Missa tradicional nunca foi abrogada; para decidir que os membros da Igreja não necessitam licença da parte dos bispos para celebrar a missa tradicional ou assistir a ela. Mas este documento não é suficiente para restabelecer a paz, porque deixa uma pergunta em aberto: será que um rito que não tem a preocupação de fidelidade à Tradição, que permanece ambíguo e que favorece a heresia pode ser considerado Forma do Rito Romano? Por isso a crise na Igreja alastra-se como nunca antes se viu na história. De qualquer forma, a Missa Tridentina continua sendo um rito extraordinário para a Igreja Oficial. Ora, ela não é um rito extraordinário, mas sim a Missa Católica por excelência, conforme a bula “Quo Primo Tempore” de Pio V (não abrogada). E mesmo assim o problema não é somente a Missa, mas principalmente a Fé, e não cessaremos nosso combate enquanto o modernismo não for expulso de Roma.

4) Mas o problema da legalidade ainda se impõe. O que pensar sobre isso?

Resposta: A legalidade, que aqui se apresenta como um possível problema para a Fraternidade, não é um problema da Fraternidade, mas sim das autoridades que não concedem uma legalidade aos que trabalham real e eficazmente para a finalidade da Igreja, para o seu Bem comum: salvar as almas com a Tradição e a Escritura Santa. A legalidade  é devida aos que, nesses 40 anos, lutaram e resistiram em defesa da fé. A legalidade tem um fim e quando esse fim não pode ser alcançado pela legalidade, entra-se em Estado de Necessidade ou de legalidade extraordinária chamada também de suplência, como o prevê o mesmo direito canônico. O próprio Direito Civil absorveu esse princípio ao qual nos submetemos e ao qual o Papa deve se submeter pois é o Direito Divino positivado. “A Lei Suprema é a salvação das almas, com os meios instituídos por Jesus Cristo”, diz o princípio desse Direito. Se Dom Lefebvre não tivesse levado adiante seu projeto, talvez hoje não existisse sequer a Missa Tridentina com a sua teologia do sacrifício. O que queremos é que nos seja feita justiça.

5) Suponhamos que o Papa conceda à Fraternidade a forma de uma Prelazia Pessoal, como dizem muitas fofocas na Internet. O que isso significa?

Resposta: A Prelazia Pessoal é uma forma de legalidade na Igreja que nos faz depender diretamente de Roma. Dar uma forma qualquer de legalidade para a Fraternidade é uma obrigação da autoridade já que a Fraternidade não sofre mais de injusta censura e que assim pode continuar a sua atividade: combater o concílio Vaticano II para restaurar a Tradição na Igreja com a solicitação da ajuda da autoridade. A prelazia Pessoal significa uma situação jurídica na Igreja mais fácil para a Fraternidade, visto o mal-entendimento dos bispos para com o nosso trabalho; assim não teremos que nos submeter aos bispos locais, senão que diretamente ao Papa. Esta  situação jurídica para a Fraternidade só faz sentido depois da Igreja Oficial reconhecer a legitimidade do combate da mesma FSSPX.

6) E se o Papa exigir a aceitação do Concílio Vaticano II por parte da FSSPX?

Resposta: Não podemos aceitar visto que nos obriga a contradizer a Tradição, o que nem um Apóstolo ou mesmo um anjo pode fazer. Não buscamos acordos nem compromissos sobre um depósito que não nos pertence, apenas desejamos a justiça duma situação jurídica que nos permita paridade de armas contra os que nos perseguem, principalmente os bispos locais de onde estão localizados nossos Priorados.

7) Mas e se se tratar de um golpe… E se o Papa não aprovar a sagração de novos bispos quando os 4 atuais estiverem incapacitados de conferir sacramentos? Não será isso uma armadilha de Roma?

Resposta: O futuro a Deus pertence. Nossa posição é muito clara, mesmo para aqueles que não a entendem. Não teremos medo de repetir 1988.

Para finalizar, vale a pena ler e reler muitas vezes a Declaração que fez Dom Lefebvre em 1974 que deu origem às perseguições injustas [clique aqui para ler]. Isso basta para as almas de boa vontade. Não temos medo de nossa posição, nem escrúpulo algum. Nossos Padres e Priorados encontram-se à disposição para qualquer esclarecimento.