Carta aos amigos e benfeitores n° 81

Caros amigos e benfeitores,

Neste fim de ano, convém olhar os principais acontecimentos da Igreja e da Fraternidade para tirar as lições que nos permitirão contribuir para o avanço do reino de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Nesta análise de situação atual, não esqueceremos de que “tudo está nas mãos” da Providência divina que, sem diminuir a liberdade dos homens, dispõe infalivelmente todas as coisas para que cooperem ao bem dos que amam a Deus (cf. Rom. 8, 28). Porém, isto não nos dispensa de nenhuma forma das nossas obrigações, senão o contrário! “A glória do meu pai está em que deis muito fruto”! (Jo. 15, 8)

Parece-me necessário recordar mais uma vez a renúncia do Papa Bento XVI e a eleição de seu sucessor, o Papa Francisco. O Sumo Pontífice vindo da Argentina apresentou-se, desde os primeiros dias, como muito diferente de tudo o que tínhamos visto até agora. A recente Exortação apostólica Evangelii Gaudium ilustra como é difícil entender uma pessoa que não se encaixa nos padrões acostumados, que não hesita em fazer repetidas e veementes críticas ao mundo contemporâneo e à Igreja moderna. Ele descreve muitos problemas reais; mas podemos perguntar sobre a eficácia das medidas recomendadas e duvidar da sua realização. Não é fácil curar um enfermo à beira da morte, e certos tratamentos mais revolucionários ainda do que os empregados até então poderiam acabar com ele! Não escondemos os nossos temores sobre o futuro da Igreja, visto a olhos humanos. Acreditamos firmemente na assistência do Espírito Santo prometida à Esposa de Cristo, mas sabemos que isso não impede que homens da Igreja possam realmente perder almas, conduzindo-as ao inferno.

À primeira vista, não se pode dizer que os meses transcorridos do novo pontificado tenham melhorado essa situação.

Ao mesmo tempo que guardamos a esperança de que uma retomada de controle da situação verdadeiramente inspirada por Deus vai acontecer um dia, a realidade dos sofrimentos espirituais da Igreja militante se mantém como tal. Muitos dos seus membros desconhecem o que está em jogo em suas vidas! No início do século XX, São Pio X disse que a causa principal da perda das almas era a ignorância religiosa, o desconhecimento das verdades da fé. Isso tem se agravado tanto pelo declínio do número de sacerdotes, que se pode perceber gravemente não só na Europa como também em outros lugares, quanto pela formação oferecida nos seminários. A mudança de Papa não alterou em nada esta situação catastrófica, e a reafirmação das lamentáveis orientações do Concílio Vaticano II nos faz recear que, como as mesmas causas produzem os mesmos efeitos, a situação geral da Igreja Católica continue a ser dramática e sem nenhum sinal de melhoria. As canonizações dos dois papas intimamente ligados ao desenvolvimento e à aplicação do Concílio Vaticano II não vão resolver as coisas. Além disso, os anúncios recentes da descentralização do poder pontifício – da sua diluição em uma colegialidade maior-, aplaudido pelos piores modernistas, como Hans Küng, não servem senão para aumentar os nossos temores pelo futuro.

Em meio a essas preocupações, o bem de toda a Igreja deve permanecer querido a todo coração católico. Os progressos da nossa Fraternidade, cuja realização está diante dos nossos olhos, são um motivo de alegria e de ação de graças e a comprovação pelos fatos de que a fidelidade à fé e à disciplina tradicional sempre produz os frutos abençoados da graça

Os 43 novos seminaristas que ingressaram em outubro nos nossos seminários no hemisfério norte e os cerca de 120 seminaristas em formação em nossas casas são um verdadeiro consolo. Nos Estados Unidos, a cada mês avança a construção do novo seminário maior e mais belo em Virgínia. Se tudo correr bem, depois de 2015 esta casa vai abrir as suas portas para continuar o trabalho de formação sacerdotal tão necessário, que se realiza atualmente em Winona, Minnesota.

Durante este tempo, nossos queridos padres percorrem o mundo indo a novos fiéis que nos descobrem e nos pedem ajuda. Os padres nomeados na América Central e na África não são suficientes para as missões que estabelecemos em Costa Rica, Honduras, Nicarágua, El Salvador; na África, Gana, Tanzânia, Zâmbia, Uganda recebem a visita regular dos nossos missionários, mas é tão pouco para saciar a sede espiritual de tantas almas… Senhor, dai-nos sacerdotes!

