A Santa Sé corrigiu o "Subsistit in" do Vaticano II?

Pe Álvaro Calderón, FSSPX
Professor do seminário da FSSPX em La Reja (Argentina)

Das respostas que alguns saúdam como um retorno à Tradição a respeito do ecumenismo.

Poucos dias depois do Motu Próprio “Summorum Pontificum”, a Santa Sé publicou umas “Respostas” que alguns saúdam como um retorno à Tradição a respeito do ecumenismo. Isso é certo? A Santa Sé corrigiu o famoso “subsistit in”? Esclareceu o texto do Vaticano II? O que devemos pensar deste documento?

 

As “Respostas a algumas perguntas relativas à doutrina sobre a Igreja”, publicadas pela Congregação para a Doutrina da Fé no dia 10 de julho passado, se inscrevem decididamente na “hermenêutica da continuidade”, promovida pelo atual Pontífice como panacéia universal dos males da Igreja pós-conciliar.

Deste documento podemos dizer que, debaixo de uma aparência mais tradicional, se maltrata a palavra, mas se guarda a coisa. Como talvez o leitor não me entenda de que palavra e de que coisa me refiro, passo a explicá-lo. Mas desde logo advirto que o assunto não é fácil.

Com ares de Tradição

Ao assumir o sumo pontificado, Bento XVI anunciou claramente qual seria a sua linha de ação. Segundo o seu diagnóstico, se depois do Concílio Vaticano II a Igreja entrou em crise, não foi porque o Concílio estivesse envenenado, mas porque este foi interpretado em ruptura com a Tradição. A solução, portanto, não estaria em abandoná-lo, mas em reinterpretá-lo em continuidade com o anterior. Isto explica em parte o retorno da Missa católica – somente em parte, porque ali há mistério de Deus –, e explica totalmente o documento de que tratamos aqui.

O texto desde as suas primeiras palavras manifesta uma intenção de continuidade com a tradição: “O Concílio Ecumênico Vaticano II não quis modificar a doutrina sobre a Igreja, nem se deve afirmar que a tenha mudado” (primeira resposta). Também a forma catequética que adota – cinco perguntas breves com respostas precisas – lhe confere ares de antiguidade.

E principalmente, enquanto ao conteúdo, recupera um tom negativo de anátema, ao que nos tínhamos desacostumado.

Às igrejas orientais cismáticas lhes diz que ““(…) a condição de Igreja particular, de que gozam essas venerandas Comunidades cristãs, é de certo modo lacunosa” (“defectu tamen afficitur” – quarta resposta) por não estar em comunhão com o Papa.

E às comunidades protestantes heréticas, diz que “estão privadas de um elemento essencial constitutivo da Igreja” (quinta resposta) por não ter conservado o sacerdócio e a Eucaristia. Isto é mais que suficiente para que os modernistas de vanguarda rasguem suas vestiduras.

Uma palavra má

Mas o coração do documento (respostas segunda e terceira) está na “hermenêutica da continuidade” que se faz da palavra “subsistit in”, utilizada pelo Concílio para expressar a relação entre a Igreja de Cristo e a Igreja católica: “A única Igreja de Cristo […] subsiste na Igreja católica” (“Lumen Gentium” nº 8). Como reconhecia o então Cardeal Ratzinger, em uma conferência publicada pelo “L’Osservatore Romano” em agosto de 2000 – cuja temática está estreitamente vinculada ao documento que analisamos –, se estava mudando a maneira tradicional de falar em prol do ecumenismo: “Com esta expressão [‘subsistit’] o Concílio se afasta da fórmula de Pio XII que, na sua encíclica “Mystici corporis Christi”, tinha dito: a Igreja católica ‘é’ (‘est’) o único corpo de Cristo. Na diferença entre ‘subsistit’ e ‘est’ fundamenta-se todo o problema ecumênico”.

A palavra é insólita e depois de quarenta anos continuam tratando de explicá-la. Naquela conferência, o Cardeal Ratzinger prosseguia dizendo: “A palavra ‘subsistit’ deriva da filosofia antiga, desenvolvida posteriormente na escolástica”. Mais insólito ainda, porque o Concílio evitou minuciosamente utilizar a linguagem escolástica e parece estranho que, justamente com a moderníssima intenção de abrir a via ecumênica, lhe venha a ideia de tomar emprestada esta expressão sofisticada.

O verbo “subsistir” isolado, sem “em”, não apresenta maiores dificuldades no seu significado; é próprio das substâncias que existem por si mesmas e não em outra coisa, à diferença das qualidades das coisas, como a brancura, que são realidades que existem em outra coisa. A filosofia antiga contrapõe o “subsistir” da substância com o “ser em” (inesse) ou “inesão” dos acidentes.

O difícil é entender a expressão “subsistir em”, que para Aristóteles teria parecido contraditória, porque – como acabamos de dizer – o que subsiste, não subsiste “em” nenhuma outra coisa.

