Liberdade Religiosa

Hoje iniciamos uma série especial de artigos sobre liberdade religiosa. Serão 15, no total, distribuídos ao longo das próximas semanas. Abaixo, o sumário da série, seguido do primeiro artigo, de autoria do Pe. Christian Bouchacourt, Superior do Distrito da América do Sul da FSSPX.

Série sobre a Liberdade Religiosa

  1. Querida liberdade!
  2. A americanização da Igreja Católica
  3. A experiência norte-americana
  4. A gestação do espírito “americano”
  5. A heresia note-americana
  6. Táticas do “americanismo”
  7. A “proposta norte-americana”
  8. John Courtney Murray
  9. Os bispos norte-americanos no Concílio
  10. A primeira sessão (1962)
  11. A segunda sessão (1963)
  12. A terceira sessão (1964)
  13. A quarta sessão (1965)
  14. Conclusão
  15. Uma reflexão final

=

Querida liberdade!

Rev. Pe. Christian Bouchacourt, FSSPX

 

No dia 13 de dezembro e com a assinatura do Cardeal William Levada, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o Vaticano publicou uma “nota sobre certos aspectos da evangelização”. Alguns viram nisto um retorno à doutrina mais tradicional. De fato, analisando-a mais detidamente, podemos ver que não é assim. É verdade que se condena certo relativismo religioso; no entanto, não se expõe a razão essencial que impulsa a Igreja há dois mil anos a enviar seus missionários ao mundo inteiro. E esse era, porém, o objetivo da nota!

Com efeito, o documento evoca (§ 10) a ordem dada por Cristo: “Ide, pois, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-lhes a guardar tudo o que Eu vos ensinei”, mas não expõe a razão em que se funda este mandato, e que se encontra nestas outras palavras de Nosso Senhor, que nem se citam nem são comentadas no mencionado documento: “Quem crer e for batizado se salvará; quem não, se condenará”. A Igreja é missionária porque quer arrancar as almas da perdição e entregá-las a Jesus Cristo. É isso o que gostaríamos de ter lido!

O Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé parece querer ignorar esta verdade essencial. Ao menos crê nela? Contenta-se em citar (§ 7) diversos documentos do último Concílio, tais como: “Os não cristãos podem salvar-se por meio da graça que Deus dá <<por vias que só Ele conhece>>”. Agora bem, se podemos salvar-nos em outras religiões à margem da religião católica, que sentido há que a Igreja seja missionária? E a resposta é: só para dar lugar a uma amizade. “A Igreja pode passar por alto que neste mundo lhes falta um grande bem: conhecer o verdadeiro rosto de Deus e a amizade com Jesus Cristo, Deus conosco” (§ 7). Por que não afirma o Cardeal que esta amizade com Cristo não pode existir verdadeiramente fora da Igreja Católica? O que faz ele do dogma “Fora da Igreja não há salvação”? Deixa em silêncio esta verdade, porque é preciso salvar e justificar o espírito “profético” de Assis iniciado por João Paulo II e continuado pelo Papa Bento XVI com o encontro de Nápoles há algumas semanas.

Com o rigor da verdade, lendo o documento se entende que o católico deve ser missionário porque o anúncio da fé responde a um desejo que ele tem no mais profundo de si com ordem a fazer participar os outros nos bens que recebeu. Assim, a evangelização permite enriquecer o outro (§ 6), o que não é falso, mas gravemente incompleto. Ignora-se toda a ordem sobrenatural. Do êxito do impulso evangelizador encarado pela Igreja depende a salvação eterna de uma grande quantidade de almas. Quem aceite o ideal evangélico na sua vida terrestre e o ponha em prática com a graça de Deus, depois de sua morte gozará eternamente da visão de Deus no Paraíso.  Porém, quem não o faça se condenará no Inferno por toda a eternidade. Este sim é todo o drama da salvação!

Esta é a razão pela qual Cristo morreu na Cruz, pela qual fundou Sua Igreja, que é a única depositária do Evangelho, pela que tantos missionários deixaram tudo e ainda derramaram seu sangue ao longo de dois mil anos: para ganhar as almas para Jesus Cristo. Isso é o que desejávamos ler neste documento e está ausente dele!