Em um mundo cada vez mais hostil à observância dos mandamentos de Deus, devemos nos preocupar verdadeiramente em formar almas bem fortalecidas, que levem a sério sua santificação e salvação. Isso leva naturalmente a dar grande importância às nossas escolas e ao seu desenvolvimento. Nessas obras de formação investimos a maior parte dos nossos recursos e energias, tanto humanos como materiais. Padres e religiosos em todo o mundo dedicam-se à magnífica tarefa da educação e da educação católica em mais de uma centena de estabelecimentos.

Bem conscientes, queridos fiéis, que a salvação de uma alma se prepara desde o berço, lutamos com todas as nossas forças para preservar o tesouro da família católica, foco de santidade no meio de um mundo decadente que só pode levar as almas para o inferno. Ponderamos bem e compartilhamos as preocupações dos pais de família que compreenderam que a salvação das almas de seus filhos não tem preço. Sim, temos de estar dispostos a sacrificar todos os bens temporais – até mesmo a dar própria vida-, para assegurar a eternidade bem-aventurada de uma alma.

Sabemos que há algo sobre-humano no que se pede a um católico hoje. O apoio tradicional, que antigamente podia ser encontrado na organização cristã da sociedade temporal, agora é inexistente. Em todos os lugares vemos um turbilhão de erros no campo da fé – até a heresia -, um relaxamento da moral – em especial pelo abandono das leis do casamento e da família -, e uma tibieza sem precedentes para a vida cristã. A nova liturgia deixa muitas almas fracas… Jerusalem desolata est! Também nesta área, as obras da Fraternidade são como um oásis no deserto, como ilhotas no meio de um mar hostil.

Nesse contexto dramático, parece-nos muito necessário lançar uma nova cruzada no mesmo espírito das anteriores, tendo diante dos olhos os pedidos e as promessas do Coração Imaculado de Maria tais como foram expressos em Fátima, mas insistindo principalmente nesta ocasião sobre a sua universalidade. Devemos colocar todo o nosso coração, toda a nossa alma nesta nova cruzada: não devemos nos contentar com a recitação diária do Rosário, senão que cuidadosamente devemos cumprir com o segundo ponto solicitado por Nossa Senhora, que é a penitência. Oração e penitência. Penitência, certamente entendida como a aceitação de certas renúncias, mas acima de tudo como a realização fidelíssima do nosso dever de estado.

Por isso, esta quarta cruzada se apoiará naquela querida por Dom Marcel Lefebvre desde 1979. Uma cruzada tendo como centro a Santa Missa, que é a fonte de toda graça, de toda virtude. No sermão do seu jubileu sacerdotal, em Paris, chamou-nos com força para esta tripla cruzada: cruzada dos jovens, cruzada das famílias, cruzada dos pais de família para uma civilização cristã.

O nosso venerado fundador declarou então: “Creio que posso dizer que devemos fazer uma cruzada apoiada no Santo Sacrifício da Missa, no Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, apoiada nessa rocha invencível e nessa fonte inesgotável de graças que é o Santo Sacrifício da Missa. (…) Precisamos de uma cruzada, uma cruzada com base precisamente sobre esta noção de sacrifício, para recriar a cristandade, reconstruir uma cristandade tal como a Igreja quer, tal como ela fez, sempre com os mesmos princípios, o mesmo sacrifício da missa, os mesmos sacramentos, o mesmo catecismo, a mesma Sagrada Escritura. Nós devemos recriar esta cristandade; os senhores, meus queridos irmãos, são o sal da terra, a luz do mundo, é aos senhores que Nosso Senhor se dirige quando diz: ‘Não desperdiceis o fruto do meu Sangue, não abandoneis o meu Calvário, não abandoneis o meu Sacrifício’. E a Virgem Maria, que está ao pé da Cruz, também lhes diz o mesmo. Ela, que tem o coração transpassado, cheio de sofrimento e de dores, e ao mesmo tempo cheio de alegria por se unir ao Sacrifício do seu divino Filho, Ela também lhes diz: “Sejamos cristãos, sejamos católicos!”