A expressão se tornou necessária quando foi preciso explicar teologicamente nada menos que o mistério da encarnação do Verbo divino em uma natureza humana. Diz, por exemplo, Santo Tomás: “A pessoa de Cristo subsiste em duas naturezas; de onde se segue que, ainda que haja nele um só ser subsistente, se dá nele mesmo uma dupla razão de subsistência. Neste sentido se diz que a sua pessoa é composta, enquanto que um só ser subsiste em duas naturezas” (IIIª parte, questão 2, artigo 4).

Não pretendo que o leitor entenda o que ali o Santo Doutor afirma, somente quero assinalar por que razão elegeram o termo. Para abrir o caminho do ecumenismo, era preciso dilatar a noção da Igreja de Cristo, fazendo-a mais ampla que a noção de Igreja católica, de maneira que na Igreja de Cristo as sociedades cismáticas e heréticas tivessem um lugarzinho.

Mas para não cair na completa apostasia, era preciso afirmar, por outro lado, a unidade entre ambas as realidades. Para sair do atoleiro, a alguém lhe surgiu a genial ideia de comparar a união entre a Igreja de Cristo e a Igreja católica com a união entre Cristo Deus e Cristo homem. Somente do homem Cristo se diz que “é” Deus, e muito embora somente Deus “subsista em” Cristo [como homem], não por isso deixa de estar presente e operante nos demais homens; assim também somente da Igreja católica se pode dizer que “é” a Igreja de Cristo, ainda que esta seja uma realidade mais ampla que “subsiste na” Igreja católica, e, no entanto, está presente e operante nas Igrejas e nas Comunidades eclesiais que ainda não estão em plena comunhão com a Igreja católica. (“…nas Igrejas e nas comunidades eclesiais ainda não em plena comunhão com a Igreja católica, a Igreja de Cristo é presente e operante através dos elementos de santificação e de verdade nelas existentes” (segunda resposta). Resolvido o conflito!

Não é este o lugar para as discussões teológicas. Somente lhe digo que, para que a comparação possa funcionar, é preciso ter, primeiramente, uma compreensão nestoriana [1] do mistério da encarnação. Ademais e sobretudo, em Nosso Senhor Jesus Cristo se dá realmente a união de duas naturezas na unidade da pessoa divina, mas na Igreja não há absolutamente nada disto, exceto na mente enferma dos modernistas. A Igreja de Cristo é uma só, é a Igreja católica, que subsiste, sim, e subsistirá até o fim dos séculos segundo a promessa de Nosso Senhor. Mas subsiste Ela mesma, e nada “subsiste em” nEla, nem Ela “subsiste em” nada. Para o presente caso, empregar o “subsistit in” seria uma má expressão, e um Concílio não deveria dizer palavras más.

A coisa continua guardada

Esta complicada expressão, cheia de prestígio e de mistério, não é, contudo, senão a atraente mosca que distrai o peixe para que morda o anzol. Porque a verdadeira ruptura doutrinal não está tanto no “subsistit”, mas no que vem depois, que o nosso documento não deixa de colocar claro: “A verdadeira razão pela qual foi usada é porque expressa mais claramente o fato de que fora da Igreja se encontram ‘vários elementos de santificação e de verdade, que, como dons próprios da Igreja de Cristo, conduzem para a unidade católica’ (‘Lumen Gentium’, 8)” (terceira resposta).

O “elemento de verdade” próprio da Igreja de Cristo (mas não da Igreja católica) que possuiriam as comunidades não-católicas é principalmente a Sagrada Escritura, e os “elementos de santificação” são os sacramentos.

Pois bem, até antes do Concílio a teologia verdadeiramente católica não chamava a estas coisas “elementos eclesiais” (“elementa ecclesialia”, como diz a nota 4 das Respostas), mas “vestígios da Igreja” (“vestigia Ecclesiæ”, da Igreja de Cristo ou católica, que é o mesmo). As palavrinhas significam algo muito diferente. Vestígio significa rastro, e os vestígios de um edifício são os escombros que ficam depois de ser destruído. Por outro lado, os elementos são os princípios com os quais se constituem as coisas, como os tijolos com os quais se constrói o edifício. Evidentemente não são a mesma coisa.

A doutrina católica chamou “vestígios” a estes restos da Igreja que restaram entre os hereges e cismáticos porque, embora sejam sinais de que no passado ele pertenceram à Igreja de Cristo, no entanto, em posse destas sociedades, são restos inoperantes e mortos. Da Sagrada Escritura eles têm o livro, mas não têm a chave para compreendê-lo, pois não têm nem a fé, nem o magistério da Igreja. Também não possuem de modo apropriado os sacramentos. Quando Santo Tomás, por exemplo, se pergunta “se os hereges, cismáticos e excomungados podem consagrar”, responde que “podem consagrar a Eucaristia [mas] não recebem o fruto do sacrifício” (IIIª parte, questão 82, artigo 7).