Por que não se afirma esta doutrina tradicional? Porque muitos homens de Igreja estão impregnados de uma noção errônea sobre a liberdade. Com efeito, se perguntamos a um homem na rua a definição de liberdade, responderá que consiste no direito de fazer o que se queira, como queira, quando queira, e sem nenhum impedimento. É a definição liberal de liberdade, que saiu das lojas maçônicas, e que conduz à ruína de toda autoridade, sobretudo a da Igreja Católica.

Em realidade, a verdadeira liberdade é a capacidade que todo homem tem para escolher o melhor bem de vários bens. É, como dizia Leão XIII, “a faculdade de mover-se dentro do bem”. Porque não somos livres para amar ou não a nossos pais: devemos amá-los! A liberdade nos ajudará a escolher o melhor meio de manifestar-lhes nosso amor. Do mesmo modo, não somos livres para amar e adorar, ou não, o verdadeiro Deus: devemos amá-lo e servi-lo da melhor maneira possível! Quem venera a outro que não seja o verdadeiro Deus Trino está no erro e põe em jogo sua salvação eterna. Esta é a linguagem que os missionários têm tido há vinte séculos, ainda quando os homens a quem se dirigissem pudessem ter sido pessoas sinceras. Mas a sinceridade não faz a verdade… A Igreja quer levar o Evangelho até os extremos da Terra porque tem uma obsessão pela salvação das almas.

Frente a esta exigência, a lei divina ou humana apresentam ao homem quais são os fins e delimita os meios a empregar para alcançá-los. O homem não se inclina facilmente à verdade e o bem porque a alma está ferida pelo pecado original e sujeita à desordem das paixões. A consciência está obscurecida. O papel da lei é, pois, ajudá-la a ordenar-se ao fim. Daí que, longe de ser inimiga da liberdade, a lei – em particular a civil – é garantia de liberdade moral. Fazendo eco aos Papas, sobretudo Leão XIII, o Cardeal Billot, cuja lucidez lhe fazia prevenir a crise que ia sobrevir, apontou muito claramente: “Este princípio fundamental do liberalismo é absurdo (…) absurdo, no sentido que pretende que o bem principal do homem radica na ausência de toda obrigação capaz de impedir ou restringir sua liberdade (…) A liberdade não pode ser um fim em si e o fim supremo”.

Na declaração “Dignitatis humanae”, o Concílio Vaticano II adotou a doutrina liberal. Julguem por si mesmos: “Esta liberdade consiste em que todos os homens hão de estar imunes de coação, tanto por parte de indivíduos como de grupos sociais e de qualquer poder humano, e isto de tal maneira, que em matéria religiosa, não se obrigue a ninguém a obrar contra sua consciência”. Para evitar este texto, Dom Lefebvre enviou estas linhas ao Secretariado do Concílio Vaticano II: “Da mesma forma, a liberdade humana não pode ser definida como ausência de toda coação, e isto sob pena de destruir toda autoridade. A coação pode ser física ou moral. A coação moral é muito útil na esfera religiosa e se encontra ao longo de toda a Escritura: <<o princípio da sabedoria é o temor de Deus>> (…) Uma coisa é afirmar a necessidade atual de que a autoridade deixe uma margem mais ampla de liberdade, e outra é pretender que esse estado de fato é mais conforme à dignidade humana. Semelhante pretensão entranharia admitir implicitamente o direito ao escândalo, seja por meio do vício, seja através do erro. Deus nos livre!”

Portanto, é preciso voltar à doutrina tradicional. A verdadeira evangelização não consiste só em apresentar a verdade senão também em denunciar os graves perigos a que se expõem os que querem viver no erro. Essa é a verdadeira caridade. Liberdade, liberdade, quantas almas se perdem em seu nome!

Assim, pois, queridos leitores, na atual confusão dos espíritos, estudemos a verdade católica, que é a única que devemos propagar por amor a Deus e por caridade às almas. Fora da verdade não há verdadeira liberdade.

Que Deus os abençoe!