Esclarecimento sobre a Sagração de Bispos, Pe. Fernando Rifan

Padre Fernando Arêas Rifan
Porta-voz dos “Padres de Campos” fiéis à Tradição.

 

 

Sobre a Sagração de Bispos

Conferida por S. Exa. o Arcebispo Dom Marcel Lefebvre

ESCLARECIMENTO

1 – Necessidade

Diante da crise atual sem precedentes na história da Igreja, crise de Fé e de Moral, diante do progressismo que nada mais é do que o Modernismo instalado até nos altos postos da Igreja, diante da lamentável apostasia geral de padres e bispos, que não só não cumprem sua missão de nos transmitir a verdadeira doutrina mas levam as almas para o caminho da perdição, é da maior necessidade e urgência haver bispos fiéis à Tradição.

Necessário para a guarda e transmissão pura e íntegra do depósito da Fé e para a ordenação de sacerdotes que garantam a continuidade do Santo Sacrifício da Missa e dos Sacramentos.

Urgente porque há mais de vinte anos que esta crise perdura, sem nenhuma perspectiva de mudança da parte das autoridades atuais: não se pode esperar mais.

Ensinam os teólogos (cf. Don Adrian Gréa in “Ação extraordinária do Episcopado”, pág. 240-264) que, para se realizar uma sagração episcopal sem o mandato pontifício, é necessário que se verifiquem duas condições:

1ª Que haja uma situação que ponha em perigo a própria existência da religião em uma parte notável da cristandade.

2ª Que haja uma impossibilidade de se recorrer às autoridades competentes.

Ora: 1º – A crise de Fé e identidade hoje é universal: a apostasia grassa em todos os campos e setores da Igreja. Como disse Dom Manuel Pestana, bispo de Anápolis, apesar de não ser totalmente da nossa posição, em recente entrevista (JB de 11/3/88): “Creio que já ultrapassamos os limites do tolerável… Não é apenas a fumaça de satanás que entrou na Igreja, por alguma fenda oculta, como lamentava o Santo Padre Paulo VI: é, transpondo triunfalmente os portões, o diabo inteiro, presente nos mais altos postos, através de seus fiéis seguidores“.

2º – A impossibilidade de se recorrer às autoridades competentes é evidente. Com efeito, constata-se dolorosamente a cooperação de Roma com a destruição geral da Fé católica. Como disse Dom Lefebvre (Sermão de 29/6/87), Roma promove atualmente o Panteon de todas as religiões, como o fizeram os imperadores pagãos. Como recorrer a Roma quando é Roma que entretém o mal?! Se foi a Roma atual que promoveu o famigerado encontro de todas as religiões em Assis, convidando-as inclusive a invocarem os seus falsos deuses, o que veio a ser, incontestavelmente, uma injúria a Deus, uma negação da necessidade da Redenção, uma falta de justiça e caridade para com os infiéis, um escândalo para os católicos e uma traição à missão da Igreja e de Pedro, como recorrer a ela para manter a Tradição?! Cumpre-se tristemente a profecia de Nossa Senhora em La Salete: “Roma perderá a Fé e se tornará a sede do Anti-Cristo“.

Fazemos nossas as palavras de S. Exa. D. Lefebvre: “Nós aderimos, com todo o nosso coração, com toda a nossa alma à Roma Católica, guardiã da Fé católica e das tradições necessárias à manutenção desta mesma Fé, à Roma eterna, mestra de sabedoria e de verdade. Nós recusamos, ao contrário, e sempre recusamos seguir a Roma de tendência neo-modernista e neo-protestante que se manifestou claramente no Concílio Vaticano II e, depois do Concílio, em todas as reformas dele provenientes“.

2 – O Acordo

Sempre desejamos a paz e a união. Foi o próprio D. Lefebvre que pediu a Roma um visitador para a sua obra. Mas o acordo desejado só se poderia realizar com a identidade da doutrina tradicional da Igreja. Caso contrário, seria frágil e superficial.

A Santa Sé enviou um visitador na pessoa do Cardeal Eduardo Gagnon. Depois de uma minuciosa visita à obra da Fraternidade São Pio X de D. Lefebvre, o Cardeal só teve elogios ao Arcebispo e à sua obra:

É maravilhoso. É sobre estas bases que se restaurará a Igreja. Guardamos uma grande admiração pela piedade das pessoas, pela atualidade e importância das obras sobretudo no que diz respeito à catequese, a formação, a administração dos sacramentos” (cf. Fideliter nº 62, páginas 29 e 31).

Ora, esta obra sacerdotal, tão elogiada e abençoada pelo enviado do Papa, obra que conta com centenas de padres e seminaristas e um sem número de religiosas, priorados, escolas, seminários, etc., só pode subsistir se lhe forem dados bispos conformes à Tradição.

Por que lhe foi negada por Roma a autorização para sagrar? O motivo é sua fidelidade à Tradição: não quer a Fraternidade se engajar na atual autodemolição da Igreja.

Elogiar e defender uma obra e depois condená-la à morte negando-lhe bispos, é repetir o gesto de Pilatos que declarou a inocência de Jesus e o condenou à crucifixão!

E isto se faz no momento em que o Vaticano vem dar um atestado público de boas intenções ao comunista (ateu e materialista) Mikhail Gorbatchov! (cf. O GLOBO 10/6/88 pág. 15).