Dom Lefebvre definiu o papel que cada um – jovens, famílias, pais de família – devia ter nesta cruzada:

“Se queremos ir para o céu devemos seguir Nosso Senhor Jesus Cristo, levar a nossa cruz e seguir Nosso Senhor Jesus Cristo, imitá-lo na sua Cruz, em seu sofrimento, no seu sacrifício. Assim, exorto aos jovens, aos jovens que estão aqui nesta sala, a pedir aos sacerdotes para lhes explicar estas coisas tão belas, tão grandes, que decidam sua vocação, e que em todas as vocações que possam escolher, seja como sacerdotes, religiosos ou casados, abracem a Cruz de Nosso Senhor. Se desejam formar uma família pelo sacramento do matrimônio e, portanto, na Cruz de Jesus Cristo e no Sangue de Jesus Cristo, casados sob a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, entendam a grandeza do matrimônio e que se preparem dignamente a ele pela pureza, a castidade, pela oração, pela reflexão. Que não se deixem arrastar por tantas paixões que agitam o mundo. Cruzada de jovens que devem encontrar o verdadeiro ideal!

“Cruzada também das famílias cristãs! Famílias cristãs que estão aqui, que se consagrem ao coração de Jesus, ao Coração Eucarístico de Jesus, ao Coração Imaculado de Maria. Rezem em família! Bem sei que muitos o fazem, mas que haja cada vez mais famílias que rezem com fervor! Que Nosso Senhor verdadeiramente reine em vossos lares! (…)

“Por último, cruzada dos pais de família. Os senhores, pais de família, têm uma grave responsabilidade no país. (…) Acabaram de cantar “Christus vincit, Christus regnat, Christus imperat!”” Trata-se somente de palavras? Apenas palavras? Palavras e cantos? Não! Deve ser uma realidade. Pais de família, os senhores são os responsável por isso, para os seus filhos, para as gerações que se seguirão. Devem se organizar, encontrar-se, cooperar para conseguir que a França [a nação] volte a ser cristã, católica. Não é impossível, ou então seria preciso dizer que a graça do Santo Sacrifício da Missa não é mais a graça, que Deus não é Deus, que Nosso Senhor Jesus Cristo não é mais Nosso Senhor Jesus Cristo. Temos que confiar na graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, porque Nosso Senhor é todo-poderoso. Já vi esta graça em ação na África, não há nenhuma razão para não agir aqui também, em nossos países.”

Então, dirigindo-se de maneira especial aos seus sacerdotes, Dom Lefebvre lhes pedia: “E os senhores, queridos sacerdotes, que me escutam, façam também uma união sacerdotal profunda para difundir essa cruzada, para animar esta cruzada a fim de que Jesus Cristo reine. E para isso devem ser santos, devem buscar a santidade, mostrar essa santidade, essa graça que trabalha em suas almas e em seus corações, essa graça que recebem pelo sacramento da Eucaristia e pela Santa Missa que oferecem. Só os senhores podem oferecê-la.”

Animados por estas palavras vibrantes do nosso fundador, todos os membros da Fraternidade formarão com os senhores, caros fiéis, uma grande cruzada por Nosso Senhor e pelo seu reino, por Nossa Senhora e pelo triunfo do seu Coração Imaculado. Quando o inimigo é declarado, conforme a expressão do Apocalipse, devemos responder aos seus ataques de maneira proporcionada. Deus quer!

Nós os encorajamos, portanto, a ter um espírito de cruzada permanente, ainda que, em razão das necessidades humanas, faremos começar oficialmente esta nova cruzada do rosário em 1º de janeiro de 2014 para concluí-la na festa de Pentecostes (8 de junho de 2014), com o objetivo de reunir um ramalhete espiritual de 5 milhões de terços em reparação pelos ultrajes infligidos à honra de Nossa Senhora, ao seu Coração de Virgem e de Mãe de Deus.

Confiamos à sua bondade materna as suas tristezas e alegrias, suas preocupações e esperanças, para que Ela os guarde fiéis à Igreja, até o céu.

Na festa de São Nicolau, 6 de dezembro de 2013.

+ Bernard FELLAY

 


 

 

Cruzada do Rosário de 2014

de 1° de janeiro a 8 de junho de 2014

 

Objetivo: 5 milhões de terços

1)     Para implorar uma proteção especial do Coração Imaculado de Maria sobre as obras da Tradição;

2)     Pelo retorno de Roma à Tradição;

3)     Pelo triunfo do Coração Imaculado de Maria, através da consagração da Rússia.

Meios:

1)     Oração e penitência pedidos em Fátima;

2)     Santificação pelo dever de estado;

3)     Espírito de sacrifício em união com o Santo Sacrifício da Missa.