I Domingo da Paixão

Quaresma Confinada

  Às vezes não percebemos que o fim da quaresma chegou muito rapidamente? E não constatamos, com certo desconforto, o pouco esforço que fizemos? Neste ano, o confinamento nos obriga a um maior cuidado; muitas distrações são naturalmente descartadas. Aproveitemos, pois, para nos preocuparmos com o essencial: a nossa salvação. Salvação cujo tempo privilegiado continua sendo a quaresma, e que se alcança com a penitência e as boas obras.

  Presos em casa, os espíritos mundanos preocupam-se em engordar. Outros se privam do essencial por medo do futuro e da fome. Essa abstinência profana pode ser transcendida pela moral cristã, que nos convida a praticar o jejum e a abstinência. As práticas da Igreja não são contrárias ao mundo; ao contrário, elas o sobrenaturalizam. Temos de aceitar as circunstâncias presentes, oferecendo, para reparação de nossos pecados, as privações que nos são impostas.

  A situação atual nos apresenta outra fonte de santificação: a convivência. Muito rapidamente pequenos defeitos tornam-se irritantes, e os assuntos menores tornam-se gigantescos. Pensemos que Cristo, ao falar dos critérios do Juízo Final, evoca somente obras de caridade, para nos mostrar a importância delas. Ele nos diz, inclusive, que “a Caridade cobre uma multidão de pecados”: acaso alguém não precisa ter os seus pecados perdoados? E mais: Nossa Senhora de Fátima convidou-nos enfaticamente para nos sacrificarmos pela conversão dos pecadores.

  Em Fátima, as aparições de Nossa Senhora aos três pastorzinhos foram precedidas pelas aparições do Anjo da Paz, como ele próprio se apresentou a Lúcia, Francisco e Jacinta. No verão de 1916, ele pediu às crianças que acrescentassem às suas orações alguns sacrifícios. E especificou, muito pedagogicamente, o que se deve entender por sacrifício: aceitar com submissão os sofrimentos que a Providência nos envia. Não se trata de inventar penitências para nós mesmos, mas de suportar com humildade as provações, os aborrecimentos e as dificuldades que a Providência nos dá.  Para esta Quaresma, não há necessidade de buscar penitências particulares. O confinamento já nos traz penitências; usemo-las para crescer espiritualmente. Temos sempre dificuldades em nossas vidas, que são como pedras no caminho da salvação – elas podem fazer com que tropecemos, mas também podemos usá-las para construir nossos degraus até o céu. Assim, uma Quaresma confinada pode vir a tornar-se uma Quaresma com muitos frutos.                                                                                                                 

Padre Jean-François Mouroux



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