E os jornais europeus acabam de anunciar a ordenação sacerdotal do pastor protestante Max Thurian, conferida pelo Cardeal Ursi de Nápoles, sem que ele tenha feito qualquer abjuração de suas heresias! (cf. Le Monde 12/5. La Croix 11/5, Présent 19/5 pág. 5).

Jean Guitton, grande amigo e confidente de Paulo VI, lamentava: “Como posso fazer compreender a meus irmãos separados que nossa Igreja romana seja tão acolhedora para com eles, quando a vêem tão rude para com certos fiéis?… É difícil abrir os braços aos que estão fora e os fechar aos de dentro…” (“Silence sur l’essentiel”, p. 42).

Que contradição maior pode haver do que esta: abertura e compreensão para com os inimigos da Igreja e castigo para com os que querem permanecer fiéis?!

3 – Cisma

Cisma quer dizer ruptura, rompimento. Ruptura com a Igreja e com o seu chefe, o Papa. Evidentemente quando o Papa está com a Igreja. Porque pode um Papa romper com a Igreja: neste caso ele é que é o cismático. “Quanto ao axioma ‘onde está o Papa aí está a Igreja‘ “, vale quando o Papa se comporta como Papa e chefe da Igreja; em caso contrário nem a Igreja está nele nem ele na Igreja” (Cardeal Caetano II-II, 39, 1 – Cardeal Journet, L’Eglise du Verbe Incarné, t. I, pág. 596). Do mesmo modo o grande teólogo jesuíta Suarez afirma que “o Papa poderia se tornar cismático se quisesse subverter todas as cerimônias eclesiásticas fundadas na tradição apostólica” (De Caritate, disp. XII, sect. I, nº 2, p. 733-734).

Ora, romper com quem rompeu com a Tradição não é Cisma, é fidelidade. Não se pode ter uma união de caridade com quem rompeu com a unidade da Fé da Igreja. Do mesmo modo que rebelar-se contra os inimigos invasores da Pátria não constitui rebeldia mas patriotismo.

São Roberto Belarmino diz: “Assim como é lícito resistir ao Pontífice que agride o corpo, assim também é lícito resistir ao que agride as almas… ou sobretudo àquele que tentasse destruir a Igreja. Digo que é lícito resistir-lhe não fazendo o que ordena e impedindo a execução de sua vontade…” (De Rom. Pont, lib II, c. 29).

A História da Igreja registra exemplos de Santos que ameaçaram romper com a autoridade eclesiástica prevaricadora para permanecerem fiéis. Assim São Godofredo de Amiens, Santo Hugo de Grenoble e Guido de Vienne (que mais tarde foi o Papa Calixto II) escreveram ao Papa Pascoal II, que vacilava na questão das investiduras: “Se, como absolutamente não cremos, escolherdes uma outra via, e vos negardes a confirmar as decisões de nossa paternidade, valha-nos Deus, pois assim nos estareis afastando de vossa obediência” (apud Bouix Tranct. de Papa, t. II, p. 650).

4 – Excomunhão

As penas canônicas supõem um delito, um pecado grave. Será um delito, será pecado ser fiel à Tradição?!

Ademais, as leis da Igreja, como aliás qualquer lei, são uma ordenação da razão promulgada para o bem comum.

As leis não são arbitrárias nem podem ser usadas arbitrariamente.

Assim, não pode haver sagração sem mandato pontifício, mas também o Papa não pode negar este mandato sem motivo. Pelo contrário, sua missão e obrigação é providenciar que haja bispos para a transmissão da verdadeira doutrina e conservação dos sacramentos.

O pior ainda é esta autorização ser negada por causa da Tradição da Igreja.

Qualquer Conferência Episcopal, mesmo estas que favorecem o erro, obtém tranquilamente autorização para sagrar bispos.

Por que à Fraternidade, reconhecida pelo visitador papal como obra de Deus para a restauração da Igreja, é negada a autorização?

A conservação da Fé e a salvação das almas é a suprema lei da Igreja (cf. canon 1752 do Código de Direito Canônico). E, por ser “suprema”, a esta lei se subordinam todas as leis disciplinares.

Santo Atanásio, no séc. IV, não obedeceu ao Papa Libério que favorecia à heresia ariana. Por isso o Papa o excomungou (cf. Denz.-Schoenm. 138 – Ep. “Studens Paci”).

Tanto a ordem como a excomunhão foram arbitrárias. Por isso não valeram. E Santo Atanásio não foi cismático. Enquanto que o Papa Libério passou à história como fautor de heresia, Santo Atanásio foi canonizado pela Igreja. E ele está no céu! E é o que importa!

Que meditem nisso aqueles que dizem que preferem errar com o Papa!

Quando o veneno letal do arianismo arrebatou uma não pequena parte mas quase todo o universo, e quando a maior parte dos bispos havia sucumbido, quer pela violência quer pela fraude, e já quase não se discernia entre a imensa e avassaladora confusão, os verdadeiros adoradores de Cristo preservaram-se do contágio, preferindo a antiga fé à perfídia nova” (São Vicente de Lérins) – Commonitorium).

Foto-imagem do folheto distribuído aos fiéis na época:

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Pe. Fernando Arêas Rifan

 

Porta-voz dos “Padres de Campos” fiéis à Tradição.