Egito: sonho inter-religioso e realidade islâmica

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Em 13 de Janeiro, o vaticanista Sandro Magister publicou, no seu site chiesa.expressonline.it, o apelo lançado por 23 personalidades muçulmanas egípcias a favor de um islã mais autêntico e mais respeitoso dos direitos de todos; em comentário, figura a análise do jesuíta egípcio Padre Samir Khailil Samir, que aproxima este apelo das declarações de Bento XVI. O texto, intitulado Documentos para a Renovação do Discurso Religioso, foi publicado e colocado on-line, em 24 de Janeiro, pela revista egípcia Yawm al-Sâbi (O Sétimo Dia) e retomado por numerosos sites árabes, no mesmo momento em que começava a crise que obteve a saída do Presidente Hosni Mubarak.

O Padre Samir traduziu e levou ao conhecimento do mundo não árabe, no sítio da agência de Imprensa Asia News, do Pontifício Instituto das Misões Estrangeiras, o documento com 22 pontos, base de um programa de reforma do islã, para passar «de uma prática superficial e exterior dessa religião a uma prática que seja mais autêntica e mais essencial», seguido de explicitações. O Padre Samir considera importante o ponto 8, que propõe separar a religião da política. No desenvolvimento deste ponto pelos intelectuais muçulmanos figura a palavra “almaniyyah“, laicidade, palavra que, nos países árabes, é geralmente compreendida como significando ateísmo e que, portanto, está condenada por princípio. Os autores do documento escrevem no seu comentário que a laicidade não deve ser considerada inimiga da religião, mas mais como protecção contra a utilização política ou comercial da religião. «Neste contexto», escrevem, «a laicidade está em harmonia com o islã e, por consequência, é juridicamente aceitável». Mas deixa de ser se se transforma no contrôle exercido pelo Estado sobre as atividades muçulmanas. «Este ponto», sublinha o Padre Samir, «mesmo tendo sido objeto de muitos debates, é prova do fato que está prestes a nascer no Egito o conceito de sociedade civil, que não coincide imediatamente com comunidade muçulmana».

Assinala, igualmente, o ponto 6, respeitante à guerra santa. Os autores do documento não a admitem senão como defensiva e em terra muçulmana. Nunca é permitido matar pessoas desarmadas, mulheres, pessoas idosas, crianças, padres, monges. Nunca é permitido atacar lugares de oração. Os autores sublinham que esta doutrina é a do islã desde há 1.400 anos e que os que a violam a traem gravemente.

Segundo o Padre Samir, se se examina o que Bento XVI disse – no ano do seu discurso de Ratisbona e da sua viagem à Turquia – a propósito do futuro do islã, o documento do Cairo constitui um pequeno passo na direção desejada pelo Papa. Bento XVI tinha afirmado perante a Cúria Romana, em 22 de Dezembro de 2006: «O mundo muçulmano está hoje confrontado, de maneira muito urgente, a uma tarefa muito semelhante à que foi imposta aos Cristãos a partir do Século das Luzes e à qual o Concílio Vaticano II deu soluções concretas para a Igreja Católica, no fim de uma longa e difícil pesquisa.

«Por um lado, devemo-nos opôr à ditadura da razão positivista, que exclui Deus da vida da comunidade e da organização pública, privando, assim, o homem dos seus critérios específicos de medida.

«Por outro lado, é necessário acolher as verdadeiras conquistas da filosofia das Luzes, os direitos do homem e em particular a liberdade da fé e do seu exercício, nisso reconhecendo, igualmente, os elementos essencias para a autenticidade da religião. Tal como na comunidade Cristã houve uma longa pesquisa sobre o justo lugar da fé face às convicções – pesquisa que não será, certamente, nunca concluída de modo definitivo – assim o mundo muçulmano se encontra, igualmente, com a sua tradição própria, ante a grande tarefa de encontrar soluções adaptadas nesta matéria».

Comentário: É bem, esta a esperança que guia o diálogo inter-religioso com o islã: a aparição de discípulos de Maomé unidos aos ideais das Luzes e aos direitos do homem, como as autoridades romanas desde o Vaticano II. Sem falar das dificuldades doutrinais que tal projeto não deixa de levantar e que não são pequenas, evoca-se um problema simplesmente prático: pode o islã, que não tem clero, convocar um concílio para fazer um «Vaticano II Muçulmano» que se imporia a todos os adeptos, qualquer que seja a sua corrente (chiíta, sunita…) e qualquer que seja o antagonismo entre estas correntes?

No fundo, que representam, verdadeiramente, os pensadores muçulmanos egípcios que redigiram o documento? Decerto, pôde-se ver, na Praça Tahrir do Cairo, muçulmanos e cristãos coptas unidos contra o regime; mas, ao mesmo tempo, um inquérito realizado por Pew Forum on Reli­gion & Public Life, de Washington, em sete países muçulmanos – entre os quais, o Egito – citado por chiesa.espressonline, revelava que as aspirações «democráticas» da população egípcia (59%), conviviam com a defesa dos princípios do islã (84%), a influência da religião islâmica na política (85%)… Para passar do sonho à realidade, só é preciso acordar.

Fontes : chiesa/asianews – DICI n° 231 du 05/03/11