As mesmas sedes episcopais dos cismáticos que conservaram a validade do sacramento da Ordem são usurpadas e somente são materialmente ocupadas pelos seus bispos, pois embora possuam o sacramento, não têm jurisdição. São ramos secos que se separaram da verdadeira Videira.

Quando o falso ecumenismo começou a invadir a Igreja, nos anos anteriores ao Concílio, os teólogos modernistas buscaram a maneira de outorgar certa legitimidade às comunidades de orientais cismáticos e de protestantes, para que a Igreja católica pudesse estabelecer com eles um diálogo de igual para igual.

Para isso recorreram à doutrina dos “vestigia Ecclesiæ”, mas introduzindo uma mudança que não era pequena: em lugar de reconhecer, como até então, que estes vestígios eram coisas mortas e inoperantes, os consideraram como “elementos eclesiais” vivos e santificantes, que entravam como princípios constitutivos destes organismos. Algo muito parecido seria dizer que o coração do cordeiro, que ficou como vestígio na barriga do lobo, lhe comunica a este os seus sentimentos.

Já não tem muito sentido ficar dando voltas ao “subsistit” quando se mordeu o anzol dos “elementa”. Como revela a nota 4 do documento que comentamos, a todos os Padres conciliares que se queixavam do que sugeria o “subsistit”, lhes esfregavam a cara com esta falsa doutrina.

Um dos pedidos exige: “Que se diga mais expressamente que a verdadeira Igreja de Cristo é uma só; que esta é a católica, apostólica e romana; que todos devem buscá-la, para conhecê-la e entrar nEla para alcançar a salvação”.

A isso, se respondeu: “Na totalidade do texto se cumpre o pedido. Por outra parte, não se deve silenciar que também nas outras comunidades cristãs se encontram verdades reveladas e elementos eclesiais”.

Aqui está a coisa, e estas “Respostas” a guardam por inteiro: “`Como estas Igrejas, embora separadas, têm verdadeiros sacramentos e sobretudo, em virtude da sucessão apostólica, o Sacerdócio e a Eucaristia, por meio dos quais continuam ainda unidas a nós por estreitíssimos vínculos’ (‘Unitatis redintegratio’, 15), merecem o título de “Igrejas particulares ou locais” (‘Unitatis redintegratio’, 14), e são chamadas Igrejas irmãs das Igrejas particulares católicas” (quarta resposta).

Estas afirmações estão em completa ruptura com a doutrina tradicional. Os cismáticos poderão ter sacramentos válidos, mas não verdadeiros, porque não são santificadores. Poderão ter sacerdócio válido, mas não têm sucessão apostólica, porque são usurpadores. Alguma vez se poderá dar-lhes o nome de igrejas ortodoxas, mas o são em aparência e não verdadeiramente, pois são cismáticas.

Conclusão

O que vejo de positivo neste documento? Desgraçadamente, nada. Os acentos negativos põem de manifesto, certamente, que nem tudo anda bem com o ecumenismo.

Mas, por uma parte, o modernista pensa que estes conflitos são uma etapa necessária na luta dialética dos contraditórios, e tem uma paciência infinita na espera da feliz síntese final. E, por outra parte, como se indicou, o documento continua afirmando os mesmos princípios destruidores.

Enquanto à forma catequética do texto, nos agrada muito na hora de analisá-lo, porque quanto nos fez suar os documentos confusos e intermináveis do pontificado anterior! Mas também não podemos nos alegrar com este fato, porque isto é um sinal de que as teses modernistas já não precisam mais de disfarces.

E, com respeito à intenção de continuidade com a tradição, de cuja sinceridade não tenho motivos para duvidar, é a continuidade dos espíritos que conseguem ver uma evolução contínua até do macaco ao homem. Bem podem encontrar continuidade entre a Igreja humanista do pós-concílio e a simiesca do medievo.

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Nota:

[1] “Convocou-se o Concílio de Éfeso para condenar as impiedades e blasfêmias de Nestorio, bispo de Constantinopla, que de pastor se transformou em lobo voraz, pregando e afirmando que se acham em Jesus Cristo duas pessoas, isto é, dois filhos, o filho de Deus ou seja o Verbo, e o filho do homem, ou Cristo. Deste primeiro erro deduzia outro, segundo o qual não se devia, nem absolutamente se podia chamar a Maria mãe de Deus, senão mãe de Cristo que, na sua opinião não passava de um simples homem; não era pois Deípara senão Cristípara. Estas blasfêmias causaram tal horror entre os cristãos, que ouvindo-as pela primeira vez na Catedral de Constantinopla, fugiram da igreja.” De História eclesiástica, São João Bosco.